Adorao Selvagem
A Savage Adoration
Penny Jordan




Dominic rejeitara a adolescente, mas agora desejava a mulher.

Com um olhar sensual e o corao batendo descontrolado no peito, Cristy resolvera transformar a amizade que a unia a Dominic numa relao adulta, entregando-lhe
seu corpo ainda virgem. Que desastrada fora ao tentar seduzi-lo! E como ele a humilhara, recusando seu amor e suas carcias, destruindo seus sonhos e fantasias de
adolescente!
Oito anos depois ela iria enfrent-lo de novo, para seu bem ou seu mal, com a mesma mgoa, o mesmo dio e o mesmo corao apaixonado.


Disponibilizao: Valeria O.
Digitalizao Joyce
Reviso: Crysty

CAPITULO I

Cristy abriu a porta da cozinha e saiu para o jardim. A primeira neve daquele inverno havia cado durante a noite e a paisagem estava completamente mudada. Ela inspirou
suavemente o ar frio, saboreando a beleza do lugar e admirando, ao longe, o cu acinzentado. A sensao de estar ali era deliciosa.
Da fogueira feita por seu pai, subia uma tnue fumaa que se confundia com a linha do horizonte, at se misturar ao tom cinzento das nuvens.
Alm do jardim, salpicado de branco pela neve recente, bosques de pinheiros cortavam os campos que se estendiam at o comeo das colinas Border. Sem dvida, um daqueles
tpicos dias do frio ms de janeiro, em Setondale, cuja atmosfera lhe era to familiar, apesar dos longos anos de ausncia. Ali, na casa de seus pais, vivera toda
a sua infncia e adolescncia, at os dezessete anos. Tudo to diferente de Londres e da vida que levava, agora, na grande capital...
Cristy caminhou em direo  fogueira, observando o pai por alguns instantes, enquanto ele terminava de apagar o fogo. Reparou que aquele homem to alto e querido
ainda usava o mesmo casaco de tweed, grosso e bem feito, que ela conhecera quando ainda era adolescente. Uma onda de carinho a envolveu e foi com afeto que lhe sorriu,
quando ele virou-se para ouvi-la:
- O almoo est quase pronto, papai.
- timo! Estou faminto. Logo que acabar isto aqui, vou entrar.
Cristy esperou-o e foram caminhando juntos para a casa. To alta como o pai, ela herdara os belos olhos verdes e ovais da me, cujos ancestrais eram celtas. Era
a eles, sem dvida, que devia o temperamento explosivo, bem como os fartos e chamejantes cabelos ruivos. Descendente do antigo povo guerreiro que habitava a regio
montanhosa de Glen Goe, a me de Cristy sempre se vangloriava pelo fato de a filha possuir o mesmo esprito guerreiro de seus ancestrais.
Enquanto caminhavam, seu pai voltou ao assunto que a trouxera de volta, num tom de quem pede desculpas:
- Sabe, meu bem,  timo para ns ter voc em casa, embora eu preferisse que as circunstncias fossem outras, bem mais felizes.
Mas no precisa ficar, se no puder. Sua me...
- Mas quero muito ficar! - interrompeu-o ela. - Mesmo que mame no precisasse ter feito essa operao, eu teria vindo para c. Sabe, papai, em Londres  to fcil
desligar-se das realidades que realmente importam na vida... - suspirou, sonhadora. - Acabei de deixar meu emprego, pai - completou com voz firme.
No havia tido tempo de contar ao pai essa notcia, durante o rpido e urgente telefonema que recebera, avisando-a sobre a operao de emergncia da me. Entretanto,
agora que o perigo j passara e sua me deixara o hospital, era o momento de falar sobre seus planos.
Seu pai franziu o cenho, segurando-lhe a mo e obrigando-a a encar-lo. Cristy desviou o olhar, mordendo o lbio inferior, pois podia sentir a surpresa e a inquietao
do pai. Ficaram parados, conversando, a poucos passos da porta da cozinha.
- Mas, Cristy, voc parecia estar to contente no seu trabalho de secretria de David Galvin! Pareceu-nos muito feliz, quando veio para casa no vero passado...
- E estava, papai. Mas David aceitou o convite para escrever a msica de um filme americano. Para isso, precisar viajar para Hollywood. Pediu-me que fosse junto,
mas eu no concordei. Assim, no me restou alternativa: pedi demisso.
Cristy rezou para que o pai aceitasse essa explicao e que no procurasse insistir no assunto, com novas perguntas, difceis de responder sem mentir ainda mais.
O que ela lhe contara tinha sido apenas uma pequena parcela da verdade. Jamais poderia dizer ao pai os verdadeiros motivos de sua demisso. O melhor a fazer seria
tentar esquecer tudo. Mas como?
Calados, ambos permaneceram de p, olhando para o horizonte, cada qual imerso em seus prprios pensamentos. Que tipo de dvidas poderiam ter assaltado o pensamento
de seu pai?
Tudo rura, quando percebera que no conseguia mais suportar a insistncia de David para que se tornassem amantes. Tinha sido a gota d'gua. Logo que ele comeou
a cortej-la, chegou a sentir-se lisonjeada, pois David era um homem bastante atraente e msculo, alm de compositor de fama mundialmente reconhecida. Entretanto,
no o amava.
Mas sabia que a presso contnua de David acabaria por quebrar-lhe a resistncia. E se isso viesse a acontecer, ela iria se odiar depois. Afinal, no era cega nem
idiota: a infidelidade notria do artista em nada o recomendava, e a esposa dele agentava essa situao como se fosse o preo que tinha que pagar por ter um marido
ainda to jovem e to famoso. Meryl humilhava-se com medo de perder David.
Aos trinta anos, David colecionava aventuras, pois tinha aquele
tipo de magnetismo que atraa as mulheres, como se fossem abelhas  procura de mel. Cristy reconhecia honestamente que havia passado por momentos em que fora difcil
resistir s suas investidas. Trabalhara com ele durante quatro anos, e fora aceita por Meryl e as crianas como um membro da famlia. No entanto, sabia como esses
casos passageiros prejudicavam cada vez mais o relacionamento do casal, e a ltima coisa que queria era ser a responsvel pela infelicidade daquela famlia to querida...
Assim, tinha feito n nica coisa possvel: fugira.
Pouco antes do Natal, Cristy avisara David de que se demitiria. Nilo houvera necessidade de explicar o motivo e ela guardava na memria o modo como ele comprimira
a boca, com raiva e zombaria. A reao de uma criana, muito desejosa de algo que lhe foi negado... E era assim que David a queria: como se fosse um brinquedo. Por
isso fizera chantagem emocional, tentara comov-la, quase conseguindo destruir seu autocontrole.
Quando esse pensamento lhe ocorreu, Cristy sorriu com amargura. Ah, resistira, sim. E como! E sabia a quem agradecer por essa sua capacidade de resistncia  seduo
masculina... Sentia-se uma mulher marcada pelo resto da vida, por no ter sorte com homens!
Passara o Natal sozinha, recusando o convite de Meryl para festejar essa data com eles, na bela manso de Wimbledon, como fizera nos anos anteriores. Quando sentia
que a solido era to forte a ponto de sufoc-la, recebeu o telefonema do pai com a notcia de que sua me acabara de ter um colapso.
No quis perder nem um minuto. Assim que arrumou as malas ps-se a caminho, e, agora que estava em casa, pretendia ficar.
H muito tempo no se sentia to calma e segura. Sua me ainda iria precisar de cuidados por alguns meses, tempo suficiente para Cristy pensar sobre o rumo que daria
 sua vida. Quem sabe, no poderia trabalhar com o pai, como secretria, j que a dele estava se aposentando? Qualquer que fosse a soluo para o seu futuro, de
uma coisa estava segura: no momento presente tinha tomado a deciso certa, a nica possvel.
Se tivesse permanecido em Londres, David acabaria por achar um jeito de convenc-la a ir com ele para Hollywood. Na aparncia, exercendo o cargo de sua assistente
pessoal, mas, na verdade, concordando em ter um caso com ele. Ento, resolvera cortar os laos com a cidade grande.
Nesse momento, percebeu a presena do pai, olhando-a de modo interrogativo. Comprimiu os lbios, tomou o brao dele e entrou na cozinha, para terminar o almoo.
A casa onde Cristy passara grande parte da vida ficava no campo, quase no fim de uma velha estrada de terra, distante cerca de dezesseis quilmetros da cidade onde
seu pai trabalhava e vivia desde o casamento. Ali ele montara seu prprio negcio, formando uma sociedade. Agora, aps tantos anos, alguns scios haviam morrido
e outros aposentaram-se; assim ele ia tocando o trabalho sozinho, com a ajuda de uma velha secretria e de um jovem contador. Portanto, aquela casa era a espectadora
dos bons e maus momentos do casal. Ali nascera Cristy, ali se criara. E a deixara, depois de uma triste decepo.
Era uma construo slida, com pedras locais, protegida dos ventos cortantes do inverno pelas colinas Border, que cercavam o pequeno vale onde a casa fora construda.
Uma pequena vila, com escola e igreja, era o lugarejo mais prximo, distando menos de dois quilmetros. Cristy podia lembrar-se perfeitamente das longas caminhadas
na neve at o ponto de nibus, onde ela e as outras crianas esperavam conduo para ir  escola, na vila. Aqueles tinham sido dias alegres. A vida simples, ento,
e ela, feliz, embora um pouco solitria. As outras crianas sempre a amolavam, chamando-a de "cenoura", por causa de seu cabelo vermelho.
"Passado  passado", pensou ela, enquanto terminava o almoo. Em seguida levou a comida especial para a me e desceu ao encontro do pai, quando ento, lembrou-se
do telefonema que recebera antes de ir procur-lo no jardim.
- Recebi o recado de que o mdico vir ver mame agora  tarde. Ainda  o dr. Broughton? - perguntou, assim que o pai sentou-se para almoar.
- No, Cristy. Sua me no lhe disse? Alan Broughton aposentou-se um pouco antes do Natal. Dominic Savage  nosso mdico desde ento.
Os braos de Cristy amoleceram e ela quase derrubou a travessa da salada que segurava. Ainda bem que estava de costas, e seu pai no pde ver-lhe a expresso de
surpresa estampada no rosto.
- Dominic? Mas eu pensei que ele estivesse na Amrica!
- Ele realmente esteve l, mas decidiu voltar. Creio que  o caminho mais natural, no acha? O av dele foi o nico clnico-geral por aqui, durante longo tempo,
e agora Dominic ficou em seu lugar.
- Mas Dominic sempre foi to... to ambicioso...
- As pessoas mudam, querida. - O pai de Cristy sorriu, com um brilho malicioso no olhar. - Olhe para voc, por exemplo. Eu bem que me lembro de um tempo em que voc
no conseguia ouvir mencionarem o nome de Dominic, sem ficar vermelha como tomate.
Cristy lutou contra o pnico e o sofrimento que a invadiram, e forou um sorriso ligeiro.
- , tem razo. Minha adorao de adolescente era bastante obvia, no ? Ainda bem que crescemos e superamos esse tipo de coisa! Devo ter deixado todos vocs doidos,
sem falar em Dominic.
- Hum... No sei, no. Sempre tive a impresso de que ele tinha uma "quedinha" por voc, Cristy.
Uma "quedinha"! Se seu pai soubesse... A ltima coisa que ela esperava ou desejava, ao voltar para casa, era encontrar Dominic. Duvidava de sua capacidade de encar-lo
com frieza e indiferena, ainda mais agora que se sentia to vulnervel e carente. Estremeceu, lembrando como aqueles belos olhos cinzentos pareciam poder enxergar
atravs dela, os seus pensamentos, desejos, e como aquela voz profunda e incisiva podia arrasar sua dbil argumentao.
Sentia o corao disparado como louco, quando terminou de servir o almoo. Se pudesse, tomaria o prximo trem para Londres, e ficaria por l. Mas agora era muito
tarde: havia cortado todos os laos que a prendiam a Londres, e ainda havia seus pais a considerar. A me precisava de cuidados e muita ateno de algum que a vigiasse
e no a deixasse se exceder. Conhecia sua me: sempre levara uma vida ativa, ocupada, e no faria direito a dieta e o repouso, se a deixassem por conta prpria.
Dominic Savage de volta a Setondale! Era ele o ltimo homem sobre a terra que Cristy esperava ver nesse momento de sua vida.
Enquanto ela arrumava a cozinha, seu pai subiu para ficar com a esposa. Dominic s era esperado por volta das trs horas, e Cristy procurava, ansiosa, pensar numa
desculpa para no estar em casa quando ele chegasse. Sentia o rosto queimar s de lembrar-se do ltimo e terrvel encontro que tivera com Dominic.
Era verdade que, naquela poca, s tinha dezessete anos, mas alimentava uma paixo desesperada por ele. E, o que seus pais sabiam  que tinha sido por causa dessa
adorao e da atitude de Dominic diante disso que ela resolvera ir para a universidade e, depois, decidira viver e trabalhar em Londres. Depois daquele traumtico
encontro, Cristy no se sentia capaz de encar-lo novamente, ento fugira. Uma fuga sem necessidade, j que, como soubera mais tarde, ele havia partido de Setondale
para terminar seu curso de medicina nos Estados Unidos.
Quanto mais pensava, mais as lembranas se atropelavam vvidas em sua mente. No estava agentando a presso de todas as recordaes, por isso resolveu sair. Precisava
respirar o ar frio e recuperar a calma e o autocontrole.
Seu velho casaco da faculdade estava pendurado no cabide da lavanderia, e ela o vestiu apressada e com movimentos descoordenados. L fora o cu tornava-se mais denso
e ameaador e o indcio de que ia nevar ficava cada vez mais evidente.
Nas colinas, Cristy podia ver um pastor e seu cachorro conduzindo as ovelhas para a plancie. Enquanto caminhava, sentia a brisa fria que lhe desmanchava os cabelos
e devolvia a cor a seu rosto. Aos poucos a tenso cedeu e os msculos comearam a relaxar. O caminho que escolhera era-lhe bastante familiar. Passava por lugares
conhecidos, ouvia os cachorros latirem nos quintais das casas, incomodados pela sua presena. Nada, entretanto, a distraa de seus pensamentos.
Dominic voltara! Seu corpo voltou a ficar tenso e ela suspirou profundamente.
Seu pai lhe havia dito que Dominic tinha uma "queda" por ela. Como estava enganado! Dominic era um homem temperamental e selvagem por natureza e s Deus sabia o
quanto ela havia sofrido por causa desse gnio terrvel.
Com palavras rudes, que Cristy no conseguia esquecer, Dominic destrura todos os seus sonhos e fantasias de adolescente. Ele no fora capaz de perceber a sua inocncia
e ingenuidade, por isso acabara transformando seus anseios de menina-moa em algo vil e torpe, dando-lhe uma imagem to distorcida do amor que, at agora, passados
tantos anos, sentia-se angustiada.
Ilido acontecera por sua culpa, sem dvida. Ela devia ter se contentado em ador-lo a distncia, apenas desfrutando da amizade que tinham h muito tempo. Os pais
de ambos eram amigos e, desde pequena, Cristy sempre estivera ligada a Dominic, apesar de terem oito anos de diferena entre si.
Ele vivia com os pais, na casa ao lado do consultrio, que fora de seu av. Quando tudo aconteceu, j era um mdico recm-formado e estagiava no hospital de Alnick.
Sua amizade por ele transformou-se em paixo, quando estava com dezesseis anos. No ousaria nada mais do que contempl-lo, se no fossem as amigas de escola. Helen,
uma garota bastante precoce, que falava de sexo e de suas ousadas experincias com os namorados, foi quem lhe deu uma ateno especial, escolhendo-a como amiga preferida.
Isso a encantou, pois, quieta e tmida, Cristy tinha poucas amigas.
Ter amizade com a esfuziante e desinibida Helen parecia-lhe a glria! A garota, com seu estilo avanado, estimulou-a a expor-lhe suas dvidas naturais sobre a relao
com rapazes. Por ter mais "experincia", Helen falava muito e s vezes, conseguia mesmo chocar a amiga com a descrio de suas peripcias sexuais. Cristy, entretanto,
achava maravilhoso ter uma amiga que soubesse explicar-lhe fatos que considerava to profundos. No havia ningum para questionar os valores morais de Helen. Era
inevitvel que Cristy vencesse as barreiras da timidez e fizesse confidncias sobre Dominic a Helen.
- Se voc o quer, deve ir at ele e conquist-lo!  fcil, quando se sabe o que fazer. Posso ensinar voc? - Helen sorria-lhe com malcia.
Nesse momento, Cristy percebeu que a fora das lembranas fez imprimir um ritmo forte ao andar. Uma pontada de dor a fez parar e descansar sobre uma grande pedra.
Uma sensao de enjo invadiu-a enquanto tentava afastar o pensamento do passado. Relembrar no ajudava em nada... Alm disso, por mais que voltasse no tempo, no
poderia mudar, apagar e esquecer o que havia acontecido. A dor era bem-vinda, porque significava a realidade, e realidade era o momento presente, oito anos depois
daquele terrvel vero.
Cristy gostaria de j ter superado tudo isso h muito tempo atrs. Queria ter conseguido esquecer Dominic Savage, atravs de sua realizao plena como mulher, amando
outro homem. Mas a lembrana dele, da fria com que a tratara, pairava sobre ela, como um esprito vingador, impedindo-a de ser feliz.
Cristy deu um sorriso amargo, ao lembrar da surpresa de David ao saber que ela ainda era virgem:
- Voc, virgem?! Mas  impossvel, Cristy! Basta um homem olhar para voc pra perder a cabea! Esses olhos... o cabelo vermelho... seu corpo... no pertencem a nenhuma
donzela da era vitoriana!
Os lbios de Cristy tremiam, e David era sensvel o bastante para perceber que ela no mentia. Se ele no fosse casado! Poderia ter tentado encontrar pelo menos
a satisfao fsica com ele, embora soubesse que jamais sentiria amor. De David queria apenas sua habilidade e experincia como amante, numa tentativa de acordar,
tal como uma bela adormecida, para os prazeres do sexo e, quem sabe... para o amor. Mas no podia ferir Meryl, e, alm disso, a vergonha que passara naquela triste
experincia com Dominic abalara sua sexualidade, impedindo-a de realizar-se como mulher. Um trauma difcil de ser superado...
Ainda apoiada na pedra e perdida em suas lembranas, sentiu os primeiros flocos de neve caindo. Sabia que precisava voltar, mas no tinha vontade. No queria encarar
Dominic, at que tivesse conseguido superar o horror daquela noite.
Cristy no culpava Helen. O erro, o desejo por Dominic, era apenas seu. Ouvira fascinada a amiga descrever-lhe como era fcil seduzir um homem, e como qualquer deles
ficava indefeso diante de uma mulher. O que no levara em conta, em sua ingenuidade,  que Helen falava sobre a seduo de simples garotos, e no de homens como
Dominic...
- Mas, e se ele... e se ele... bem... O que fao se ele no quiser fazer amor comigo?
Helen deu de ombros.
- No se preocupe com isso, Cristy. Ao chegar perto dele, insinuante e sensual, Dominic no ser capaz de resistir. Nenhum deles !
Medo e excitao dominaram Cristy por completo. Excitao por pensar em Dominic fazendo amor com ela, e medo pela prpria ousadia de seu plano.
Tinha sido fcil descobrir uma noite em que Dominic estaria sozinho em casa. A cada duas semanas, os pais dele se encontravam com os dela para jogar bridge. Era
s esperar a noite em que um desses encontros fosse em sua prpria casa!
- Vista algo bem sexy! - foi a primeira instruo de Helen. Fcil de falar... Cristy no tinha nada em seu guarda-roupa que se enquadrasse nessa descrio.
Por fim, mais desconfortvel e embaraada que propriamente sexy, tirou o suti e amarrou a blusa, deixando entrever o vale entre os seios. Completou o traje, com
uma cala jeans bem justa. Um agasalho foi usado para esconder-lhe a blusa ousada, quando desceu para avisar aos pais que iria dar uma volta. Culpa e desejo se debatiam
em seu ntimo, quando subiu na bicicleta e pegou a estrada que passava em frente  sua casa.
Aquele era um vero abafado e as janelas da casa dos Savage estavam abertas. Mas, em vez de chamar por Dominic, Cristy preferiu entrar pela porta dos fundos e fazer-lhe
uma surpresa. No havia nada estranho no fato de Cristy ir at a casa dele, j que as duas famlias eram ntimas h muito tempo; mas, ao estacionar a bicicleta,
ela se deu conta de que estava abusando da amizade dos Savage e da confiana dos pais. Nesse momento quase voltou atrs. S no o fez com medo da vergonha que passaria
ao encarar Helen pela manh. Ento, muito confusa, bateu levemente na porta da cozinha antes de entrar.
A casa estava vazia e silenciosa. Cristy foi caminhando at o hall, com o corao aos pulos. De repente, estacou, como que hipnotizada, ao ver Dominic descendo,
enquanto terminava de se vestir, os msculos fortes e a pele queimada destacando-se da camisa branca, ainda sem abotoar...
Algo pareceu crescer no peito de Cristy: uma excitao que ruborizou suas faces, e tornou mais intenso o verde de seus olhos.
- Cristy, est tudo bem? - A aspereza da voz masculina trouxe-a de volta  realidade.
- Si... sim...
- Ento, o que voc est fazendo aqui? - Dominic a encarou com o cenho franzido, enquanto abotoava a camisa. A voz, num tom bastante rude, diferente do normal, deixou
Cristy sem fala.
- Perguntei o que voc veio fazer aqui, mocinha...
Dominic estava de p, perto da escada, agora encarando-a. Mesmo sendo alta, Cristy teve de erguer bem a cabea, para poder devolver-lhe o olhar. Ela havia tirado
o agasalho e os ltimos raios de sol, que entravam pela janela, atravessavam o tecido da blusa, revelando os seios jovens e firmes. Dominic prendeu a respirao
e soltou um suspiro impaciente.
- Eu vim ver voc... - murmurou Cristy, temerosa.
- Eu?! Para qu?! - perguntou ele, demonstrando sua irritao. O pnico dominou-a. Nada estava saindo como ela imaginara!
Dominic no deveria question-la e, sim, olh-la com um imenso desejo... No fora assim que Helen lhe descrevera a cena? Sentindo-se cada vez mais embaraada, Cristy
se traa mais do que ela mesma conseguia perceber.
- Eu... eu s queria falar com voc... - repetiu, pouco convincente, o rosto queimado, rubro, quando ele fustigou, brusco:
- Cristy, o que significa tudo isso? Voc no est metida em encrencas, est?
Os olhos dela se arregalaram, quando alcanou o significado da pergunta. Naquelas circunstncias, s havia um tipo de problema a que Dominic podia estar se referindo.
Ela se afastou indignada.
- No! Claro que no! Como voc pode pensar uma coisa dessas? - Estava magoada por Dominic ter ousado pensar que ela pudesse ter se entregado a algum que no ele
mesmo.
- No acha que fica fcil, vendo voc vestida desse jeito? - retrucou-lhe, apontando para suas roupas.
Cristy enrubesceu de novo. No era assim que ele devia reagir! Helen tinha dito que... Cristy mordeu o lbio inferior e se aproximou de Dominic, a voz insegura,
quando murmurou baixinho:
- Dominic, por favor, no fique bravo comigo... - Os olhos encheram-se de lgrimas.
Ela o ouviu suspirar e sentiu-lhe os braos envolvendo-a com fora. Sua cabea descansou sobre os ombros largos, o peito msculo pressionando seu corpo. Ela exultava,
excitada, querendo muito toc-lo, mas sentia-se como se fosse sufocar. Ser que Dominic percebia o quanto estava emocionada? Ela podia ouvir-lhe as batidas do corao.
Instintivamente, tocou-lhe, com suavidade, o peito, roando-lhe a pele com os dedos delicados.
De repente, garras de ao agarraram seus pulsos e a afastaram com violncia. Dominic encarava-a, furioso:
- Que diabos voc pensa que est fazendo?
O choque dessa exploso de raiva foi demais para ela. Ficou perdida, querendo agarrar-se ainda a seus sonhos de amor e desejo, e, sem compreender o motivo de tamanha
fria, no se conteve, declarando-se:
- Dominic, faa amor comigo. Venha... Eu sei que me quer tanto quanto eu quero voc...
Por um momento pareceu que o tempo havia parado. Cristy, de um lado, olhava-o apaixonada, tremendo, ansiosa por seu toque; do outro lado, Dominic, tenso e furioso,
contraa a boca numa linha dura e fina, o corpo to retesado, que parecia nem conseguir respirar. Era evidente seu autocontrole.
O encanto quebrou-se. A dura realidade do momento invadiu Cristy, quando Dominic respirou pesadamente e lanou-lhe palavras cruis:
- Meu Deus! Eu no acredito no que estou ouvindo!  por isso que veio vestida assim como... como... uma Lolita moderna? Para me pedir para fazer amor? E voc por
acaso sabe o que isso significa?
Ele percebeu o choque e o sofrimento estampado no rosto de Cristy, e abrandou sua voz:
- Cristy, eu no posso fazer amor com voc... E voc sabe disso...
- Mas... por que voc no me quer? - Cristy o encarou, percebendo a expresso fria e tensa de seu rosto.
- Entre outras coisas... - replicou ele. - Parece que  costume o homem seduzir a mulher, e no o contrrio... Vamos l, Cristy, sem brincadeira. Quem foi que ps
essas idias na sua cabecinha? Eu conheo voc h muito tempo e sei que no faria nada disso, se no sofresse alguma presso...
Ela se sentiu humilhada e desgostosa demais para esconder a verdade, e Dominic no parou de question-la at que contasse tudo. Teve que se sentar e responder a
todas as perguntas, enquanto sentia crescer um profundo desgosto nos olhos escuros de Dominic. Por fim, ele se afastou um pouco, como se a proximidade dela lhe fosse
desagradvel.
- Bem, Cristy, agora  a minha vez de lhe dizer algumas coisas. Ao contrrio do que possa parecer, ou do que sua amiga tenha lhe falado, no  assim to fcil seduzir
um homem.
Cristy tentou desviar o rosto, cheia de vergonha e dor, mas Dominic aproximou-se e segurou-lhe o queixo com firmeza, dizendo cruelmente:
- Olhe para mim, Cristy. Vamos l... d uma boa olhada. Sua amiga deve ter lhe informado como reconhecer um homem excitado, no? Ento, eu pareo querer voc fisicamente?
Tudo o que Cristy desejara naquele momento era levantar-se e fugir dali o mais rpido possvel, mas estava paralisada pelo desespero, incapaz de fazer qualquer coisa.
Apenas olhava para o rosto de Dominic como uma cega: sem v-lo realmente.
Ao perceber que ela no conseguia desviar os olhos para o corpo dele, Dominic fez uma ameaa sutil, mas sarcstica:
- Se voc no quer olhar para mim, talvez queira me tocar. Assim, ver que no estou mentindo...
Cristy estremeceu. Daquele momento em diante, sentiu que todos os seus sonhos e iluses de adolescente tinham sido destrudos. Pior ainda: tratando-a dessa forma,
ele a fez ter dio da sua auto-imagem. Sentia-se ridcula, ingnua e, ao mesmo tempo, imoral e perdida. Afastou-se dele, tentando reprimir o grito de angstia e
terror que crescia em sua garganta. Fez um gesto de fuga. Entretanto, Dominic impediu que sasse. Ainda no havia terminado seu trabalho com ela. Cristy foi obrigada
a escut-lo sobre os riscos da promiscuidade e do perigo de ser violentada. Falou-lhe dos pais que a amavam e confiavam nela: como ficariam chocados, se soubessem
o que havia feito. Quando terminou o sermo, Dominic mandou que lavasse o rosto e arrumasse a blusa. Depois que vestiu o agasalho, no a deixou voltar sozinha, de
bicicleta. Levou-a at sua casa de carro.
Dominic no era assim to mais velho que Cristy, mas tinha agido pior que o mais rigoroso e severo dos pais da poca vitoriana. Quando ele a deixou na porta de casa,
ela j estava certa de que o odiaria para o resto de sua vida.
Entretanto, no mais do que passara a odiar a si prpria, foi a sua concluso amarga, voltando  realidade do presente. Aquele trauma fizera dela uma mulher desconfiada
dos homens, incapaz de uma relao tranqila e profunda.
Passara a evitar Helen e dissera aos pais que gostaria de cursar a Universidade. Fora estudar em Newcastle, onde conseguira refazer sua vida, perdendo boa parte
de suas angstias. Durante as poucas semanas antes de partir, o medo de encontrar Dominic a deixava fisicamente doente. Mas, se os pais perceberam alguma coisa,
nada comentaram.
Cristy deu um longo e profundo suspiro. A dor havia passado. A neve caa mais pesada, agora. Precisava voltar para casa. Deu uma olhada no relgio: trs e dez. Bom,
at chegar l, certamente Dominic j teria terminado a visita e ido embora. Ainda bem. Sabia que no poderia passar a vida inteira evitando-o, mas precisava de um
tempo para recuperar-se do choque que sentira ao descobrir que ele havia voltado.
Agora, aps reviver todo o passado durante a caminhada, havia exorcizado alguns fantasmas da sua adolescncia. Sentia-se mais forte e capaz de ser tolerante e compreensiva
com a adolescente que ela fora. Ser? No, no era bem assim. Era exatamente esse o seu problema: no conseguia se livrar da vergonha e do autodesprezo que Dominic
lhe infringira naquela fase importantssima de sua vida. Esses sentimentos a perseguiam, destruindo sua felicidade, como um cncer controlado, mas sempre presente.
Odiava Dominic pelo que ele lhe fizera; odiava o fato de ele ter sido testemunha da sua vergonha e humilhao. E o odiava, acima de tudo, por t-la feito odiar-se.
Suspirando, subiu o zper do casaco e tomou o caminho de volta, andando sobre a neve que se acumulara na pequena estrada.


CAPTULO II

A neve continuava caindo e Cristy abaixara a cabea para defender o rosto e, ao mesmo tempo, para prestar ateno  estrada que se tornara muito escorregadia. De
repente, ouviu o rudo de um carro que se aproximava e, num gesto instintivo, procurou sair logo do meio do caminho. Entretanto, a neve, fofa demais, dificultou
os seus passos, fazendo-a perder o equilbrio e escorregar, quase sem flego.
Um tanto desorientada pela queda, no notou que o carro tinha parado, seno quando algum correu para ajud-la a levantar-se.
- Dominic! - O corpo de Cristy enrijeceu-se de pnico ao reconhec-lo.
Os ltimos oito anos no pareciam t-lo modificado em nada, exceto num aspecto: Dominic estava ainda mais atraente. O magnetismo e a impresso de fora que sempre
a haviam atrado e intrigado naquele homem eram os mesmos. O cabelo castanho estava mais cheio e sedoso e os olhos acinzentados tinham agora um brilho mais intenso
e vivo. Ele havia conservado at o mesmo tom bronzeado da pele, enquanto que ela...
J de p, Cristy censurou-se por ter escolhido para vestir logo o jeans mais velho que possua e o antigo casaco da faculdade. Por que no tinha feito uma maquilagem
leve e caprichado mais ao pentear o cabelo? Se era inevitvel enfrentar Dominic, por que no aproveitara para usar toda a elegncia que havia adquirido nesses oito
anos? Por que no o enfrentara de uma maneira mais sofisticada, como ela aprendera vivendo em Londres, com David e sua famlia?
- Cristy, voc est bem?
Era inacreditvel! Dominic estava limpando a neve de seu rosto e sorrindo para ela! Um sorriso que a fazia reviver momentos felizes, anteriores quele dia fatdico
em que ela resolvera transformar a grande amizade e afeio que os unia, fruto de laos familiares, em algo mais profundo, adulto, sensual. Ao v-lo assim sorridente
de novo, sentia-se como se aquele terrvel vero jamais tivesse existido. Mas existira. E ela duvidava de que Dominic pudesse t-la esquecido...
No, claro que ele no a esquecera! Mas talvez preferisse, por um gesto meramente poltico, no tocar no assunto. A conscincia desse fato fez Cristy se soltar,
brusca, e responder:
- Estou bem, mas no graas a voc! Ser que sempre dirige dessa forma, sem se preocupar com a segurana dos outros? Um comportamento bem pouco coerente para algum
com a sua profisso, no acha?
Cristy, cujo temperamento era bastante explosivo, no conseguira dominar-se, abalada pelo choque de reencontr-lo. Dominic j no lhe sorria, mas retrucou, calmo:
- Eu estava dirigindo com cuidado e devagar o suficiente para parar e socorr-la, Cristy. Alm do mais, quase ningum usa mais esse caminho.
Cristy sabia que tinha exagerado, mas havia sido a nica maneira que encontrara para esconder seus verdadeiros sentimentos. Quando sara de casa, sua inteno era
evitar um reencontro prematuro, antes de se sentir preparada para isso. Agora, porm, achava que teria sido melhor se o tivesse enfrentado em sua prpria casa, perto
dos pais, protegida por um territrio conhecido. Jamais numa situao ridcula e desvantajosa como essa! Droga! Preferia que Dominic a encontrasse bem vestida, como
a adulta que agora era, e no com as roupas que lembravam a ingnua e tola adolescente que um dia ousara sonhar com ele.
Dominic observava-lhe o rosto plido, franzindo o cenho.
- Voc tem certeza de que est bem? - Ele se aproximou, mas Cristy encolheu-se, evitando-o. - Entre no carro. Vou lev-la para casa. No vai demorar nada e, como
mdico da famlia, eu...
- Voc no  meu mdico!
Essa negativa to passional quanto inesperada, saiu sem que ela pudesse se controlar. Ambos se encararam: ela, ainda tensa com o choque do encontro; ele, com os
olhos semicerrados e uma expresso indecifrvel.
- Cristy... - Dominic falava-lhe num tom baixo, gutural, as sobrancelhas franzidas e a cabea inclinada para ela. - Olhe, no faz sentido ficarmos aqui discutindo.
Voc ainda tem um bom pedao at a sua casa, e, mesmo que no tenha se machucado, uma queda  sempre perigosa, pode provocar um estado de choque.
Cristy sabia que estava agindo como uma criana e que era intil discutir com ele, ainda mais com as pernas bambas e o corao batendo como louco. Dominic acertara
em cheio: ela estava em estado de choque, mas no por causa da queda... Com um pequeno suspiro de resignao, foi andando at o carro, um BMW novinho em folha. Dominic
caminhou bem prximo a ela e seus corpos se tocaram, quando ele lhe abriu a porta. No mesmo instante, Cristy se afastou:
- Alguma coisa errada?
"Ser que ele realmente precisa perguntar isso?", pensou aborrecida.
- No, nada. Apenas eu no gosto de ser tocada.  s. Tarde demais. Pela expresso do rosto dele, ela se deu conta do
que acabara de falar. Era verdade o que dissera, mas havia usado essa desculpa por tanto tempo, e s agora entendia a gravidade de seu significado.
Dominic fitou-a intensamente, a boca cerrada numa linha fina, com uma expresso quase satnica. Cristy podia adivinhar o que ele estava pensando nesse momento: devia
se recordar daquele dia em que ela desejara bem mais do que um simples toque. Sentindo-se mal na presena dele, e confusa quanto s suas emoes, Cristy se afastou
do carro, dizendo rudemente: ao quero carona, Dominic. Prefiro voltar a p.- E antes que ele pudesse impedi-la, retomou a caminhada, sem olhar para trs.
A sensao enervante de saber que ele a observava deixou-a tensa, um pouco trpega, mas procurou caminhar demonstrando segurana, at alcanar o porto. S ento
ouviu-o ligar o carro e partir.
"Ningum poder dizer que Dominic negligenciou suas responsabilidades de mdico", pensou, amarga.
Ao fechar a porta, ouviu o pai cham-la da porta do escritrio:
- Cristy,  voc? - Ele franziu as sobrancelhas, quando viu suas roupas molhadas. - Por pouco no encontrou Dominic... Ora! O que  isso? O que aconteceu com voc?
Parece que lutou com uma tempestade de neve e levou a pior!
- Voc est certo...
- Tudo bem, filha? No est machucada?
- No se preocupe, papai. Eu ca na velha estrada coberta de neve. No aconteceu nada. S meu orgulho est um pouco ferido. E mame? Qual a opinio do mdico sobre
ela?
- Dominic disse que a recuperao dela vai indo muito bem. Mas por que voc no pergunta pessoalmente a ele? Dominic vir jantar conosco esta noite.
- Hoje?! Ora...
- Foi sua me que o convidou, Cristy. Ela se preocupa porque Dominic mora sozinho no vicariato. Voc sabe como sua me adora ver todo mundo bem.
"Ento foi Dominic quem comprou a antiga construo georgiana...", pensou Cristy, enquanto ouvia, confusa, a notcia sobre a visita dele logo mais,  noite. Sentia-se
encurralada, pois no tinha como achar uma desculpa para no estar presente a um jantar em sua prpria casa...
Seu pai completou, num tom de quem se desculpa:
- No precisa se preocupar com a comida, Cristy. Sua me disse que o freezer est abarrotado. Sabe, querida, sentimos tanto a falta dos pais dele... Ns quatro costumvamos
passar bons momentos juntos...
Cristy sentiu-se culpada por seu egosmo. O pai de Dominic havia morrido h quatro anos, e a me fora morar com uma irm, tambm viva, em Berkshire. Tinham sido
os amigos mais chegados de seus pais, e s agora ela se dava conta da falta que faziam. Entretanto, algo a intrigava: sem os pais vivendo em Setondale, no havia
nenhuma razo para Dominic voltar. Mas ele voltara... Que estranho!
- Mame est acordada, papai? Acho que vou subir e ver se ela precisa de alguma coisa.
- V, sim, filha. Ela j anda reclamando de no ter o que fazer, mas Dominic recomendou que continuasse o repouso completo pelo menos por mais uma semana.
Sarah Marsden estava recostada sobre uma pilha de travesseiros, lendo uma revista, quando Cristy entrou. Era uma mulher ainda muito bonita, com os mesmos olhos verdes
da filha. Sorriu afetuosa ao v-la e convidou-a para sentar-se na beira da cama:
- Venha conversar um pouquinho comigo, querida. Estou cansada de ficar tanto tempo na cama, mas nosso mdico insiste... - Ao falar, Sarah observava atentamente as
reaes da filha. - Voc sabe que ele voltou, no ?
Sarah, muito intuitiva, j havia percebido que algo no ia bem entre a filha e Dominic, pois Cristy h muito tempo mostrava-se relutante em falar sobre ele. Sabia
que, quando adolescente, a filha no conseguia disfarar a paixo por Dominic e lembrava-se tambm de como ele sempre tinha sido gentil com a garota. Entretanto,
conhecia a filha bem demais para insistir em confidncias. Se dependesse dela, jamais iria saber o que causara sua mudana de atitude. Mas no estava preocupada
em saber. Apenas comentou, muito calma:
- Convidei Dominic para jantar, Cristy. Um homem que vive sozinho nunca come direito, no acha?
- Que bobagem, me! - Cristy interrompeu-a bruscamente. - No sei por que voc acha que um homem no  capaz de tomar conta de si prprio, do mesmo jeito que uma
mulher sozinha faz.
- Ora, eu no disse que Dominic no  capaz de cuidar de si mesmo, meu bem. Tenho certeza de que ele . Mas sei tambm que, como mdico muito ocupado, muitas vezes
no tem tempo de comer mais que um simples sanduche. Falando nisso, temos guisado de carne com batatas no freezer. Acho que voc deve prepar-lo, pois eu lembro
que costumava ser o prato favorito de Dominic...
- Mame, pare de se preocupar com Dominic Savage, e tente descansar - repreendeu-a Cristy. Sua me era mesmo impossvel! Tinha acabado de fazer uma cirurgia cardaca
e, em vez de se cuidar, no parava de pensar no estmago do mdico!
Cristy tomou um cuidado todo especial ao arrumar-se para o jantar. No era por causa de Dominic, porque queria impression-lo. Pelo menos no queria admitir que
fosse por isso. Mas escolheu um belo e sofisticado vestido de lycra, comprado em uma butique cara e elegante para usar naquela noite. O tecido cor de pssego combinava
perfeitamente com seu cabelo ruivo, e o drapeado de pregas macias amoldava-se como uma segunda pele a seu corpo esguio e bem feito. Apesar do decote fechado e mangas
longas, o vestido era muito sensual, revelando, mais do que escondendo, cada curva de seu belo corpo.
Olhando-se no espelho, entendia agora por que David a fizera comprar esse modelo. De fato, tinha sido nesse mesmo dia da compra que ele resolvera seduzi-la!
Cristy deu um sorriso amargo, sem alegria, ao terminar de se arrumar. A maquilagem suave realava seus traos delicados, o rosto iluminado pelos olhos cor de jade,
intensificados pela sombra verde. Reconhecia que estava elegante e muito bonita.
Bem... essa era a mulher em que se transformara. Ningum duvidaria, agora, de sua maturidade. Porm, ao olhar-se no espelho pela ltima vez, no quis prestar ateno
 insegurana que mostrava no olhar, nem ao leve tremor dos lbios.
Seu pai estranhou um pouco tanta sofisticao para um jantar to ntimo e simples, mas, acostumado ao estilo de vida da filha nos ltimos anos, no comentou nada.
Cristy tirou o guisado do freezer e comeou os preparativos para o jantar. No poderia evitar sentar-se  mesa com eles, mas, assim que a refeio terminasse, daria
uma desculpa qualquer e se recolheria. Afinal, depois de tudo, dificilmente Dominic suportaria a presena dela, concluiu com um certo cinismo.
Uma dor quase fsica a invadiu ao lembrar-se do calor do sorriso de Dominic, quando a levantara da queda. Parecia que ele ficara contente por v-la! Mas ela sabia
que tudo no passava de fingimento...
Sarah ainda no podia comer qualquer tipo de comida; ento, antes do jantar, Cristy levou-lhe sopa com torradas.
- Oh! Obrigada, filha. Puxa! Voc est tima! - disse ela, referindo-se  elegncia de Cristy, pois, apesar de sempre ter vivido no campo, mantinha-se bem informada
sobre vrios assuntos, inclusive moda.
- Foi David quem escolheu o vestido - comentou Cristy, arrependendo-se, entretanto, ao perceber a expresso de desagrado no rosto da me. - Quando o experimentei,
no estava certa se ficava bem em mim, mas David acabou me convencendo.
- ... David parece ser um homem bem persistente. E de muito charme... - Sarah deixou a frase em suspenso. - Cristy, voc sempre nos parece to contente com seu
emprego! Seu pai e eu ficamos bastante surpresos com sua demisso. S espero que no tenha sido por causa desse meu corao estpido.
- No, claro que no, mame. J expliquei o motivo a papai esta manh: David recebeu uma oferta de emprego em Hollywood, e como dever ficar um bom tempo por l,
eu no poderia continuar trabalhando para ele em Londres. No faz sentido?
- Mas David poderia ter levado voc com ele para Hollywood... Cristy percebeu onde a me queria chegar.
- , acho que sim. Mas ele no quis me levar e achei timo, pois isso significa que estou livre para fazer o que quiser e que poderei passar algum tempo com vocs,
a menos que esteja atrapalhando, ou que minha ajuda no seja necessria...
- Meu bem, esta  sua casa. Adoramos que tenha voltado. Hum... acho que estou ouvindo barulho de carro. Deve ser nossa visita. Desa e atenda, pois seu pai no vai
escut-lo. Sabe, ele est ficando um pouquinho surdo...
Relutante, Cristy foi atender  porta. De fato, sua me tinha razo: o pai, na biblioteca, no ouvira o som da campainha. Ela sentiu o vento frio invadir o hall
ao abrir a porta.
Dominic tambm trocara de roupa para o jantar. Vestia um conjunto de tweed, bastante informal. Ergueu a sobrancelha ao v-la, e, por um instante, ela imaginou ter
visto uma tristeza escurecer-lhe os olhos.
- Vou dizer a meu pai que voc est aqui. O jantar no dever demorar - Cristy afastou-se, enquanto lhe falava num tom frio e formal.
Tom Marsden saiu do escritrio desculpando-se por no ter ouvido a campainha.
- Eu convenci minha filha a comermos na cozinha. Nossa sala de jantar fica do lado norte, e mais parece um congelador nesta poca do ano. Vamos, vamos, Dominic,
entre e sente-se, enquanto Cristy termina o jantar.
Ela mordia o lbio inferior, contrariada, ao segui-los. A ltima coisa que queria, nesse momento, era dividir a intimidade da cozinha com ele, saber que estaria
sendo observada enquanto trabalhava... No fazia diferena saber que a cozinha da casa de seus pais era to familiar para ele quanto para ela prpria. Na verdade,
Cristy se ressentia por ver que tudo parecia to simples para ele... Dominic devia saber como lhe era difcil ter que confront-lo, mas ele se comportava como se
nada tivesse se passado, como se nunca a houvesse humilhado e ferido to profundamente a ponto de as feridas at agora ainda no terem cicatrizado.
Enquanto se ocupava terminando o jantar, Cristy podia ouvir seu pai e Dominic conversando, e sentia o olhar do mdico sobre ela o tempo todo. Quando, por acaso,
seus olhares se cruzaram, notou que ele a observava fixando-se na sua figura, como que a estudando nos mnimos detalhes.
"Ele est me observando", pensou indignada. Mas para qu? Ser que pensa que vou me atirar a seus ps de novo e implorar que faa amor comigo? Estar imaginando
que ainda sofro daquela paixo estpida de adolescente?
Terminou rpida o jantar e chamou-os para a mesa que estava posta.
- Hum... Guisado de carne com batatas! Meu prato favorito... - Dominic sorriu para ela, que no lhe respondeu. - Sua me me disse que deixou seu emprego em Londres,
Cristy...
-  verdade. O homem para quem eu trabalhava est partindo para Hollywood.
Embora fosse impossvel no responder s perguntas dele na frente do pai, ela fazia questo de ser curta e monossilbica nas respostas, e, depois de vrias tentativas
de manter uma conversa amigvel, sem sucesso, Dominic comprimiu os lbios numa linha fina e seus olhos tornaram-se frios como ao.
O telefone tocou no hall de entrada e Tom Marsden levantou-se para atend-lo. Aproveitando-se da ausncia dele, Dominic perguntou, seco e direto:
- Qual  o problema, Cristy?
A ousadia de Dominic ao encar-la e, mais ainda, ao pression-la, deixou-a muda por alguns instantes. Quando ia responder-lhe  altura, seu pai retornou  cozinha,
fazendo-a engolir a resposta agressiva, no momento exato. O resto da refeio decorreu com Dominic ignorando-a por completo, dirigindo-se nica e exclusivamente
a seu pai.
H oito anos ela teria ficado muito magoada com essa atitude, mas agora sentia-se aliviada por no ter que participar da conversa e manter-se numa atitude neutra.
Depois do jantar, seu pai sugeriu uma partida de xadrez, deixando-a livre para limpar a cozinha e depois subir e ficar com a me.
Sarah Marsden, quando a viu entrar no quarto, sugeriu:
- Voc no precisa ficar aqui comigo, meu bem. Eu estou tima. Na verdade, prefiro mesmo dormir. Por que no volta l para baixo e se junta a seu pai e Dominic?
- Eles esto jogando xadrez, mame.
Sarah sorriu para a filha, com um arzinho maroto:
- Ah, querida, lembro-me de como voc ficava irritada com isso! Dominic tentou lhe ensinar esse jogo muitas vezes, no ?
Por que sua me se lembrara desse fato? Lembranas que Cristy queria esquecer voltaram  tona: a imagem de uma petulante garota de dezesseis anos, sempre protestando,
pois tentava tirar a ateno de Dominic do jogo e volt-la para si mesma...
Todos esses fatos aconteceram pouco antes de se tornar consciente daquela inquietante sensao que a dominava toda vez que Dominic estava por perto e a que, num
primeiro momento, ela no dera a importncia devida.
- Voc era uma garota inquieta demais para se concentrar - sua me comentou sorrindo. - Lembro-me de um domingo em que voc pegou o tabuleiro e jogou todas as peas
no cho! Que gnio terrvel! Seus antepassados ficariam felizes se pudessem v-la...
- Ora, mame, foi no ano em que tirei um zero. Dominic teve a audcia de ameaar-me com umas palmadas!
- Sim, eu me lembro - Sarah riu gostosamente e Cristy imaginou se a me se lembraria tambm de como aquela tarde horrvel havia acabado. Ela, Cristy, jamais se esqueceria.
Durante semanas vivera uma sensao inquietante e perturbadora: queria estar com ele, mas, quando estava, no se satisfazia de manter apenas uma amizade platnica.
Era jovem e inexperiente demais para analisar os prprios sentimentos, ento suas dvidas e inseguranas se manifestaram alternando crises depressivas com exploses
de mau humor. Exatamente nessa fase, Dominic tinha ameaado dar-lhe umas palmadas no traseiro por causa da nota baixa. Com isso, ele jogara um balde de gua fria
nas suas recm-descobertas emoes femininas, e ela fugira para seu quarto, banhada de lgrimas.
No dia seguinte, Dominic foi esper-la de carro na porta da escola. Dirigiu, sem falar, at a metade do caminho, ento parou numa rua paralela e comeou:
- Desculpe-me pela noite passada, ruivinha. H momentos em que me esqueo de que voc no  mais uma garotinha...
Foi demais. Ela explodiu em lgrimas novamente, soluando desesperada, e dessa vez no teve onde se esconder; ento desabafou toda a sua confuso, aos prantos, envolvida
no abrao carinhoso e protetor de Dominic, com conscincia plena do prazer que sentia por estar assim. Fora nesse dia que ela descobrira que o desejava para ser
mais do que um simples amigo...
Sarah, percebendo o olhar vago da filha, brincou:
- Volte ao presente, Cristy...
A voz suave da me a trouxe de volta ao presente e  dura realidade. Enquanto ouvia o tagarelar de Sarah, aproveitava pra arrumar-lhe os travesseiros e verificar
se tudo estava em ordem. O que a me diria se soubesse que, agora, ela sabia jogar xadrez?
Meryl a tinha ensinado. A querida Meryl, cuja pacincia incrvel permitia que se fizesse de cega para as muitas aventuras de um marido que se veria perdido sem ela;
um marido que a amava,  sua moda, e que adorava as crianas... Como a vida era complexa!
Cristy deu um suspiro profundo, despediu-se da me e foi para a sala. Quando adolescente, sonhara com uma vida perfeita, desde que Dominic estivesse includo em
seus planos; tola que era, tinha imaginado que podia amar pelos dois, e que mais nada importava. Esquecera-se de que pessoas diferentes podem ter necessidades diferentes.
Ela mesma, agora, regulava sua vida por um cdigo de moral que poderia at ser considerado antigo para sua idade e sua poca. Jamais se envolveria num caso de amor
com um homem casado, especialmente com um homem cuja esposa era uma mulher to querida e admirvel.
Nada iria interferir nas suas decises; mesmo reconhecendo como tinha sido inquietante e ameaador descobrir que Dominic estava de volta a Setondale, ela sabia que
continuaria firme na recusa s tentativas de seduo de David. Agora que seu ex-chefe no estava mais presente, a influncia de seu magnetismo sexual desaparecera
por completo. Claro, tinha que reconhecer que David a atrara, e muito. Mas talvez o tivesse desejado no por am-lo ou por seu charme pessoal, e, sim, pela experincia
que poderia receber dele, to famoso por suas conquistas sexuais. E ela, to inexperiente.
Desde que se sentira humilhada pela rejeio de Dominic, Cristy mantivera sua sexualidade sob firme controle. No era, nem nunca seria o tipo de mulher para a qual
sexo bastava por si s, pelo simples prazer fsico; mas havia horas em que, ao ver casais apaixonados ou amantes abraados, sentia-se muito carente de afeto, solitria
demais, e uma onda de tristeza sufocante a invadia, por no se sentir amada, incapaz de deixar algum aproximar-se e invadir sua privacidade.
Ilido por culpa de Dominic, da maneira como ele a tratara naquela noite em que agira como uma garotinha tola... Desde ento, Cristy sentia dificuldade em lidar com
suas fraquezas e anseios amorosos. No eram s os seus valores morais, o seu "cdigo", que a impediam de soltar-se. Cristy tinha pavor de interpretar erradamente
as intenes de qualquer homem e sofrer, de novo, toda a dor de uma rejeio que ainda a traumatizava.
Quando desceu, foi para a cozinha fazer um caf para os dois, que jogavam na biblioteca. J eram quase dez horas e Dominic, sem dvida, se lembrava de que os pais
dela costumavam dormir cedo.
Quando levou a bandeja, Dominic estava ganhando o jogo.
- Ele me pegou desta vez! - comentou Tom com a filha, quando recebia a xcara de caf.
- Hum, mais dois movimentos e voc no poder evitar o xeque-. mate, papai - concluiu Cristy, aps estudar a posio das peas.
O pai ergueu as sobrancelhas e olhou-a admirado.
- Bem, bem, ento nossa menina tratou de aprender algumas "coisinhas" enquanto estava em Londres... - E, virando-se para Dominic. - Voc se lembra de quantas vezes
tentou ensin-la sem resultados?
- H professores e professores... - Cristy respondeu, cida, reticente, observando o sorriso de Dominic apagar-se e seus olhos ficarem escuros de raiva.
- E h alunos e alunos... - ele retrucou, enquanto Tom olhava espantado de um para outro, sentindo que havia no ar muito mais significado do que as palavras pronunciadas
deixavam entrever.
O telefone tocou nesse momento crtico, e ela j ia seguindo o pai para atend-lo, quando a voz perigosamente baixa de Dominic a fez parar.
- Voc mudou, Cristy. E no acho que xadrez tenha sido a nica coisa que tenha aprendido.
Ela se virou, furiosa, os olhos soltando fascas. Antes, porm, que pudesse retrucar, seu pai voltou  cozinha. De cenho franzido, chamou-a:
- Cristy, telefone para voc.  David.
- Meu ex-chefe. Deve ter perdido algum documento importante... - Sabia que estava se justificando, e que Dominic tinha percebido que essa sua atitude significava
que havia algo mais quanto ao telefonema; mas ficara irritada demais com a inconvenincia de David para se preocupar com isso agora.
Atendeu o telefone, brincando nervosamente com o fio. Do outro lado, ouviu a voz insistente de David:
- Cristy, meu amor, voc no sabe a saudade que estou sentindo. Sinto tanto a sua falta, meu bem... Volte para c!
Ela apertou os dentes, com raiva. Sabia que David no desistia fcil quando queria alguma coisa, mas estava certa de que tinha sido bastante clara e conclusiva,
no ltimo encontro. Ele era um mau perdedor, e bem inconveniente!
- No posso voltar, David - respondeu, fria. - Minha me est doente e precisa de mim.
- Sou eu que preciso de voc, Cristy! Deus, como preciso de voc! Volte, por favor...
A raiva cresceu e Cristy comeou a tremer. Era demais para ela! Primeiro Dominic, agora David. Era necessrio coloc-lo no seu lugar, mas pelo telefone teria que
buscar um controle que estava a ponto de perder.
- Eu no posso, David! - respirou fundo e continuou: - E, mesmo que pudesse, no voltaria. Creio que fui bastante clara, no? Voc  casado, e sabe muito bem o quanto
gosto de Meryl!
- Oh! Por Deus, oua, Cristy...
De repente ela entrou em pnico e gritou:
- No! No! Eu no quero ouvir mais nada! - E j ia bater o telefone, quando o ouviu ainda dizer, furioso e ameaador:
- No pense que vou permitir que voc se v assim to facilmente. Eu quero voc... E posso fazer voc me querer...
Bateu o telefone, chocada com tudo o que ouvira. Idiota, pretensioso e egosta! Droga! Quem David pensava que era?
- Esse era seu chefe?
Outro choque! Dominic tinha estado atrs dela, e Cristy no sabia quanto da conversa ele escutara. Virou-se de sopeto, encarando-o acusadoramente, com o rosto ainda
contrado pela raiva, mas ouviu-o falar em tom conciliador:
- Sei que est pensando, Cristy, mas no estou bisbilhotando. Apenas vim desejar-lhe boa-noite, como sugeriu seu pai. Voc o ama, Cristy? Foi por causa dele que
voltou para casa?
- Ele  um homem casado! - explodiu, Cristy, odiando-o por v-la fraca e vulnervel. Era a ltima coisa que queria no mundo: parecer frgil diante de Dominic.
- Eu entendo...
Entretanto, no via compaixo em seu olhos acinzentados, que desmentiam as palavras de aparente compreenso.
- Se houver qualquer coisa que eu possa fazer para ajud-la...
Oito anos atrs ela precisara de sua ajuda e compreenso, mas ele a rejeitara. De repente, Cristy sentiu vontade de jogar tudo o que trazia guardado no rosto dele,
e acus-lo como o culpado por ela ser uma virgem de vinte e quatro anos, sem capacidade de acreditar nos homens e, ao mesmo tempo, cheia de sonhos irreais de amor
e casamento. Entretanto, o bom senso a fez conter-se, mas, num tom amargo, ela recusou sua oferta:
- Pare de bancar o irmo mais velho! No preciso de sua ajuda nem como mdico nem como homem, Dominic!
Uma estranha expresso apareceu no rosto msculo, e ela soube, nesse momento, que ele poderia ser um terrvel inimigo.
- Vou apenas dizer-lhe boa-noite, ento. - Ele andava devagar ao seu lado, em direo  porta, quando continuou, baixinho:
- Diga-me s uma coisa... Foi ele... - apontou para o telefone
- que ensinou voc a jogar xadrez?
Surpresa com a pergunta, ela respondeu secamente:
- No... no foi ele.
"Que coisa estranha de se perguntar", pensou. E j estava prestes a pedir a Dominic uma explicao para tanto interesse, quando ele abriu a porta e saiu, sem lhe
dar nenhuma chance de explicar.
- Dominic j se foi? -  pai perguntou-lhe. -  timo sujeito. Muito inteligente tambm.
Cristy franziu o cenho. Enquanto apanhava as xcaras no escritrio do pai, perguntou-lhe:
- Se ele  to inteligente, ento por que voltou para trabalhar aqui como um simples clnico geral? No seria melhor ter ficado nos Estados Unidos?
- Financeiramente, talvez - Tom concordou, com uma leve expresso reprovadora no rosto. - Mas os homens da famlia Savage sempre demonstraram um grande senso de
dever, e h trs geraes praticam medicina nesta regio. Dominic tambm herdou essa fora. Lembra-se de como ele costumava se mostrar protetor em relao a voc?
Ns nunca precisamos nos preocupar, quando voc estava com ele.
- Pensei que Dominic fosse mais ambicioso, que quisesse bem mais do que passar toda a vida em Setondale.
- Oh! Mas ele tem ambio, sim! Hoje mesmo falou-me sobre seus planos. Pretende levantar dinheiro para construir e equipar um centro cirrgico, capaz de atender
a operaes bem mais complexas do que as comuns. Ele pesquisou sobre isso nos Estados Unidos e acha que o mesmo pode ser feito em Setondale. E eu acho que vai consegui-lo.
Haver muito trabalho por aqui, principalmente para se conseguir levantar fundos. Ah, querida,  claro que prometi que voc o ajudaria^ e provavelmente se oferecia
para trabalhar como sua secretria. E um projeto muito bom e creio que ter todo o apoio local.
O entusiasmo de seu pai pelos planos de Dominic a deixou num beco sem sada. Como poderia dizer-lhe que no queria se envolver em nada disso? Tentou consolar-se
convencendo-se de que ela seria a ltima pessoa a quem Dominic pediria ajuda. Mas no momento achava-se confusa, pois o comportamento inusitado de Dominic, agindo
como se nada tivesse acontecido, a deixava insegura sobre as prximas reaes dele: talvez ele a procurasse, talvez no. Atordoada com tantas dvidas, pegou a bandeja
e levou-a para a cozinha.




CAPTULO III

Quatro dias se passaram sem que Cristy ouvisse falar de Dominic. Dizia a si mesma que assim estava timo, e tentou se concentrar em sua rotina de trabalho caseiro.
L pelo fim da semana, entretanto, j estava se pondo quase louca sem ter o que fazer alm disso. Assim, quando seu pai anunciou-lhe que haveria uma reunio para
organizar o comit responsvel pela campanha de fundos para o projeto de Dominic, pareceu-lhe uma notcia formidvel.
- Coloquei seu nome como voluntria, Cristy, para tomar nota e redigir as cartas - o pai avisou-a. - Dominic, contudo, duvida que voc queira se envolver com esse
projeto. Sei l, acha que voc no parece disposta a se comprometer...
Ser que essa afirmao no significava que ele no queria sua ajuda? Mas desde quando Dominic se julgava no direito de interpretar o que ela desejava ou no? Transformando
a dor em fria, disse ao pai, controlando-se para no gritar:
- Ah,  mesmo? Ento voc pode dizer a Dominic que eu realmente gostaria de ajudar.  uma forma de no enferrujar os msculos...
- Diga-o voc mesma esta noite, querida, pois Dominic vai reunir algumas pessoas que formaro o comit, na hora do jantar. Deveremos estudar os esboos da campanha.
O simples fato de saber que ia v-lo outra vez deixou-a vermelha, como se ainda tivesse dezessete anos.
Qual era o problema afinal? Ela j no era mais uma adolescente suscetvel como h oito anos atrs. No sentia nada por Dominic Savage, exceto indiferena.
- Quem mais estar presente a esse encontro, papai?
- John Howard, do banco. Ah! E vai trazer com ele um cliente que est mudando para esta regio; um homem de negcios aposentado que talvez faa algum donativo. Penso
que consegui tambm convencer Lady Anthony a se juntar a ns. Ela no tem se ligado muito a essas atividades locais agora, por causa da artrite, mas creio que gostar
de participar desta campanha. Sempre teve uma predileo por Dominic!
- Claro! Ele sempre a presenteava com os chocolates que ganhava nas festas de vero...
O pai sorriu-lhe com indulgncia:
- ... e voc atormentava a vida dele, porque no lhe dava os chocolates...
- Ora, ele dizia que no eram bons para mim!
Isso acontecera no vero em que tinha onze anos e Dominic, com dezenove, j estava na faculdade. Cristy o idolatrava, e ele a tratava com a mesma pacincia com que
cuidava de seus doentes mais
manhosos!
- Talvez voc ainda no saiba, Cristy: Lady Anthony tem uma afilhada passando uns tempos com ela no momento. Ainda no a encontrei, mas ouvi dizer que  uma mulher
muito bonita. Pode ser que vocs venham a ter muito em comum, pois ela tambm morou em Londres. Como seu casamento terminou, ela veio ficar com a madrinha, aqui
em Setondale. O vigrio estar presente, tambm. Oh, ia esquecendo: o major Barnes, sem dvida, vir.
Quando Cristy ergueu as sobrancelhas, numa expresso de espanto, o pai sorriu-lhe:
- Sim, eu sei. Lady Anthony e o major vo discutir como loucos... Eles sempre fazem isso, e, aqui entre ns, desconfio de que ambos se divertem muito dessa maneira!
- E onde vai ser a reunio, papai? Aqui em casa?
- No. Vamos nos encontrar todos na casa de Dominic. Voc sabe que ele comprou a velha casa da igreja, no? - O pai a olhou, maroto. - Ah, e tem mais uma coisa...
Voc ficou encarregada de cuidar dos refrescos. Sua me...
Cristy suspirou, sabendo j o que o pai iria dizer. Se a me estivesse bem, seria a primeira a oferecer seus servios. Tanto quanto o major, Sarah Marsden adorava
organizar eventos, e muitas foram as vezes em que Cristy, quando garota, teve que ajud-la nas barracas das festas de vero, sob o sol quente do entardecer.
Os habitantes de Setondale tinham alguns costumes muito antigos e dos quais no abriam mo: no comprar bolos prontos era um deles. Nenhuma dona de casa da cidade
que se prezasse serviria s visitas algo que no tivesse sido feito por suas prprias mos.
Assim, Cristy no teve outro jeito seno ir para a cozinha. Alm dos refrescos, quis preparar outros petiscos. "Bom, parece que ainda no perdi meus talentos culinrios",
pensou, alegre, ao experimentar o bolo de chocolate. Fizera tambm biscoitos, com uma receita especial da me, e, depois, sanduches. Como precisaria transportar
tudo para a casa de Dominic, pegou o carro do pai e se ps a caminho.
Enquanto dirigia pela estrada que a levaria  antiga e bela casa de estilo georgiano, no conseguia conter a curiosidade: por que Dominic havia comprado aquele casaro
enorme, com cerca de seis quartos, segundo ela se lembrava? Uma pequena casa, no centro de Setondale, no seria melhor para o seu estilo de vida?
Os portes de ferro da manso ficavam permanentemente abertos. Depois de tantos anos, Cristy duvidava de que algum fosse capaz de fech-los. A trilha que conduzia
at a casa fora coberta de cascalho, e era ladeada por belas rvores centenrias. A fachada, sbria e elegante, cercava-se de jardins belos e to bem planejados,
que garantiam a privacidade aos moradores.
Ao estacionar o carro, Cristy refletia que aquele casaro era muito mais a propriedade para uma famlia do que para um mdico ocupado e solteiro. Ser que isso significava
que Dominic estava pensando em se casar? Preferiu afastar esses pensamentos.
Ao se aproximar da casa, a porta da frente se abriu e Dominic apareceu. Vestindo um jeans surrado e em mangas de camisa, parecia o rapaz que ela havia idolatrado
quando criana e adolescente. Mas ele se aproximou e os raios de sol inundaram seu rosto, mostrando as marcas dos anos e da vida, destruindo o encanto e fazendo-a
encarar a realidade: estava diante de um homem, no de um rapazinho. Estava diante do presente, no do passado.
- Trouxe a comida pra hoje  noite, Dominic.
- Muito bem, Cristy. No achei mesmo que voc viria aqui s pelo prazer de minha companhia. - A resposta seca a desconcertou. - Oh, vamos l, eu no sou cego! Voc
tem tornado bastante bvio o que sente a meu respeito.
Cristy ficou tensa, paralisada, quando o viu caminhar em sua direo. O que ele queria dizer? Seu corao batia alucinado, a garganta secou. Claro que ela no...
-  bvio que voc no gosta de mim, Cristy, contudo vivemos em uma comunidade pequena e no podemos ficar nos evitando...
Cristy suspirou aliviada. Dominic pensava que ela no gostava dele, e estava certo...  claro que estava... No gostava dele e o desprezava... Como tambm ele a
havia desprezado!
Controlou-se e retrucou, implacvel:
- S que existe uma diferena bem grande entre evitar algum e tropear em algum a cada vez que dou dez passos...
Ela viu os msculos do rosto de Dominic se enrijecerem, demonstrando todo o seu autocontrole.
- Seus pais so velhos amigos meus, e voc que se dane, se pensa que vou desistir dessa amizade s porque lhe convm! - Seu maxilar estava rgido e suas palavras
saram entredentes.
Depois, ele pareceu relaxar, fixou-a nos olhos, e falou mais calmo: - Vamos l, Cristy, ns costumvamos ser amigos... Eu compreendo que o tempo muda as pessoas,
mas no consigo entender essa... essa antipatia que voc sente em relao a mim!
Ele no podia entender?! Uma onda de fria tomou conta de Cristy. Ele havia destrudo seu mundo, sua confiana em si mesma, e agora nem mesmo se lembrava disso?!
- No tenho certeza de que no entende mesmo... - retrucou amarga. - Mas os dias em que eu me arrastava a seus ps, Dominic, feliz com as migalhas de ateno que
voc me dava, j vo longe. Vamos dizer que eu cresci e que o tempo passou...  melhor deixar tudo como est. Concorda?
Ao se afastar dele em direo ao carro, quase no conseguia acreditar que Dominic realmente no se lembrasse de nada. Amargura e fria se misturavam nela, revolucionando
sua mente. Como pudera ser to estpida, a ponto de achar que ele era perfeito? O Dominic que ela havia amado nunca existira de fato: era s uma imagem, uma quimera
criada por suas fantasias! Era ridculo que se sentisse to... to trada, porque ele nem ao menos se lembrava do que havia feito com ela naquela noite miservel...
Mas era exata-mente assim que ela se sentia: trada.
Ao voltar com as caixas de comida, Dominic no fez o menor esforo para se mostrar amigvel. Simplesmente indicou-lhe o caminho para a antiga cozinha e explicou
qual o melhor lugar para colocar cada coisa.
- Voc sabe que no precisa fazer nada disso, no, Cristy? - perguntou-lhe, assim que ela terminou de arrumar tudo. - Eu posso recrutar outra pessoa para ser a secretria
do comit.
- Sim, tenho certeza de que pode, Dominic. Mas, como j disse a meu pai, aceitei o trabalho, pois ser uma boa maneira de desenferrujar os msculos. No se engane
achando que o fato de ter maior contato com voc mudar meu modo de encarar a vida.  simples: voc  algum que eu no fao questo de ver, a menos que seja imprescindvel!
- Ah! Entendo... Bem, se  assim, voc tem a minha promessa de no abusar, nem mesmo de tentar usufruir de nossa velha amizade. Eu esperava que... - ele se interrompeu,
afastando-se; mas Cristy pde ver a amargura em seu olhar e na linha reta e comprimida dos lbios, quando se voltou para ela.
Dominic, amargo? Mas por qu? E o que ele quis dizer sobre usufruir da velha amizade? Certamente era ele que no queria que ela se aproximasse, como j o fizera
h exatamente oito anos...
Confusa, Cristy andou at o carro. Aquela estranha sensao voltara... Sentia como se Dominic quisesse ser seu amigo de novo! Mas por qu? Ela conjecturava se ele
no estaria se sentindo envergonhado pelo modo como a tratara, mas, se era isso, por que no falava de uma vez? Por que fingia nem mesmo se lembrar do que acontecera?
Tudo lhe parecia um quebra-cabea, onde as peas principais estavam faltando.
Por oito longos anos, carregara todo aquele ressentimento, e, agora que Dominic estava de volta, supunha que ele tambm no estaria disposto a manter nenhum tipo
de contato, assim como ela. De repente, se dava conta de que Dominic queria ressuscitar a velha amizade. Por qu?
s sete horas, depois de se assegurar de que sua me ficaria bem, Cristy e o pai saram para a reunio. A temperatura cara muito e uma lua cheia iluminava o cu
lmpido. Uma tpica noite de inverno.
- Vamos ter outra nevasca - o pai predisse, enquanto se dirigiam para a casa de Dominic.
Foram os primeiros a chegar, e Cristy foi direto para a cozinha, deixando o pai e Dominic comearem a conversa. A raiva cega que alimentara contra Dominic e que
a sustentara emocionalmente durante todos esses anos tinha desaparecido, deixando-a insegura, como se lhe faltasse um pedao de si mesma. Sentia-se inquieta na presena
dele, constantemente tensa e apreensiva, embora no soubesse bem o porqu.
Parecia bvio, para Cristy, que ele no estava disposto a desenterrar o passado, mas, ainda assim, no conseguia relaxar, nem mesmo respirar tranqila, quando o
via por perto.
Durante os anos que vivera em Londres, tinha aprendido a lidar com problemas srios e a enfrentar as mais absurdas situaes. Entretanto, nem mesmo quando recusara
David, havia atingido esse nvel de tenso que sentia agora. Parecia que Dominic exercia sobre ela algum poder especial, que a mantinha sempre consciente da sua
forte presena viril. Mesmo agora, com uma parede entre eles, sentia-o presente, como se o visse: a expresso de seu rosto, os traos de seu semblante. Um estremecimento
ligeiro sacudiu o seu corpo e ela mentalmente culpou a velha casa de pedra, que a fazia sentir-se com frio. Mas o frio vinha-lhe da alma inquieta.
- Cristy, o caf est pronto? - seu pai perguntou entrando na cozinha. - Os outros j chegaram, todos ao mesmo tempo!
- J est saindo, papai. Pode deixar que eu mesma levo a bandeja para a biblioteca.
A casa grande e antiga tinha quatro salas principais, alm da enorme cozinha. Uma delas, a biblioteca, sempre fora o cantinho predileto de Cristy, onde um delicioso
cheiro de couro exalava da capa dos livros que ocupavam trs paredes, do cho at o teto. Um ambiente confortvel e acolhedor, sem dvida.
Carregando a bandeja de caf, Cristy entrou na biblioteca, onde os convidados ocupavam seus lugares. Todos os olhares se voltaram para ela, mas s um par de olhos
acinzentados a atraa, como um im. Pertencia a Dominic, e ela enrubesceu ao notar que, instintivamente, havia procurado por ele e o encontrara fitando-a. Se no
o conhecesse to bem, diria que ele parecia sentir prazer ao v-la fazer o papel de anfitri, como se a casa fosse sua. Zangada, desviou rpido o olhar e encarou
um par de frios olhos azuis que a hostilizavam abertamente. Ah, claro, lembrava-se agora. Aquela morena, de uma beleza exuberante, mas artificial, devia ser a afilhada
de Lady Anthony...
- Ah, a est voc, meu bem! - Tom Marsden levantou-se para ajud-la com a bandeja, mas Dominic foi mais rpido, o que a surpreendeu, pois ele estava mais distante
dela do que o pai.
- Acho que voc j conhece todo mundo, com exceo de Amanda e do sr. Bryant, no? - Dominic se encarregou das apresentaes.
A hostilidade de Amanda Hayes era perceptvel, por isso Cristy procurou desviar sua ateno para o homem mais velho, sentado ao lado de Howard, o gerente do banco.
Na casa dos cinqenta anos, Ralph Bryant tinha o olhar de algum que desafiou a vida e venceu, e Cristy pde perceber fcil que era um bem-sucedido homem de negcios.
Tendo se assegurado de que todos estavam servidos, procurou um lugar para sentar-se, inquietando-se ao descobrir que a nica cadeira vaga ficava ao lado de Dominic.
A localizao fazia sentido, j que, como secretria, iria tomar notas. Percebeu, contudo, pelo olhar que Amanda lhe lanou, que no fora ela a nica que no gostava
da disposio dos lugares. Ah, ento era esse o motivo da antipatia da moa por ela! Amanda realmente no conhecia Dominic muito bem, se achava que Cristy iria representar-lhe
alguma ameaa...
As duas horas seguintes passaram to rpidas, que Cristy no teve tempo para pensar em seus problemas. Anotava, com grande eficincia, cada detalhe do que ia sendo
dito. O primeiro passo do projeto, segundo Dominic, seria encontrar o lugar apropriado para ser convertido em uma clnica.
- Acho que j encontrei o lugar ideal: duas construes da poca vitoriana que esto  venda, aqui mesmo, em Setondale - sugeriu ele.
Depois dessa proposta, seguiu-se uma animada discusso sobre os prs e os contras de se comprar um prdio e reform-lo, transformando-o em clnica, ou de se construir
um edifcio especialmente para esse fim.
- Claro que um prdio construdo para ser uma clnica  a melhor opo - argumentou Dominic. - Mas devido  atmosfera da cidade, com muitos prdios, teramos problemas,
se construssemos um hospital de linhas modernas. O que acham?
- Bem, doutor, eu acho que, antes de mais nada, precisamos conhecer essas velhas construes que esto  venda. Pode ser que sirvam para o que queremos - comentou
Ralph Bryant, tirando uma agenda da pasta e consultando-a. - Estou livre amanh  tarde. Depois disso, s daqui a duas semanas.
Murmrios de aprovao ecoaram por toda a sala. Aps alguns minutos, tomando a palavra, o major concluiu:
- Certo. Podemos ir amanh  tarde. Vou avisar a imobiliria pra que providencie conduo para todos que quiserem ir ver o local. Se algum quiser ir com seu prprio
carro, sinta-se  vontade, claro.
Com exceo de Tom, que preferiu ficar com a esposa, todos os outros concordaram em ir.
- Combinado, ento. Eu pego voc no caminho, Cristy - sugeriu Dominic.
No mesmo instante, Amanda interveio, os olhos azuis enviando sinais de advertncia a Cristy.
- Oh, Dominic, eu ia pedir para voc levar a mim e  madrinha... Sabe, eu no me saio muito bem no volante de um carro.
- Eu... - titubeou Dominic, tomado de surpresa.
- Por favor, Dominic, no se preocupe comigo - Cristy interrompeu-o. - Gosto muito de dirigir, at prefiro. Alm do mais, no pretendo deixar mame sozinha por tanto
tempo... - completou com um sorriso ligeiro.
Ambos sabiam que esse argumento era uma grande mentira, mas, apesar do olhar enfezado que lanou para Cristy, Dominic no fez nenhum outro comentrio.
"O que ele esperava?", pensou Cristy, na defensiva. "Que eu me atirasse a seus ps, agradecendo, como uma criana carente, a ateno que me dispensou?"
Dominic retomou a reunio:
- J que resolvemos esse ponto, sugiro que passemos a estudar os meios de angariar fundos para o projeto.
- Com incentivo, meu cliente, o sr. Bryant, aqui presente, est disposto a doar o dobro da quantia que vocs conseguirem arrecadar da comunidade de Setondale, para
a clnica - falou o gerente.
Era uma oferta bastante generosa, e Cristy no foi a nica que olhou espantada para o empresrio, quando Howard fez o anncio.
-  muita generosidade de sua parte! - Dominic agradeceu calorosamente.
- Pois  o que veremos, meu caro doutor. Minha generosidade vai depender da quantia que vocs conseguirem alcanar com seu prprio esforo: "Deus ajuda a quem se
ajuda", no  o que diz o ditado?
Olhando para o padre, Cristy notou que ele no estava muito satisfeito com esse tipo de comentrio, mas, quaisquer que fossem os motivos do sr. Bryant, no se podia
negar que estava sendo bastante generoso. Ainda que colocasse a oferta condicionada a uma espcie de competio...
Percebendo que o encontro estava chegando ao fim, Cristy ia comear a recolher as xcaras quando Lady Anthony, que havia se conservado calada at aquele momento,
resolveu falar:
- Eu tenho uma sugesto... Bem, de fato, a sugesto  de minha afilhada... - sorriu afetuosamente para Amanda. - Ela me lembrou de que tenho um salo de festas enorme
em Manor House e sugeriu que fizssemos nele um baile tipo "Noite dos Namorados". O que acham?
-  uma idia excelente!   - John Howard comentou entusiasmado.
- Conheo muitos clientes que adorariam participar, ainda mais se, alm do baile, organizssemos tambm um jantar de gala...
Em vista do entusiasmo de todos, nem o major pde se opor ao projeto. Cristy se divertiu ao v-lo tentar manobrar sua velha rival, Lady Anthony, aborrecendo-a com
suas dvidas a respeito dos gastos do evento, pelo fato de ser ele o encarregado da parte financeira do comit.
Por fim, o major acabou concordando, sem restries, e at acrescentou que iria cuidar da contratao dos msicos para o baile.
- Espero que sejam bons - Amanda falou, petulante. - Quero dizer, no confio muito nesses grupinhos de msicos locais. Pretendia perguntar a alguns amigos meus,
de Londres, se viriam tocar aqui em Setondale.
No ntimo, Cristy suspeitava que, se Amanda pudesse excluir da organizao da festa todos os que ali estavam, exceto Dominic,  claro, teria feito isso com o maior
prazer. Mas esse no era um problema seu, pois sua nica funo ali era tomar notas e preparar as atas das reunies. Por isso, foi com grande surpresa que viu Dominic
voltar-se para ela e perguntar-lhe diretamente:
- O que pensa da idia, Cristy? Voc acha que ser bem recebida? Hesitou por um momento antes de responder, consciente de que estava sendo observada por todos.
- Bem... sim, eu acho que sim! H em Setondale gente bastante interessada e com dinheiro para garantir uma boa venda de ingressos. - Parou um instante, e depois
acrescentou: - Sei que no tenho nada com isso...  s uma idia... Mas, j que ser um baile do tipo "Noite dos Namorados", por que no fazer algo mais romntico,
como, por exemplo, um baile de mscaras? No um baile  fantasia, propriamente, mas um baile com trajes de poca e mscaras. Creio que as pessoas se sentiro mais
atradas pelo romantismo que esse tipo de festa evoca...
Pelo canto dos olhos, ela pde ver o olhar vingativo de Amanda e suspirou. Teria sido melhor que no tivesse falado nada, mas a idia lhe ocorrera naquele momento
e parecera boa...
Para surpresa sua e dos demais, depois de alguns segundos, o major exclamou:
- Que idia fantstica! Fui a muitos bailes quando estive na ndia. Muito romntico... E, sobre os ingressos...
A surpresa de ver o major, sempre to austero, achar algo romntico, deixou a todos sem fala por alguns segundos. Foi Lady Anthony que quebrou o silncio:
- Eu concordo. Fui a muitos bailes como esse em minha juventude e eram um grande acontecimento. Uma beleza.
- Certo. Ento ser um baile de mscaras.
Dominic virou-se para Cristy e sorriu-lhe to afetuoso, que ela se transportou para o passado, recordando o efeito que esse sorriso exercia sobre ela, quando jovenzinha.
Mas isso era passado! Forou-se a retornar ao presente e manter-se firme apenas nos fatos atuais. Ainda que o corao parecesse querer arrebentar.
- Creio que  melhor selecionar um subcomit para cuidar apenas dos detalhes do baile. Eu nomeio Cristy como... bem... organizadora... e coordenadora. Eu tambm
voto em Lady Anthony como nossa presidente - props Dominic.
Uma suave inclinao de cabea confirmou que a nobre senhora aceitara o convite, embora Cristy soubesse, por experincia e observao da capacidade de trabalho de
Lady Anthony, que ela  que seria responsvel por tudo. No que se importasse, pelo contrrio, precisava mesmo de algo que ocupasse seu tempo. Organizar o baile
a manteria afastada de Dominic, pelo menos era o que esperava...
O major ficou encarregado da parte financeira e, depois que todos os outros cargos foram distribudos e confirmados, Cristy observou o olhar de deboche de Amanda,
refletindo se seria ela a nica a perceber a atitude hostil da afilhada de Lady Anthony. Mas sua intuio se confirmou, quando ouviu Amanda fazer objees apenas
 sua participao no subcomit:
- Dominic, realmente acho que no h necessidade de envolver a srta. Marsden em tudo isso. Tenho certeza de que a secretria particular de minha madrinha poderia
cuidar de tudo, pois  bastante experiente nesse tipo de coisa. Foi quem organizou meu baile de debutante e meu casamento.
-  muito gentil de sua parte, Amanda - foi a resposta diplomtica de Dominic. - Mas acho que no seria justo tir-la do trabalho contratado por sua madrinha, especialmente
levando-se em conta que no podemos pag-la...
A reunio terminou um pouco mais tarde do que Cristy imaginava. Foram os ltimos a sair, porque ela recolheu a loua e pretendia lav-la.
Mas, enquanto iniciava a tarefa, ouviu o pai convidando Dominic para jantar com eles, apesar de j ser um pouco tarde. Ela esperou tensa a resposta, e suspirou aliviada
quando o ouviu recusar o convite:
- Sinto muito, Tom, mas esta noite no ser possvel. J aceitei o convite de Lady Anthony e Amanda - dizendo isso, olhou de relance para o relgio, e Cristy ficou
furiosa, porque interpretou seu gesto como impacincia: ele no escondia a pressa de ir para o tal jantar e livrar-se dela e do pai. Deixou de lavar os pratos:
- Bem, ento deixaremos voc  vontade para seu compromisso - ela deu-lhe um sorriso to frio quanto suas palavras. - No queremos que voc deixe Amanda esperando
por nossa causa...
Naturalmente, quando chegaram em casa, sua me estava acordada, louca para saber das novidades, e Cristy a censurou com delicadeza: - Voc deveria estar descansando,
sra. Marsden...
Mas resolveu descer e fazer trs xcaras de caf, levando-as para o quarto dos pais, disposta a satisfazer a curiosidade da me.
- E que tal a afilhada de Lady Anthony? -- Sarah perguntou, num dado momento da conversa. - Dominic disse que ela est se hospedando em Manor House, aps ter enfrentado
um divrcio bastante tumultuado.
Lembrando-se da animosidade mtua e quase imediata entre ambas, Cristy ergueu as sobrancelhas e falou:
- Ela  uma mulher atraente, morena e mignon. S que ns no nos demos muito bem, no...
- Claro que no! - sua me concordou. - Ela quer conquistar Dominic, e deve ter ouvido os comentrios sobre vocs como um par constante, durante muito tempo... Ela
deve estar ressentida pelo fato de voc ter voltado para casa...
O olhar incrdulo da filha surpreendeu Sarah, que, ento, explicou-lhe que todos, na cidade, falavam sobre essa amizade h muito tempo.
- Ora, no seja ingnua, Cristy, voc e Dominic eram vistos juntos sempre, e, numa comunidade pequena como esta, seria quase impossvel evitar que as pessoas comentassem
uma amizade de dois jovens to unidos...
- Voc quer dizer que "fofocaram" sobre ns...- Cristy emendou, amarga.
- Se voc quer colocar nesses termos... Mas nunca foram comentrios maldosos! Dominic e a famlia sempre foram muito populares na cidade, e eu, pessoalmente, considerava
o modo como ele a tratava muito respeitoso, ainda mais que voc era uma garota e ele mal havia deixado de ser adolescente... No  muito comum um rapaz agir assim,
nos dias de hoje, Cristy.
- Bem, mame, Amanda no tem com que se preocupar, nem do que ter cimes. Dominic e eu somos adultos agora...
- Hum... Eu acho que  exatamente disso que ela tem medo... - Sarah comentou, pensativa.
No havia necessidade de outras explicaes. Era bastante claro o que sua me insinuava. Agora, ambos sendo adultos, ela e Dominic estariam livres para viverem um
tipo de relacionamento que nunca haviam tido antes. Os oito anos de diferena entre eles j no significavam nada.
Mas, apesar da idade, e a despeito de toda a romntica imaginao do povo, ela e Dominic jamais passariam de inimigos distantes e educados.
Cristy mudou de assunto, falando da ida at o provvel local onde se instalaria a clnica, e do baile de mscaras.
- Oh! Que beleza! Eu acho excelente... muito romntico...
- Foi exatamente isso que o major falou, mame! - Cristy disse rindo. Com o comentrio sobre a reao do major, a atmosfera do quarto ficou mais alegre.
- Pobre homem... Nunca se casou. Deve ser do tipo que sofre de algum amor impossvel.  um daqueles "homens  moda antiga", que hoje no existem mais...
- Como Lady Anthony... ela  outro tipo anacrnico em algumas formas de se comportar. No acha, mame?
- Hum... Acho que no caso dela, e mesmo no dele, essas atitudes devem estar relacionadas com a idade...
Sarah bocejou levemente, e Cristy lembrou-se de que ela ainda estava em recuperao.
- Nossa conversa a est cansando, mame, e, alm do mais, voc j deveria estar dormindo. Tambm estou exausta e pretendo me recolher mais cedo hoje. Boa noite,
querida.
Estava cansada sim, mas no tanto, que no pudesse se sentir inquieta, ao saber que Dominic se divertia naquele momento, na companhia de uma mulher como Amanda.
Uma pontada, como uma dor surda, vinda de lugar nenhum, invadiu-a. Era uma sensao estranha de vazio, sem explicao lgica ou racional, e, por isso mesmo, muito
inquietante...


CAPTULO IV

No dia seguinte, ainda pela manh, Cristy discutia com o pai sobre a visita que deveria fazer, com os membros do comit, s duas antigas construes que poderiam
servir para serem transformadas na clnica. Ela tentava persuadir o pai a acompanh-la, dirigindo, pois no estava disposta a ir sozinha. Mas seu pai permaneceu
irredutvel.
- Desculpe, querida, mas sabe como so os fazendeiros desta regio. Quando Henry Forbes diz que me quer ver esta tarde,  esta tarde ou nunca. No posso faltar.
Sua me vai inclusive, ficar sozinha, o que no me agrada...
- Mas o combinado no era irmos todos juntos ver as casas? - Cristy ainda tentou convenc-lo de que no queria ir sozinha.
- Bem, voc sabe que pode ir com Dominic. Basta ligar para ele e dizer que aceita a carona que recusou ontem... Ou, se no quiser, pode pegar o carro de sua me.
Mas, cuidado, Cristy: as estradas esto escorregadias por causa da neve e talvez voc na volta pegue chuva ou mesmo uma nevada.
Entre engolir o orgulho, pedindo carona ao mdico, e ir dirigindo o carro da me debaixo da neve ou chuva, Cristy concluiu, amarga, que no tinha opo: dirigiria
o carro da me. Que azar, seu pai ser chamado com urgncia justo naquela tarde!
Sabendo que Dominic iria sair mais cedo para apanhar Amanda e Lady Anthony, Cristy esperou que ele partisse antes dela, e s depois dirigiu-se  garagem. O pequeno
Renault pegou na primeira, e era bastante fcil de manejar; ainda assim Cristy tomou muito cuidado, rezando para que o carro no derrapasse nas estradas cobertas
de neve.
Era um dia muito frio, com ventos cortantes, e o cu estava carregado. Alegrara-se por ter trazido o casaco de pele de raposa que ganhara de Meryl e David, no Natal
do ano passado. Olhou de relance para ele, imaginando o que o patro tinha em mente, quando a presenteara. Para uma simples secretria, ainda que fosse o brao-direito
dele, o presente lhe parecera demasiado extravagante e caro e a surpreendera muito. Mas nunca lhe ocorrera que David estava tentando seduzi-la desse modo...
Cristy achou facilmente as casas, estacionando o carro  beira do caminho. Antes de sair, agasalhou-se bem, vestindo o casaco, sobre o elegante conjunto de l bege.
A pele cor de mbar realava, ainda mais, o tom vermelho brilhante de seu cabelo e o rosto acetinado e perfeito. Tiritando de frio, fechou rapidamente o carro, e
correu em direo aos edifcios com as mos nos bolsos, enfrentando o vento gelado.
Cumprimentou a todos os presentes e no pde deixar de notar o olhar apreciativo de Ralph Bryant, mas no se incomodou. Reconhecia esse tipo de admirao, da qual
tantas vezes fora alvo em Londres, por isso deu-lhe apenas um sorriso polido. Recuou um passo, afastando-se dele um pouco, mas deu de encontro com o peito musculoso
e forte de Dominic. Virou-se imediatamente para desculpar-se, mas, quando viu quem era, as palavras morreram-lhe na garganta.
O vento desmanchava seus cabelos, emoldurando-lhe a face, corada pelo frio e pela proximidade de Dominic. Sentia-lhe a respirao, pois um pequeno movimento faria
seus corpos se encontrarem... Seus rostos estavam to prximos que ela notou que ele, ao se barbear, fizera um pequeno corte no queixo. Tudo em que pensou era como
ansiava por tocar-lhe o machucado com ternura. Alm dele, podia ver a velha senhora e a afilhada, Amanda, que assistia  cena lanando-lhe um olhar cheio de dio.
- Voc est bem? - perguntou Dominic, atencioso.
Mesmo sob o grosso casaco de pele, ela sentiu a presso dos dedos masculinos em seu brao. Aspirou o ar gelado, tentando controlar-se, e nem assim foi capaz nem
de encar-lo ou de se afastar. Tentou se convencer de que era o frio que a fazia tremer daquele jeito, e no a proximidade do mdico. Sentia-se ridiculamente insegura...
- Que bonito casaco, Cristy! - Lady Anthony elogiou, quebrando o encanto e o torpor que a invadia, fazendo-a afastar-se de Dominic.
- Oh... hum... Obrigada, Lady Anthony. Foi... foi um presente.
- De seus pais? - Amanda perguntou, com uma curiosidade rude e maliciosa.
Acostumada a ser franca, ela no conseguiu deixar de dizer a verdade:
- No... no. Na verdade, foi um presente de meu ex-chefe... - E quando ia completar "...e de sua esposa", no houve tempo, porque Amanda cortou-a, com um comentrio
maldoso:
- Minha nossa! Ele devia achar voc muito eficiente...  claro que tenho ouvido muitas histrias de chefes que presenteiam as secretrias com casacos de pele, mas
sempre achei que fossem brincadeira...
Fez-se um silncio muito desconfortvel, e, quando Cristy ergueu os olhos para Dominic, pde ler, nos dele, sua condenao. O que tornava tudo pior era que o comentrio
maldoso da morena e indiscreta Amanda tinha certo fundo de verdade. David quisera mesmo faz-la sua amante, mas ela fora muito ingnua na poca para perceber. Havia
trabalhado demais naquele outono e, como Meryl e David eram ambos generosos, acabara aceitando o presente, sem titubear. Quando percebera o sentido que David dera
ao presente, j no havia como recuar.
No poderia explicar tudo isso a Dominic,  claro... E, alm do mais, por que deveria faz-lo? Refletiu amarga, ao se afastar em direo ao outro grupo. Afinal,
o que lhe importava o que Dominic pensasse a seu respeito?
- Dominic, vamos entrar? Estou congelando aqui fora... - Amanda pediu ao mdico, dando-lhe o brao e passando por Cristy com um sorriso triunfante.
No interior dos prdios, Cristy tratou de tirar Dominic da cabea e se concentrar em seu papel de secretria. Trouxera um bloco de anotaes e procurou ouvir atentamente
o que o mdico dizia, anotando os pontos importantes.
- Creio que ser possvel para ns fazermos tudo o que queremos de uma s vez, mas este  o local apropriado. O terreno tem quase meio acre, o suficiente para estacionamento
e futuras ampliaes.
Vasculharam as duas casas nos mnimos detalhes, enquanto Cristy ia tomando notas. Dominic sabia muito bem o que queria, e argumentava de tal maneira que era impossvel
no concordar com suas idias. Quase sem querer, ela se viu to entusiasmada quanto ele. No tinha dvidas de que seria um belo e exaustivo trabalho.
Ocupada com as anotaes, Cristy no notou que estava sozinha com Dominic, at que ergueu os olhos verdes e encontrou-o observando-a, com uma estranha expresso,
misto de mgoa e raiva.
- Ele deve conhecer voc muito bem, para ter escolhido um casaco como esse... - Os dedos longos e finos tocaram a pele macia. - Nunca pensei que, depois de crescer,
voc se tornaria o tipo de mulher que aceita ficar em segundo plano, Cristy. Voc tinha orgulho demais para isso.
Cristy rangeu os dentes, no esforo de se manter calada. Dominic estava certo: ela tinha orgulho demais tambm, para dizer-lhe que no era, nem havia sido, amante
de David. Jamais daria esse tipo de explicao a homem algum e muito menos a ele!
- Ah... aqui est voc, Nicky querido. - A voz irritante de Amanda interrompeu-os. - Minha madrinha est pronta para ir embora. Voc vai ficar e jantar conosco,
est bem? Estou simplesmente fascinada com o que planeja fazer aqui, embora ache que voc est desperdiando seu talento numa cidade to pequena como esta. Deveria
estar clinicando em um lugar luxuoso, em Londres, na rua Harley...
Amanda conduziu-o para longe, atordoando-o com a sua tagarelice animada. Apesar do casaco de pele, Cristy sentiu um frio intenso, fruto de uma mistura de choque
e indignao contidos. O casaco, agora, envolvia seu corpo como uma priso, condenando-a, e, de repente, percebeu que o detestava!
Dominic tinha errado num ponto. Meryl escolhera a cor, no David. Mas como poderia ele adivinhar isso? David ia comprar-lhe um casaco de pele de lince, branco com
detalhes em ouro, mas Meryl protestara, alegando que, com aquele cabelo ruivo, o mbar ficaria mais bonito nela.
Cansada de tantas emoes, Cristy foi atrs do resto do pessoal. A temperatura cara ainda mais e j estava escuro. No havia mais ningum ali. Ela ligou o carro
e saiu.
Dirigia devagar, mas a grande tenso nervosa, que ainda a dominava, atrapalhava a sua concentrao. Aps um percurso bastante exaustivo, chegou  pequena estrada
que conduzia  sua casa, e j ia dar um profundo suspiro de alvio, quando sentiu o carro fora de controle, patinando no cho escorregadio e serpenteando, at cair
numa vala.
Passaram-se alguns minutos, at que Cristy, ainda tonta com a pancada, percebesse o que tinha acontecido e conseguisse soltar o cinto de segurana. O susto, acrescido
da ansiedade que vivera, deixou-a quase fora de si, misturando, em sua mente, imagens de ferros retorcidos, corpos feridos, queimados... Ento, num golpe brusco,
a porta do carro foi aberta, e duas mos a agarraram, tirando-a de l.
Olhou para o homem que a socorrera, incapaz ainda de diferenciar as alucinaes da realidade, pronunciando o nome de Dominic num tom baixo e confuso, o olhar vago,
como se no o visse.
- No tente falar... No agora, Cristy! - Dominic a apalpava, com uma expresso tensa no rosto plido, assegurando-se de que ela estava bem.
- O carro derrapou... eu...
- Eu sei o que aconteceu. Eu dirigia logo atrs de voc. Graas a Deus, pelo menos parece no ter quebrado nada. Voc bateu a cabea?
- No... no... Acho que no... - murmurou Cristy insegura.
- Vou lev-la comigo para casa. Quero examin-la melhor...
- No! Eu quero ir para a minha casa - recusou Cristy.
- Desse jeito? O que acha que vai acontecer, quando sua me souber do acidente? E que no teve atendimento adequado?
Cristy deu uma olhada em si prpria, incerta quanto ao seu estado, e, incapaz de argumentar com ele, fitou-o com os olhos tristes.
- No discuta comigo, Cristy - Dominic repreendeu-a como uma criana teimosa.
- Mas o carro...
- Telefonarei para a oficina e eles viro reboc-lo, no se preocupe. Agora, vamos sair desse vento infernal!
Cristy preparava-se para andar, mas Dominic pegou-a no colo, como se no pesasse mais que uma pluma.
- Dominic... - ia protestar.
- Nem um pio! - admoestou-a bravo.
O carro dele estava bem perto. Dominic abriu a porta de trs e a fez sentar-se no banco. Olhando para os ombros fortes salpicados de flocos brancos, Cristy percebeu
que nevava.
- Est nevando...
- Pode apostar que sim!
Dominic no parecia muito disposto a conversar sobre o tempo ou outro tipo de banalidade. Ela no conseguia entender por que ele lhe falava de modo to sarcstico,
e procurou engolir as lgrimas que, por fim, no conseguiu mais conter. " porque estou em estado de choque", disse a si mesma, mas essa concluso no conseguiu
acalmar-lhe a dor, mais ntima do que fsica.
Dominic estacionou em frente da casa, abrindo a porta para ela. Cristy fechou os olhos, tentado disfarar as lgrimas.
- Venha... - Ele pegou-a no colo. - No quero que ponha peso nas pernas at me certificar de que est tudo em ordem. Eu a levo para dentro.
Anos atrs, Cristy teria delirado de felicidade por estar em seus braos. Agora, tudo que sentia era apreenso e uma dor fina e aguda aumentando em seu peito.
- Voc deveria estar jantando em Manor House... - murmurou, consciente do forte magnetismo dele.
Uma espcie de pnico crescia em seu ntimo, enquanto ela se esforava para respirar normalmente, envolvida por aqueles braos to protetores e queridos. Queridos?!
Oh, no, detestados.
- Deveria, mas, como pode ver, no estou...
O tom seco de Dominic a impediu de fazer perguntas. Ele a apertou nos braos, fazendo-a recostar-se sobre o ombro largo e aspirar-lhe o perfume msculo, to caracterstico
dele. Cristy ficou tensa e sua face espelhou o grande conflito interno que vivia: o desejo irracional de am-lo e a mgoa do passado, que a fazia rejeit-lo.
- Algo errado? - indagou Dominic, percebendo-lhe as mais sutis alteraes.
O hlito morno, to prximo  boca delicada, fez com que ela estremecesse violentamente. Incapaz de falar, Cristy negou, com um gesto de cabea. Permaneceu confusa
entre sentimentos to contraditrios, enquanto ele entrava na casa e a acomodava no sof da biblioteca.
- No saia da! Vou telefonar para seu pai, avisando-o do que aconteceu. Depois vou examinar voc.
Antes de sair, Dominic avivou o fogo da lareira. Cristy, com o olhar fixo, observou as chamas, incapaz de se livrar do torpor que sentia. Aturdida, teimava em justificar
que a causa disso tinha sido o choque com o carro. No entanto, o que a desesperava mesmo era saber que a proximidade de Dominic  que havia abalado sua autodefesa.
Sentia-se frgil como uma criana, diante da fora daquele homem...
Instantes depois, Dominic retornou, ainda preocupado.
Disse a seu pai que no h motivo para se preocupar, mas, para evitar emoes fortes para sua me, Cristy, achamos que seria melhor voc dormir aqui esta noite.
Ele vai dizer a Sarah que eu a convidei para jantar e que voc aceitou. Se ela a vir nesse estado, pode at ter uma recada.
Terminada a explicao, Dominic ajoelhou-se em frente a ela e comeou a tirar-lhe as botas, antes que Cristy tivesse tempo de protestar. O toque das mos quentes
em seus ps fez seu corao disparar.
- Acho melhor voc me deixar tirar isso... - Dominic falou-lhe, apontando para a cala justa de l.
Cristy arregalou os olhos, assustada, e teve conscincia de que jamais o deixaria fazer o que estava pedindo. Sabia que era ridculo, pois Dominic agia como mdico,
mas tambm no podia esquecer que ele era o homem a quem amara. Estava certo que ele a vira crescer, tinham sido amigos, mas agora ela no era mais uma criana,
e, por alguma razo desconhecida, no queria que visse seu corpo com olhos de mdico, numa atitude puramente profissional.
- Estou perfeitamente bem! - recusou Cristy, e, para provar o que acabara de dizer, levantou-se, tentando andar. Ento comeou a perder o equilbrio e foi obrigada
a sentar-se de novo.
- O que  isso, Cristy? - perguntou ele spero. - Tenho certeza de que voc no me acharia capaz de tirar vantagem da situao...
A firmeza e objetividade de Dominic, ao colocar o problema to em evidncia, magoou-a, porque no deixava dvida alguma do que ele queria dizer. Tentou disfarar
o que sentia, mas no pde evitar de enrubescer fortemente, o que a irritou mais ainda.
- No seja ridculo, Dominic! Sei muito bem que voc  a ltima pessoa no mundo a me querer... - Sua voz soava estranha, engasgada pelas lgrimas que teimava em
conter.
Ela no o encarou logo, embora estivesse consciente do silncio pesado e constrangedor que os envolvia. No conseguiu ficar assim por mais tempo e fitou-o, estranhando
o olhar espantado e a expresso atnita.
-  isso realmente o que voc pensa?! - Ele segurou-lhe a cabea, entrelaando os dedos nos longos cabelos ruivos, impedindo-a de desviar o rosto. -  isso, Cristy?
Ela queria fugir, desaparecer, mas como poderia? Instintivamente molhou os lbios secos com a ponta da lngua, e viu o olhar de Dominic escurecer de desejo.
- Voc vem me evitando desde que voltou para casa, Cristy, mas pensei que era porque... - interrompeu-se, balanando a cabea. O brilho das chamas da lareira refletia-se
nos seus cabelos castanhos e destacava-lhe as formas msculas do rosto. Ela quase no conseguia controlar a vontade de acarici-los.
- Cristy, o que h de errado conosco? O qu?!
Ela no queria deixar-se levar pela seduo implcita na voz de Dominic. No podia esquecer que ele a magoara, e to profundamente, que nunca mais conseguira recuperar-se.
Por isso, afastou-se brusca, vendo-o franzir o cenho, preocupado.
- No sei que espcie de jogo est querendo fazer comigo, Dominic. Voc j me humilhou uma vez! - retrucou amarga. - E no vou deixar que me faa passar por isso
de novo!  fcil, para voc, agir como se nada tivesse acontecido... Como se nunca tivesse praticamente me chamado, h oito anos atrs, de... de... de... "pequena
vagabunda"... - completou, plida, os olhos injetados por um choro no derramado, o corpo tremendo de desespero.
Incapaz de continuar falando sem explodir em lgrimas, calou-se e desviou o olhar, fitando o vazio.
Dominic levantou-se e andou em direo ao fogo que crepitava na lareira. Movimentou-se com gestos agitados, antes de recomear a falar-lhe:
- Eu no tinha idia de que voc estivesse se sentindo assim! Meu Deus, Cristy, no pode me culpar desse jeito! O que queria que eu fizesse naquela noite? - Aproximou-se
dela, mas no a tocou. - Voc era apenas uma criana! - disse, numa voz que no passava de um sussurro.
Nesse momento ela virou o rosto e ambos ficaram face a face.
- Eu tinha dezessete anos! - Cristy explodiu.
- Como eu lhe disse, uma criana...
Cristy no pde evitar de comprimir os lbios com raiva, mas ficou surpresa quando Dominic insistiu num tom selvagem que ela desconhecia:
- Droga, Cristy! Voc era uma garota provocante, sedutora, mas apenas uma garotinha!
Que atrevimento! Afinal era ela que tinha direito de estar furiosa com ele, por isso no entendia aquela amargura repentina de Dominic.
- Voc est oito anos mais velha, hoje, Cristy, mas no parece ter amadurecido nada! Guardou a mgoa e o ressentimento de uma garota, em vez de tentar enxergar e
compreender o meu ponto de vista. Que diabo de atitude voc queria que eu tomasse? O que pensaria de mim depois, se tivesse aceitado sua proposta? J parou para
pensar nisso?
Cristy nunca havia pensado nisso antes, e estava assustada por ter que encarar, agora, essa realidade que ele lhe mostrava. Era uma mulher feita: o que pensaria
hoje de um homem que fizesse amor com uma adolescente que no sabia diferenciar o amor verdadeiro da paixo pelo heri idealizado?
- Cristy, voc nunca tentou ver as coisas do meu ponto de vista, tentou? Meu Deus, e pensar que voc carregou toda essa amargura por todos esses longos anos! Eu
sei que a magoei e aborreci... Mas tinha que faz-lo... Ser que pode me entender? Eu me preocupava demais com voc, porque era uma coisinha to delicada to...
inocente... Droga! Voc no fazia a menor idia... - Interrompeu-se de novo e respirou fundo. - Bem,  melhor no continuarmos discutindo essas coisas. - Dominic
balanou a cabea, respirando com dificuldade, como se estivesse sufocado,  procura de ar.
- Por que se comporta assim? No consigo entender que diferena faz o que eu penso! - Cristy s se deu conta de que fizera essa reflexo em voz alta quando se sentiu
agarrada pelo brao e obrigada a encar-lo.
-  claro que o que voc pensa faz diferena! - Ele praticamente gritava. - Voc seria capaz de acreditar que, se entrasse aqui hoje e se oferecesse a mim, como
o fez h oito anos, eu a recusaria?
Essa declarao de Dominic foi para ela um choque, semelhante a um soco no estmago. Com a respirao presa, procurou nos olhos dele algum trao de zombaria. S
o que viu foi angstia e... desejo. Ele a queria...
Cristy abriu a boca para falar, mas tornou a fech-la, sem achar uma resposta. Ouviu-o dizer com voz rouca:
- Repita a oferta agora!
Cristy entreabriu a boca instintivamente para receber-lhe o beijo ardente, to cheio de desejo, que no pde resistir-lhe.
Ouviu-o murmurar depois, enquanto roava os lbios com os dele:
- Voc no pode imaginar o quanto eu a desejo, o quanto esperei para fazer isso... Eu a quero demais h muito, muito tempo. Quero levar voc para minha cama agora
e fazer amor at...
Ante aquela declarao impetuosa, to inesperada, ela se afastou, temerosa, num misto de desejo e medo.
- Pare, Dominic, pare com isso! - olhou em volta desnorteada, procurando o casaco que cara em algum lugar da sala.
- Ah, entendo... Voc est pensando nele, no ? - O olhar de Dominic exprimia a amargura que sentia. - Desculpe. Esqueci-me de que voc tem algum... em algum lugar.
Teria sido muito fcil para Cristy desmentir essa histria ridcula, mas o ltimo resqucio de amor-prprio ferido a impediu de faz-lo. Ele a queria, e declarara
isso com ardor. E s ela sabia o quanto o desejava...
No momento em que se haviam beijado, Cristy soubera que seus sentimentos por ele no tinham mudado. Ao toc-lo, descobrira que o amava ainda mais do que antes: no
como uma adolescente, mas como uma mulher! Entretanto, uma parte dela no queria acreditar nisso, temendo ferir-se de novo. Outra parte do seu ser lhe dizia que
era verdade, que ele no mentia. Atordoada por essa dupla viso da realidade, preferiu se controlar e no se atirar nos braos dele, implorando novamente seu amor.
- Acho melhor lev-la para casa - decidiu Dominic num tom frio.
Cristy no protestou, mas sua boca ainda doa pela presso possessiva dos lbios dele. O corpo estava em chamas. Que ironia! Se ele soubesse como a leve atrao
que tivera por David era uma plida caricatura do desejo intenso e real que sentia agora...
Como o destino era irnico! Sentia uma vontade mrbida de rir ante a idia maluca de Dominic de que David era seu amante! Mas precisaria continuar com essa farsa,
pois, enquanto ele pensasse isso, estaria segura. Se descobrisse que nenhum homem a tocara, que nenhum homem fora capaz de despertar-lhe esse louco desejo que sentia
por ele, ento estaria perdida... Dominic facilmente a dominaria, teria a satisfao fsica que desejava e a abandonaria depois.
Uma vez Cristy chegara a pensar que, se Dominic fizesse amor com ela, acabaria por am-la. Estava to segura disso que o procurara naquela noite terrvel. Hoje era
uma mulher adulta, e via tudo de forma mais realista. Na verdade, ele nunca lhe falara em amor, nem nesse momento de ardente paixo.
Cristy no agentaria ser apenas um caso para ele, pois Dominic representava, para ela, toda a sua vida... Ele era o amor, no apenas o desejo.
Ao lev-la para casa, Dominic dirigiu em silncio. Nem bem estacionou o carro, ela saltou antes que ele tivesse tempo de abrir-lhe a porta.
- No, no entre comigo - pediu ela, seca.
Para seu alvio, Dominic ficou encostado no carro, fitando-a, at que ela fechou a porta, como se fechasse mais um captulo doloroso de sua vida...




CAPTULO V

Tom Marsden abriu a porta espantado, pois no esperava pela filha quela noite.
Cristy deu graas a Deus por no ter que explicar sua palidez quando entrou em casa. Seu aspecto era conseqncia do acidente com o carro. A verdade  que ela estava
totalmente atnita com a descoberta de seu amor por Dominic. E mais confusa ainda, pela viso nova que passara a ter das atitudes e sentimentos dele em relao a
ela, na briga de oito anos atrs. Tinha que reestruturar sua vida a partir dessa volta de cento e oitenta graus nas suas emoes!
Percebendo que a filha estava com as foras exauridas, Sarah sabiamente sugeriu que ela fosse tomar um banho e se deitasse.
- Ei! Voc  a nica aqui que est doente... - Cristy protestou com um sorriso pouco convincente.
- No sei, no, querida. Seu pai me disse que Dominic parecia bastante preocupado quando ligou. Devo admitir que eu at temia v-la machucada! Ainda bem que isso
no aconteceu...
"Meus machucados esto por dentro", pensou Cristy, entristecida.
- Por que Dominic no entrou com voc? Ele sabe que  sempre bem-vindo.
- Lady Anthony o convidou para jantar. Parece que ele havia recusado. Acho que mudou de idia...
- Sem dvida o convite foi idia de sua afilhada. Afinal, Dominic  um homem muito atraente! - Sarah esperou que Cristy contestasse, como de costume, mas ela era
honesta demais para mentir.
Cristy despediu-se da me e foi para o seu quarto, lembrando-se do modo apaixonado com que Dominic a havia beijado. Oh, por que fugira dele como uma criana assustada?
Qual era o seu problema afinal? Se o amava tanto, por que no lhe correspondera? Entretanto, algo lhe dizia que tinha feito o que era certo, a nica coisa possvel
nessa circunstncia. Amava-o demais para ter com ele apenas um caso passageiro, ainda que representasse uma paixo avassaladora. Como faria depois para juntar os
pedaos de uma mulher emocionalmente dividida?
Dominic desapareceu por quase uma semana, e Cristy tentou se convencer de que era melhor assim. Cara uma nevasca durante a noite, cobrindo campos e caminhos com
uma alta camada de neve que os mantinha dentro de casa. Desse modo, Cristy pde perceber que Dominic a estava evitando de fato, pois era sempre o assistente dele
que vinha examinar sua me todos os dias.
Ela j havia datilografado as atas das reunies do comit e atravs dos telefonemas do major e de Lady Anthony sabia que os planos para o baile de mscaras continuavam
em andamento.
Assim que o tempo melhorou, Cristy foi com o pai a Newcastle, onde passou a manh decidindo o tipo de convite que seria feito para o baile. Pensando na natureza
do evento - uma noite de gala - e na provvel desaprovao de Amanda a qualquer coisa escolhida por ela, Cristy decidiu-se por um carto elegante e bem formal. O
pai, que tinha ido resolver negcios na cidade, sugerira que almoassem juntos, num pequeno restaurante que, desde criana, ela considerava seu favorito.
A decorao do local tinha sido modificada, desde a ltima vez que Cristy estivera ali. Agora o ambiente, decorado em tons pssego e azul, alm de provar bom gosto
dos novos proprietrios, estava muito aconchegante para um dia frio como aquele. Na recepo, informaram-lhe que seu pai ainda no havia chegado e conduziram-na
a uma confortvel poltrona, prxima ao bar. Tinha acabado de pedir uma bebida, quando a porta se abriu e um casal entrou. Seu corao quase parou de dor ao reconhecer
Dominic e Amanda, esta ltima possessivamente pendurada no brao de seu par.
Dominic fitou Cristy sem sorrir, com um olhar cruel e amargo. Ela sentiu que ia chorar. Mordeu o lbio e viu-se forada a virar o rosto, controlando-se a qualquer
custo, para que eles no a vissem nesse estado. Dominic estava certo. Ela no havia amadurecido ainda, estava se comportando como uma garota de dezessete anos, e
no como uma mulher de vinte e cinco.
- Meu Deus, mas que mundo pequeno! - Amanda comentou de maneira afetada. - Tambm, suponho que, nesse fim de mundo, a gente tropece em algum conhecido cada vez
que sai na rua! Est sozinha?
embora seu olhar indeciso sugerisse que sim, Cristy tentou responder, tentando manter uma voz normal:
- No. Estou esperando por meu pai. Vim com ele esta manh e aproveitei para encomendar os convites para o baile.
- Oh, voc devia ter deixado isso por minha conta. "Mamy" conhece o dono de uma grfica maravilhosa em Londres...
A voz artificial da morena irritou ainda mais os nervos j bem tensos de Cristy. Achava ridculo uma mulher feita, perto dos trinta, chamar a me de "Mamy", como
se fosse um beb!
- Querido, estou louca por um drinque! - Amanda fez beicinho. - Alguma coisa civilizada. Deixo por sua conta, pois voc sabe do que eu gosto...
Custou muito esforo a Cristy no desviar o rosto quando viu Amanda bater os clios, sedutora, para Dominic. Era inacreditvel que a moa no percebesse o ridculo
a que se expunha, exagerando situaes e atitudes, sem perceber que Dominic no estava, nem remotamente, interessado em Cristy. A morena no podia ter deixado de
notar a expresso gelada dele ao chegar perto de sua mesa...
Enquanto Dominic foi ao bar, Amanda insistiu em provoc-la:
- O que voc pretende usar no baile? Acho que vou fazer um traje especial para a festa. Minha madrinha sugeriu-me que fosse falar com August novamente... August
Emanuel, voc conhece, no? Seus modelos so o mximo!
Cristy j ia devolver, com um comentrio cido, a impertinncia de Amanda. Que necessidade a outra tinha de bancar a esnobe, mostrando-lhe a diferena social entre
ambas? Felizmente, antes que Cristy a pusesse em seu lugar, Dominic voltou com os drinques.
Mesmo sem olhar para ele, Cristy percebia-lhe os movimentos. Dominic sentou-se ao lado de Amanda, e o mais longe possvel dela. No precisava ter feito isso. Sabia
que Dominic no queria absolutamente nada com ela, pois ele havia deixado isso bastante claro.
Desde o ltimo encontro, Cristy se propusera a pensar no que Dominic lhe havia dito sobre o incidente daquela noite mergulhada no passado. Conseguia, agora, aceitar
a verdade dos comentrios dele. Claro que ele no poderia ter feito amor com ela - uma adolescente to insegura, to frgil! Claro que tambm estava certo quando
a repreendera com veemncia! Dominic precisara assust-la, mostrando-lhe a realidade e as conseqncias graves que uma tolice daquele tipo lhe acarretaria, caso
fosse outro e, no ele, quem recebesse a oferta...
Tudo certo, ento? De jeito nenhum! O que ambos haviam subestimado fora a intensidade de seus sentimentos por Dominic. De um modo severo, ele tentara faz-la entender
a gravidade de seu comportamento, mas, agindo assim, deixara-a to insegura quanto  sua auto-imagem, que ela passara a bloquear todos os seus instintos femininos.
- Estava acabando de dizer a Cristy que vou  Londres mandar fazer meu vestido para o baile. - Amanda sorriu provocativa para Dominic, tentando conquist-lo. - Por
que voc no vem comigo, querido? Assim poder descansar um pouco. Tem trabalhado demais.
O desespero crescia dentro de Cristy, por ter que escutar aquela conversa. Virou-se para no ouvir a resposta de Dominic, e suspirou aliviada ao ver o pai se aproximando.
No era sem tempo!
- Ol, Dominic! No esperava v-lo aqui!
- Vim a Newcastle a negcios, Tom.
- E eu vim com ele, mas receio que acabei por atrapalh-lo - interrompeu Amanda.
Cristy percebeu que seu pai estava prestes a sugerir que almoassem juntos, e ver Amanda flertando com Dominic durante o almoo era muito mais do que ela podia agentar.
Sempre se gabara de ser uma mulher bastante imaginativa, por isso no precisava das provocaes da outra para ter certeza de que eles eram amantes. Um homem como
Dominic, com um intenso magnetismo sexual, no recusaria a companhia de uma mulher bonita e atraente como Amanda. E por que deveria?
- Pai... se voc no se incomodar, eu preferiria ir para casa e almoar l. Eu... no estou com um pingo de fome, agora...
Cristy no se importava com o fato de sua atitude ser bastante reveladora, e nem havia notado o olhar intenso que Dominic lhe lanara. Tudo o que queria era sair
dali, o mais rpido possvel, para no ver os dois juntos.
Mas seu pai havia percebido seu desespero, e concordou sem argumentar:
- Bem, se  o que voc quer... Devo admitir que no estou mesmo muito contente de deixar sua me sozinha por tanto tempo... - Dizendo isso, Tom foi  recepo explicar
a mudana de planos e pagar a bebida da filha.
Enquanto caminhavam para o carro, na fria tarde de janeiro, Cristy lembrou-se do olhar com que Dominic a observara, na sada. Um olhar de quem sabia o que se passava
com ela...
Trs dias depois, enquanto lidava com os afazeres domsticos, Cristy ouviu o pai cham-la:
- Telefone para voc, Cristy.
Seu corao bateu forte ao dirigir-se ao hall. Que loucura pensar que poderia ser Dominic! Ele dificilmente a procuraria, ainda mais depois de ter flertado abertamente
com Amanda h trs dias atrs, no restaurante. No entanto, sentiu aquele friozinho de excitao no estmago. Quem sabe?
Uma outra voz, muito familiar, a cumprimentou, vinda de longe:
- Cristy, querida, que saudade!
- Meryl, mas...
- Desculpe-me incomod-la, Cristy, mas preciso desesperada-mente de sua ajuda! David vai para Hollywood em poucos dias e voc j o conhece... Est em pnico, com
a partida e o desespero  maior porque no consegue achar o manuscrito de Pais e Filhas, uma pea para a qual fez algumas composies. Ele jura que deveria estar
no arquivo, mas j procurei vrias vezes: no est. E voc sabe como David fica impossvel nas crises de mau humor. Resolveu levar o manuscrito porque acha que os
americanos vo se interessar. Voc  minha ltima esperana...
Apesar de todos os seus problemas, Cristy no pde deixar de sorrir. A desorganizao de David era notria, mas ele no admitia que o criticassem por ela.
- Voc j procurou na letra E, Meryl?
- E?! - espantou-se Meryl.
- Em "Erros", meu bem - Cristy brincou com a amiga para aliviar-lhe a tenso.
- Para dizer a verdade, j procurei em todos os lugares possveis, no arquivo, e at fora dele! Minha pacincia est por um fio! Sabe, querida, eu estava pensando...
Sei que  pedir demais, mas ser que voc no poderia dar uma chegada aqui? Voc sempre teve a capacidade de acalm-lo... Neste exato momento eu arquivaria David
na letra M, de "Monstro"! - concluiu, magoada.
- Oh, Meryl, sinto muito, mas no posso...
Fez-se um silncio incmodo entre as duas e Cristy sentiu-se mal com a situao. O que poderia fazer para ajudar a amiga em apuros? Nesse instante, seu pai apareceu
no hall e perguntou:
- No pode o qu, Cristy?
- No posso ir a Londres - disse a ele em voz baixa, tampando o bocal. - Meryl no consegue achar um dos trabalhos de David. Est desesperada e me pediu que fosse
l dar-lhe uma mozinha.
- Bobagem... Claro que pode ir! Acho at que voc deve, filha. Est precisando de um descanso, e, assim, aproveita tambm para comprar algo para o baile de mscaras.
No se preocupe com sua me. Eu posso cuidar dela.
Cristy franziu o cenho. Como explicar a seu pai e a Meryl que no queria ver David de novo? Mordeu o lbio inferior, preocupada, ao ouvir a amiga perguntar, ansiosa,
se a linha tinha cado.
- No... no... ainda estou aqui, Meryl.
- Olhe, Cristy, detesto pression-la, mas realmente preciso de ajuda! Voc no tem a menor idia de como andam as coisas por aqui. David est me deixando maluca...
E, alm disso... - A voz de Meryl pareceu perder a fora, como se estivesse contendo as lgrimas; mas depois se recuperou, apresentando um tom agudo, de falsa alegria,
que partiu ainda mais o corao de Cristy. - Eu no preciso fingir para voc. Suspeito que David esteja de novo envolvido com alguma mulher, e isso o est tornando
mais intratvel do que nunca!
Desolada, Cristy imaginou que Meryl bem podia estar certa. Afinal, conhecia o marido... E, de sua parte, Cristy no tinha mais medo da atrao que David havia chegado
a exercer sobre ela. Por isso concordou, num tom ainda relutante:
- Bem, se voc realmente precisa de mim...
- Oh, voc  um amor! Pode jurar que preciso mesmo, querida! Quando voc vem?
Antes de desligarem, ficou acertado que Cristy tomaria o trem na manh seguinte, bem cedo, e passaria a noite na casa dos antigos patres.
 tardinha daquele mesmo dia, o pai chamou-a no escritrio, e presenteou-a com um polpudo cheque, para que comprasse um vestido para o baile. Comovida, Cristy argumentou
que j lhe dera muita despesa, pois quebrara o carro da me, ao que o pai respondeu, gracejando:
- No seja boba! Alm disso voc tem que manter a honra de Setondale... Voc sabe. Nenhuma forasteira pode estar mais bonita que as garotas da cidade!
Cristy sorriu, pois no teve coragem de dizer ao pai que, por mais generoso que fosse o cheque, ela dificilmente compraria um vestido mais bonito que o de Amanda,
"a forasteira", que seria feito por um estilista famosssimo de Londres.
Quando o despertador soou, s quatro da manh, Cristy levantou-se e tomou uma ducha. Mesmo vestida, sentia-se ainda como um zumbi, de to sonolenta. O txi a deixou
na estao de Newcastle a tempo de tomar o trem. Vencida pelo sono, dormiu durante boa parte da viagem no seu confortvel assento, na primeira classe. Foi uma surpresa
agradvel encontrar Meryl esperando-a na estao.
- No precisava ter se incomodado! - Cristy protestou, aps o abrao apertado. - Eu poderia ir sozinha para Wimbledon, Meryl. Tenho certeza de que voc tem milhes
de coisas urgentes para fazer...
- Pode apostar que tenho! - lamentou-se Meryl, abrindo a porta do carro. - Mas eu precisava urgente do consolo de um ombro amigo para chorar... Oh, no sinta pena
de mim, Cristy! Afinal, estou com ele por escolha minha, se bem que h momentos em que me acho masoquista ou, at pior, uma idiota: vivo dizendo a mim mesma que,
bem l no fundo, David me ama... , ou no, uma loucura?
Meryl sorriu sem alegria quando Cristy tentou confort-la, assegurando:
- Claro que David a ama, Meryl. Eu sei que sim!
- Pode ser... o que sempre digo a mim mesma nos momentos de crise. Mas agora, estou comeando a duvidar. Seria to bom se todos tivessem os mesmos valores morais
que voc tem...
Meryl ergueu as sobrancelhas ao ver o espanto de Cristy e sorriu-lhe, acrescentando:
- Eu posso parecer estpida, mas no sou. Mulheres como eu, que se casam com homens encantadores e atraentes, aprendem depressa a reconhecer os sinais de perigo.
"Mulheres  vista! Atacar!"  mais ou menos assim... Devo admitir que com voc demorou um pouco mais para que eu percebesse que David estava pronto para a abordagem.
Mas percebi assim que ele quis lhe dar aquele casaco de presente...
- Mas ento por qu...
- Eu o escolhi para voc? Ora, porque voc o mereceu!
- Como?! Mereci?
- Sabe, Cristy, no incio achei que voc no seria capaz de resistir a David. Para dizer a verdade, nem sei como conseguiu. Ele pode ser muito persuasivo, quando
quer... Mas quando voc me avisou que ia embora, soube que no havia motivo para me preocupar com relao a voc. Quanto a ele...
Cristy viu lgrimas de dor molhando o rosto suave e meigo de Meryl, e censurou mentalmente David por sua insensibilidade. Nesse momento, sentiu-se muito feliz por
ter resistido ao breve impulso que tivera de aceit-lo como amante. Jamais conseguiria suportar o desespero e o tormento que via nos olhos da amiga, se a tivesse
trado.
- Oh! Prometi a mim mesma que no me comportaria assim...  s que... - Meryl deixou a frase inacabada.
Cristy notou ento que ela ganhara peso e que seus movimentos pareciam diferentes. Havia uma certa lentido que no era caracterstica de Meryl.
- , estou grvida. - A voz de Meryl soou cansada. - Oh, o que David ir dizer quando souber? Por enquanto ele acha que estou agitada com a viagem e, por isso, comendo
demais. E, pelo menos at estarmos em Hollywood, prefiro que continue pensando assim... Se lhe disser que estou grvida, David vai tentar encontrar uma desculpa
para me deixar para trs. E quem no sabe o que acontece s esposas que ficam para trs? Uma separao temporria acaba virando permanente... Mas, por favor, no
diga nem uma palavra a David. Conto com voc.
O trfego estava pssimo e Cristy ficou em silncio para no distrair a ateno da amiga. Finalmente tomaram a estrada que as conduziria para a confortvel cada
dos Galvin, em Wimbledon.
- David no est, e as crianas foram para a escola. - Meryl comentou, assim que entraram na casa, indo direto para o escritrio do marido. - Ele saiu daqui soltando
fascas! Sem dvida foi atrs de Mirabelle Hastings, em busca de consolo... - concluiu amarga.
- Ele logo se cansar dela, Meryl.
- Sim, eu sei. David sempre volta. Mas o que eu no sei  se vou ter pacincia de esperar por ele... - Fez uma pausa para um suspiro profundo. - Sempre procurei
dizer a mim mesma que tinha sorte demais por ter casado com um homem como David; e que, exatamente por ser ele o homem maravilhoso que , eu deveria pagar o preo
que essa situao exigia. Mas, nestes ltimos meses, venho pensando, s vezes, se no seria melhor se eu estivesse casada com outra pessoa, algum que me colocasse
em primeiro lugar...
Cristy olhou para ela atnita e consternada:
- Meryl, querida...
- Ah, vamos, no d ateno para as bobagens que eu falo. Deve ser por causa do beb. Venha, Cristy, vamos procurar esse maldito manuscrito enquanto estamos sozinhas.
Vou pedir a Helga para nos trazer um cafezinho. Se quiser, fique  vontade e pode ir comeando a procurar...
Enquanto Meryl providenciava o caf, Cristy abria e fechava gavetas do arquivo, em busca do manuscrito perdido. Meryl juntou-se a ela e ambas trabalharam com pacincia
e cuidado. Finalmente, aps duas horas, acharam o que queriam. Um suspiro de alvio partiu das duas mulheres.
- Veja s! Entre o Q e o R! - Meryl quase gritou, desgostosa. - O que diabos essa papelada poderia estar fazendo a?
- S Deus sabe... Ou melhor, s David. - Cristy comentou, cansada, lembrando-se do hbito do antigo chefe de colocar os papis que no estava usando em qualquer
lugar, simplesmente para tir-los de sua mesa entulhada. Nunca se importava de catalog-los ou de avisar quais eram importantes ou quais podiam ser atirados ao lixo.
-  isso ento... - Meryl despencou sobre uma cadeira. - Voc deve estar me xingando por t-la feito vir de to longe s para achar essa papelada...
- Que nada! Eu teria que vir para c de qualquer jeito. Apenas antecipei a data. Preciso escolher um traje de baile. Vamos ter um baile de mscaras em Setondale,
sabia?
Mais para distrair a amiga, do que por estar realmente interessada no vestido, contou sobre os planos de Dominic com relao ao centro de sade, e deu a Meryl os
detalhes sobre o baile.
- Cristy, tenho uma idia muito melhor! Voc no precisa comprar nada para esse baile.  muito mais fcil alugar um belo traje, inclusive com os acessrios! Vamos
a algumas agncias de teatro. Eles tm roupas fabulosas!
"Meryl est certa", pensou Cristy, "sem dvida,  melhor alugar..."
- Bem, Meryl, sempre imaginei que seria necessrio participar de alguma companhia de teatro, no mnimo, para poder alugar roupas em casas especializadas para atores.
- No, senhorita! Ser a esposa de David tem l suas vantagens... Eu conheo o lugar certo, pode crer. Aluguei um traje nessa loja para passar a festa do Ano-novo
na casa dos Palfry. Era fantstico! Prepare-se. Vou telefonar para eles e, em seguida, iremos at l.
Pressentindo que Meryl precisava se manter ocupada, Cristy concordou com a ajuda da amiga. Para si mesma tambm seria bom ter algum para trocar idias.
J na loja, uma hora depois, apreciavam vestidos de baile to lindos e luxuosos que deslumbrariam at mesmo Amanda.
- Que tal esse? - a demonstradora sugeriu, segurando um resplandescente vestido de cetim adamascado cor de champanhe. - Foi desenhado para o papel de Kate, em A
Megera Domada, de Shakespeare.  perfeito para uma ruiva de pele acetinada como voc...
Encantada, Cristy tocou o tecido, imaginando como os desenhistas teriam conseguido aquele efeito opalescente. O corpete fora incrustado com pequenas e sedosas prolas.
O decote audacioso formava um V profundo, deixando entrever a linha dos seios, bem no estilo shakesperiano.
- Experimente-o, Cristy! - incentivou-a Meryl.
Precisou da ajuda da balconista para aboto-lo atrs. O corpete amoldou-se ao seu corpo como uma segunda pele, o espartilho salientando-lhe o formato dos seios,
realados pelo decote audacioso e pela cor do tecido. Quando comentou que achava o modelo muito ousado e revelador, a assistente balanou a cabea:
- Mas  assim mesmo que tem que ser! Est perfeito em voc e no h necessidade nem de mexer no comprimento...
Ao ouvir os protestos de Meryl, que tambm queria v-la, Cristy saiu do provador.
-  fantstico, Cristy! Voc deve ficar com ele, sem dvida!
- Vou precisar de uma mscara - Cristy avisou  balconista, j bastante tentada a alug-lo. Mesmo que o aluguel fosse caro, ainda assim seria bem mais barato do
que comprar um.
- Uma mscara... Aqui est! Este traje foi desenhado para a cena do baile, que no existe na verso original. Fez parte de uma adaptao  pea shakesperiana, que
inclua um baile de mscaras no enredo - explicou a moa.
Do mesmo cetim do vestido, a mscara era rebordada com prolas. Deu a Cristy uma expresso etrea e ressaltou-lhe os lbios cheios e o formato amendoado dos olhos.
- Mas est perfeito! Ns ficamos com ele! - Meryl decidiu por Cristy.
Enquanto empacotavam o vestido, Cristy dava uma olhada em outros modelos. Havia ali trajes de todas as formas e estilos possveis: elegantes modelos de chiffon,
rodados e enfeitados com contas de cristal, como nos anos vinte, ou requintados e elegantes como os da belle poque.
- Poderamos ficar aqui o dia inteiro admirando os trajes, no ? - comentou Meryl, enquanto acariciava um modelo em seda.
Logo depois deixaram a loja e retornaram a Wimbledon. O carro de David j estava na garagem quando chegaram. Em segundos, Cristy tomou conscincia da mudana de
Meryl, que at aquele momento estivera mais solta, um pouco menos ansiosa. Ao ver o carro, Meryl fechou-se em si mesma e Cristy sentiu pelo sofrimento da amiga.
- At que enfim voc chegou, Meryl! Onde diabos voc estava? Sabe muito bem que temos compromissos hoje  noite!
A irritao de David desapareceu assim que ele viu Cristy ao lado de Meryl.  luz difusa do hall, ele corou, confuso, pois havia percebido como tinha sido indelicado
com a esposa.
- Cristy, minha querida... O que est fazendo aqui? - Sua voz demonstrou ternura, mas ele no ousou abra-la.
- Chamei Cristy para ajudar-me a achar seu manuscrito, David. Cristy percebeu quo desconfortvel David se sentia, pelo tique
nervoso que ele tinha em situaes constrangedoras: no parava quieto, ficando ora apoiado num p, ora noutro.
- Ns achamos o manuscrito entre as letra Q e R - Cristy informou-lhe secamente.
David encarou-a muito envergonhado, o rosto ainda vermelho.
- Bem, acho que tenho me comportado muito mal ultimamente... Deve ser por causa dessa maldita viagem aos Estados Unidos!
- Verdade? Pois eu pensei que era porque voc anda com a cabea ocupada com outros assuntos...
Incrvel! A frase irnica partira da boca de Meryl!
Cristy no saberia dizer qual deles tinha ficado mais espantado. Era to difcil Meryl dizer alguma coisa mais dura ou fazer qualquer crtica ao marido, que nem
ele nem a prpria Cristy esboaram qualquer reao.
Foi s quando Meryl foi para a cozinha que David relaxou um pouco, suspirando e reclamando baixinho:
- No sei o que deu em Meryl ultimamente...
- No sabe mesmo? - Cristy fitou-o acusadora.
- Que diabos voc quer dizer com isso?! - David tinha o cenho franzido e tentou argumentar forte, como sempre fazia quando estava errado. Sem nenhuma delicadeza,
agarrou-a pelo brao, levando-a para o escritrio. - O que est acontecendo aqui? - inquiriu, fuzilando-a com o olhar. - Meryl anda impossvel nestas ltimas semanas!
No  de seu feitio...
- Por que voc no pra um pouco para refletir? Talvez ela esteja cansada de um marido que lhe  constantemente infiel... - Cristy sugeriu, spera; mas, em seguida,
arrependeu-se. Afinal, aquele no era um problema seu, e Meryl talvez no gostasse de saber que ela havia interferido na vida do casal.
- Voc quer dizer que ela sabe?! Ela contou isso a voc? Para um homem inteligente, David mostrava-se bastante tolo!
Cristy olhou para ele com ironia e sem piedade.
- Meryl sempre soube, David. S que, no passado, preferia fingir que no via. Por que voc pensa que eu nunca quis ter um caso com voc? - zombou ela, mas logo voltou
a falar srio. - Voc  um homem muito bonito e no pense que no me senti tentada. Sabe tambm ser muito persuasivo quando quer, David, mas Meryl  minha amiga.
Gosto demais dela para mago-la com um caso, que seria, no mximo, uma trrida paixo de duas semanas...
- Voc realmente sabe como desmontar um homem, no? - David comentou, cido. Mas Cristy percebeu que a reao dele era fruto do choque que sentira pelo que acabara
de descobrir: Meryl sempre soubera...
- Oh, tenha d, David! Que esperava de mim? Trabalhei para voc por muito tempo para alimentar qualquer tipo de iluso sobre as suas paixes, to intensas quanto
momentneas: era s aparecer um belo rosto novo, e voc se convencia de que estava perdidamente apaixonado! Mas, uma vez passada a excitao da conquista, o caso
acabava e voc voltava correndo para a realidade e para Meryl... Voc j parou para pensar o que aconteceria se um dia no tivesse para quem voltar?
Cristy sabia a resposta: essa idia jamais ocorrera a David. Ele parou em frente a ela, olhando-a, ferido e confuso como um garotinho.
- Mas Meryl sempre estar aqui, Cristy, ela  parte de mim!
- Ser?! - Cristy voltou a cutuc-lo em sua ferida, acuando-o, vendo seu olhar cada vez mais cheio de dvidas.
- Ela ama voc, David, mas o amor, quando ferido, no dura para sempre...
De repente, David a encarou, profundamente abalado:
- Est querendo me dizer que Meryl tem algum? - O olhar dele parecia atravess-la, como se fitasse o vazio. - Bem que ela tem estado diferente h algum tempo...
Isso explicaria... - David olhou-a pensativo e Cristy apressou-se a esclarec-lo:
- Ela no me disse nada disso, David. Por favor, no misture tudo. Fui eu que percebi que Meryl est infeliz.
- Meryl, infeliz?
David estava to indignado, que, se o caso no fosse to srio, ela teria arriscado um sorriso. Bem que ele merecia isso!
"J interferi bastante, talvez at demais", disse a si mesma, ao v-lo taciturno, olhando a paisagem atravs da janela. Nunca duvidara de que ele amava a esposa,
mas Meryl precisava e merecia bem mais do que David estava lhe oferecendo. Seria muito bom deix-lo inseguro quanto ao amor dela e quanto  possibilidade de vir
a perd-la.
Bem, o que quer que pudesse acontecer com o casal, fruto de sua interferncia ou no, era impossvel de prever. Pelo menos de uma coisa estava certa: os sentimentos
de David por ela eram novamente os de um amigo. No acreditava que ele voltasse a desejar dela mais do que amizade. David encontrava, ao seu alcance, muita distrao
fcil e atraente. Mas, de qualquer forma, era um alvio saber que sua perseguio amorosa terminara.
Cristy deixou David pensativo na biblioteca e subiu para o quarto. Logo mais,  noite, ouviu, surpresa, a voz firme e decidida de Meryl, que se recusava terminantemente
a acompanh-lo ao teatro. Ao deparar com Cristy depois, ela se justificou:
- Far bem a ele sentir-se sozinho. Sua namoradinha no estar no palco esta noite. Uma atriz novata a substituir, ento David no ter nem o consolo de v-la...
Sabia que  por isso que ele quer que eu v? Bem, pelo menos uma vez na vida, decidi que no quero ocupar o segundo lugar! - A voz de Meryl parecia segura, mas seus
olhos se encheram logo de lgrimas. - Oh! Deus, Cristy, sou uma boba, mesmo... Por que eu, simplesmente, no desisto dele? No posso continuar competindo... sempre...
sempre...
- Nem precisa, minha querida. Ele realmente ama voc, Meryl. S acho que David tem que ser lembrado disso, de vez em quando. Creio que nunca vai mudar, ser sempre
um grande paquerador, pois  uma criana que necessita agir assim para se auto-afirmar. Mas queria que voc o tivesse visto, quando eu lhe disse, esta tarde, que
voc estava cansada dele...
- Voc lhe disse...?!
- Disse! E David me olhou to chocado como uma criana que, de repente, ouve que no vai receber presente de Natal...
- Hum... Sabe que nunca pensei em lhe fazer cimes? - Meryl, pensativa, parecia ter descoberto uma luz no meio de um tnel.
- Pois eu acho que deveria pensar! Mas no exagere... - comentou, sorrindo, ao olhar para a barriga de Meryl. - Com a imaginao que David tem...
- Nem brinque... Bom, vamos deixar essa histria de cimes para uma outra hora, depois que o jnior aqui tiver nascido. Alm do mais, acho que David no agentaria
tantos choques de uma s vez!
Ambas riram, enfim relaxadas, e Cristy se alegrou ao ver Meryl mais animada e esperanosa.
David chegou cedo em casa. Diplomaticamente, Cristy despediu-se do casal, dizendo que queria descansar pois a viagem a deixara exausta. Agora era por conta deles.


CAPTULO VI

Logo pela manh, quando j ia chamar um txi para lev-la  estao, Cristy foi interrompida por David, que fez questo de transport-la em seu carro. Estavam j
um pouco atrasados e ela foi obrigada a aceitar a maneira atrevida, e at mesmo irresponsvel, com que ele dirigia, para vencer a "barreira" do tempo.
- Pronto! Aqui estamos, Cristy. Sos e salvos, no horrio! Tranqila, agora?
Claro que estava tranqila, agora! Com a maior displicncia em relao s leis do trnsito, David estacionara o carro no espao reservado aos txis! Ufa, ainda bem
que logo estaria de volta  pacata Setondale...
 frente deles, um carro deixou o passageiro na porta da estao, e Cristy sentiu o estmago contrair-se, reconhecendo os cabelos castanhos e o corpo atltico de
Dominic.
Como se fosse atrado por uma espcie de alquimia, ou algum tipo de mgica, ele voltou o rosto na sua direo e ambos se encararam. No precisava ser nenhuma vidente
para adivinhar que o olhar srio e rude que ele lhe lanou era por ver David ao seu lado. Hipnotizada pela fora de atrao dos olhos acinzentados, no percebeu
quando David se aproximou e beijou-a na boca! Ela sabia que no era um beijo apaixonado, e sim o cumprimento exuberante de um homem galanteador, mas Dominic no
pensaria o mesmo. Por isso, quando separou-se de David e olhou a sua volta,  procura de Dominic, no encontrou ningum.
 claro que David tambm insistiu em ir at a plataforma, carregando a grande caixa do vestido e despedindo-se dela novamente; s que dessa vez a beijou no rosto.
- V com Deus! Voc precisa ir passar uns tempos conosco nos Estados Unidos, Cristy!
Cristy correu para sua cabine, esperando no encontrar Dominic e Amanda pelo caminho. Por que estranha brincadeira do destino resolvera ir a Londres justamente no
mesmo dia que ele?
Sentiu o rosto em fogo s de imaginar que Dominic pudesse achar que ela fora atrs dele. Ento lembrou-se de que ele a tinha visto com David, fato que sem dvida
fora interpretado como um encontro de amantes. Seria impossvel pensar que ela o seguira, aps presenciar aquele beijo de despedida...
Cristy acomodou-se confortavelmente na poltrona, desejando ter comprado algumas revistas. Virou o rosto para a janela, admirando a paisagem, quando o trem comeou
a se mover. Esperava que a situao entre Meryl e David melhorasse. Gostava dos dois, mas tinha um afeto especial pela amiga, sempre sincera, to frgil e, ao mesmo
tempo, to forte.
Perdida em seus pensamentos, teve a impresso de que algum estava se aproximando para se sentar na poltrona ao lado da sua. Pelo canto do olho, sem voltar a cabea,
notou a mo bronzeada e o punho da camisa imaculadamente branca. Seu estmago voltou a se contrair ao reconhec-lo.
- Dominic! - O nome escapou-lhe dos lbios, antes que pudesse evit-lo; ao virar-se, viu-o com um sorriso sarcstico e zombeteiro nos lbios.
- Sonhando com o amante, Cristy?
Sem esperar que ela confirmasse ou negasse a acusao, ou mesmo tivesse tempo para qualquer resposta possvel, Dominic continuou, amargo:
-  estranho como a gente se decepciona, no? Houve um tempo em que eu juraria que voc jamais se envolveria num relacionamento com algum que j estivesse comprometido,
ou, pelo menos, julgava que seria a ltima pessoa a se conformar com uma situao dessas.
A acusao infundada a magoava muito e tudo o que queria era que ele sasse dali para poder chorar em paz todo seu sofrimento. Mas acabou por tomar o caminho mais
tortuoso, talvez desejando feri-lo tambm.
- As pessoas mudam, Dominic.
- Estou comeando a me convencer disso... - Olhou para o bagageiro, bem acima deles, e viu a caixa do vestido. Um toque de cinismo escureceu seus olhos, e ele se
levantou, passando os dedos sobre a caixa, antes de comentar, num tom falsamente doce. - O que  isso, Cristy? Pagamento por servios prestados, como o casaco?
Se pudesse, teria batido nele, tamanha era a raiva que sentia. Levantou-se, trmula, e, com a face em chamas diante da fora de suas emoes, pegou a caixa e tentou
passar. Queria fugir dali o quanto antes.
- Saiba que eu no preciso de pagamento para passar um tempo com o homem que eu amo. - Foi a resposta mais cida que conseguiu dar e de sentido completamente ambguo.
Ofendia-se com o que ele pensava dela, mas no queria dar-lhe o gostinho de contar a verdade.
Cristy no conseguiu passar por ele. As pernas longas fechavam o pequeno espao e seria impossvel sair sem ter que forar a passagem, tocando-o fisicamente, o que
no queria fazer,  claro. Com a voz mais grave ainda pela frustrao, ela ordenou, rude, a Dominic:
- Por favor, deixe-me passar!
- Por qu?
Ela encarou-o. Percebia um divertimento irritante nos olhos de Dominic. Suspirou fundo, os nervos  flor da pele, procurando controlar-se. Droga! Ele apenas se divertia
em desafi-la, conhecedor, como era, de seu temperamento explosivo. No tinha a menor inteno de deix-la sair dali.
- Sente-se, Cristy. Voc est fazendo uma cena, sabia? Olhou ao redor e constatou que era verdade. Os passageiros mais
prximos j comeavam a olhar para eles.
- Deixei meu carro estacionado em Newcastle e meu primeiro compromisso ao chegar a Setondale  ver sua me. Ela vai achar muito estranho quando souber que viajamos
no mesmo trem e no
nos vimos...
Ele tinha razo quanto a isso, mas no havia a menor necessidade de continuar viajando a seu lado, ouvindo-lhe os comentrios cidos que parecia estar disposto a
fazer. Resolveu passar ao contra-ataque:
- Onde est Amanda? - perguntou secamente, enquanto se sentava.
- Ela vai passar alguns dias com a me em Londres.
Bastou olhar para o belo rosto de Dominic e Cristy sentiu-se irracionalmente tentada a continuar provocando-o:
- Ah, no diga... Estou surpresa que Amanda o tenha deixado voltar sozinho para casa...
Em vez de ficar furioso, como ela queria, Dominic simplesmente sorriu, os olhos com um brilho intenso, quando lhe disse, quase num sussurro:
- Sabe, Cristy, falando assim, algum at poderia pensar que voc est com cimes...
Certo. Ele podia for-la a permanecer a seu lado, mas no iria obrig-la a conversar. Ah, isso no! Comprimindo os lbios, desviou os olhos para alm da janela.
Podia sentir o quanto estava tensa e com a garganta seca. Daria tudo por uma bebida...
Como e quando adormeceu, Cristy no saberia dizer, mas foi a voz suave de Dominic em seu ouvido e a presso de seu rosto contra o peito dele que a despertaram.
Totalmente desorientada, zonza de sono, fitou-o muda, face a face, notando, pela primeira vez, que os olhos de Dominic no eram de todo acinzentados, mas tinham
uma colorao azul ao redor da ris.
Fascinada, continuou fitando-o, at que o som da voz dele a trouxe de volta  realidade, consciente do calor que emanava do corpo masculino, e de como seu prprio
instinto reagia a esse contato. Sob a jaqueta, Cristy podia sentir os seios intumescidos e, ansiosa, fixou-se na boca sensual e perfeita de Dominic. Qual seria a
sensao, ao traar o contorno daqueles lbios com a ponta dos dedos, senti-los contra os seus? Doente de desejo, e medo, afastou-se, rgida. Seria imaginao sua
ou havia algo de muito perigoso naquele silncio pesado, denso, que parecia engoli-los?
No tinha coragem de olhar para Dominic e ler-lhe nos olhos que ele percebia o que se passava com ela. Seria terrvel. Por isso, procurou disfarar o quanto pde.
- Pedi para voc uma xcara de caf e um sanduche. Est bom?
As palavras simples tiveram o efeito de acalmar sua imaginao frentica e Cristy forou um sorriso bem-educado, mas seus lbios trmulos transformaram-no quase
numa caricatura.
Que homem complexo Dominic se tornara! Como podia mudar tanto? H uma hora atrs, ele a acusava de no ter o menor escrpulo em manter um caso com um homem comprometido
e, agora, oferecia-lhe um sanduche, com a mesma voz calma e agradvel com que a tratava quando adolescente. Mas, embora ele parecesse ter abandonado a postura agressiva
e conversasse sobre sua vida durante os oito anos em que estiveram afastados, Cristy sabia que, sob aquele tom de voz gentil, havia um vulco perigoso, prestes a
explodir. E isso a mantinha em guarda.
Toda vez que Dominic tentava saber mais sobre o passado, ela se esquivava, no permitindo que ele penetrasse em sua vida particular. Entretanto, percebia que, se
as circunstncias fossem outras, seria fcil retomarem a velha amizade. Dominic ainda exercia a mesma fora e o mesmo encantamento sobre ela. Cristy temia que nunca
conseguisse super-los por completo.
O trem j estava chegando a Newcastle, quando ela o viu franzir o cenho, de novo nos olhos aquele brilho de ironia:
- No adianta, no , Cristy? No existe a menor possibilidade de voc e eu nos tratarmos como pessoas educadas, no ?
Cristy sentiu-se como se estivesse desmoronando, mas tentou parecer calma e distante ao responder-lhe, propondo uma nova questo:
- Existe realmente alguma razo para isso?
O rosto de Dominic tornou-se sombrio e ele falou, cansado:
- No, nenhuma realmente.
Algum tempo depois, o trem parou em Newcastle. Tinham estado ambos calados at aquele momento, quando ento Dominic insistiu em lev-la. Foi obrigada a segui-lo
at o carro, pois ele carregava-lhe a caixa com o vestido.
Dizia a si mesma que estava contente com o silncio que ainda pairava no ar, embora se sentisse no limite de seu autocontrole. No conseguia deixar de imaginar cenrios
romnticos, nos quais ela e Dominic, em vez de duas pessoas que travavam uma eterna batalha emocional, eram dois amantes apaixonados, desfrutando uma perfeita comunho
de corpo e esprito. Por que sua mente no a deixava em paz? Sonhos... Sonhos loucos...
Ao parar na casa dos pais de Cristy, Dominic falou pela primeira vez, depois que partiram de Newcastle.
- Vou entrar e examinar sua me agora.
Sarah ficou encantada ao ver os dois juntos e contente ao saber que haviam viajado no mesmo trem. lambem ela devia estar imaginando bobagens...
- Voc conseguiu resolver o problema de David? - perguntou  filha, enquanto Tom foi fazer um caf.
- Sim, mame, ns achamos o tal manuscrito.
- E Meryl, est bem?
Sarah Marsden sabia tudo sobre a esposa de David, pois Cristy sempre comentara com ela os problemas de Meryl e as peripcias das crianas.
- Sim. Bem, quer dizer, dentro das possibilidades, est tudo bem...
Cristy ficou voltada para a janela, apreciando a paisagem, enquanto Dominic tirava o casaco. Quando se virou para a me, quase perdeu o flego, ao perceber os msculos
fortes, atravs do tecido fino da camisa. Um calor intenso a dominou de repente, e um desejo quase incontrolvel de ser amada por ele tornou-a frgil como cristal.
Sentia que apenas um toque dele a faria partir-se em mil pedaos. Entrou de novo em devaneio, completamente absorta.
- Cristy...!
O tom um tanto reprovador da me, exigindo dela uma explicao melhor sobre Meryl, tirou-a de seus devaneios. Completou o que ia dizer sobre a amiga, sentindo-se
mais vermelha do que nunca, o rosto queimando...
- ... bem... Meryl est grvida!
Ouviu um suspiro profundo, mas s se deu conta de que viera de Dominic quando o encarou e viu a selvagem condenao em seus olhos acinzentados.
Tarde demais. Era to evidente, quanto falsa, a interpretao que ele tinha dado a seu comentrio sobre Meryl. Tanto que, ao se aproximar da cama de Sarah, ele sussurrou-lhe
amargo:
- E, apesar disso, voc ainda o aceita como amante? Que tipo de mulher  voc, afinal?
"O tipo que, feito uma idiota, continua amando voc, mesmo sabendo que no quer o meu amor!", era o que Cristy queria gritar-lhe, mas, num esforo supremo, e, graas
a uma boa dose de orgulho, preferiu ficar calada, engolindo a raiva prestes a explodir.
Seu pai, chegando com o caf, quebrou o incmodo silncio. Dominic comeou a examinar Sarah.
- Bem, parece que voc est fazendo excelentes progressos! - comentou ele ao terminar a consulta.
- Estou ficando  muito mimada... - Sarah sorriu-lhe. - Mas, j que esto me acostumando mal assim, posso lhe pedir um favor?
Dominic abriu-lhe um sorriso largo e afetuoso.
"Por que ele no sorri assim para mim, em vez de sempre me acusar do pior?", Cristy pensou amarga.
Pouco depois concluiu que, hipnotizada pelo encanto do sorriso dele, no previra o que sua me estava tramando, e, quando descobriu, j era muito tarde para qualquer
reao contrria.
- Estava pensando se voc poderia levar Cristy ao baile, Dominic. Tom no quer ir. Disse que o baile no vai ter a menor graa sem mim - Sarah lanou um olhar amoroso
para o marido. - Bem... e depois do acidente de Cristy com o carro, ns ficaremos muito preocupados se ela tiver que dirigir, ainda mais se o tempo estiver ruim.
Por um instante Cristy ficou sem fala. Ento, ainda tentou evitar o pior.
- Tenha d, me! No h a menor necessidade disso! Posso ir de txi! - protestou com veemncia e s o que conseguiu foi um olhar severo de Dominic.
- Ficarei encantado por acompanhar Cristy - ele confirmou, ignorando seus protestos. - De fato, eu ia mesmo convid-la para ir comigo... - E olhou firme para ela,
desafiando-a a contradiz-lo.
"Mentiroso!", Cristy pensou furiosa. Mas no havia jeito de dizer isso a ele, ainda mais com os pais olhando para eles como se...
Engoliu em seco. No era possvel que seus pais estivessem pensando... Mas estavam, sim! A expresso embevecida de Tom e Sarah... Estavam considerando os dois como
um casal... Os dentes de Cristy pressionavam o lbio inferior, enquanto ela se controlava para no desatar num riso histrico.
Mais tarde, quando estivesse sozinha com a me, diria a ela que essa histria no daria em nada e por que. Guardava na ponta da lngua um comentrio cido que gostaria
de fazer: o que ele diria a Amanda? Mas Cristy no quis fazer uma cena na frente dos pais. E, depois, Dominic a levaria ao baile, mas ela no tinha a menor dvida
sobre quem se penduraria nele durante toda a festa...
Mais tarde, quase na hora do ch, Sarah pediu, ansiosa,  filha:
- Coloque o vestido, Cristy! Estou louca para v-lo. Dominic tinha ido embora h muito tempo. Ambas estavam sozinhas em casa, por isso ela at gostou de provar o
vestido para a me apreci-lo e dar sua opinio sempre to sincera.
O olhar admirado de sua me, ao v-la vestida, provocou em Cristy uma excitante sensao de prazer.
- Gosta!
- Oh, Cristy, voc est... maravilhosa!
- Sabe, o traje tambm tem uma mscara! - Ela colocou no rosto o belo adorno bordado de prolas.
- ... lindo!
Cristy contou-lhe, ento, como conseguira arranjar aquele'vestido to fabuloso.
- Que idia genial! Meryl est feliz com o beb, querida?
Pela primeira vez conseguiu conversar com a me sobre David e Meryl sem constrangimento, agora que sabia que ele no estava mais interessado em torn-la sua amante.
- ...  o preo que se tem que pagar, quando se casa com esse tipo de homem... Por mais inteligentes que sejam, comportam-se como crianas: sempre se interessam
pelo que  proibido, para larg-lo, em um canto qualquer, depois que j o conseguiram...
Cristy riu das palavras sbias e cruis da me.
- Graas a Deus, seu pai e eu nunca tivemos essa espcie de problema. Ele  como Dominic. Por sinal, acho Dominic um homem muito atraente. Tem um grande magnetismo
e  forte, sedutor, alm de bastante amadurecido para evitar esse tipo de armadilha. No precisa se auto-afirmar. Creio que ele, uma vez apaixonado, ser completa
e totalmente fiel  mulher amada.
Bem, chegara a hora de Cristy dizer  me que no devia alimentar esse tipo de sonho em relao a ela e Dominic. Respirando fundo, falou suavemente:
- Acho que Amanda ser uma mulher de muita sorte, ento. No silncio que se seguiu, Cristy no foi capaz de encarar a me, que consolou-a, compreensiva:
- Oh, meu bem... eu sinto muito. Voc tem certeza?
- Hum, num - murmurou apenas, com um sorriso triste e com um gesto de cabea.
- Eu sei o quanto voc o ama - Sarah falou baixinho. - E pensei que, isto ... eu e seu pai... - mordeu os lbios. - Estou mais triste do que posso dizer com palavras,
meu bem. Eu pensei que, agora... agora que ambos so adultos...
Incapaz de continuar ouvindo aquilo, Cristy ergueu as saias amplas do vestido e correu para seu quarto. Era estpido sentir-se assim, e, mais ainda, atirar-se na
cama, chorando por um homem que estava fora de seu alcance. Mas era exatamente isso que estava fazendo!
S conseguiu se recuperar, quando se lembrou de que a me precisava tomar o lanche. Embora lavasse o rosto com gua fria, seus olhos ainda ficaram um pouco vermelhos
e congestionados, mas a me, diplomaticamente, no tocou mais no assunto e distraiu-a falando sobre outras coisas.
Dois dias depois houve uma reunio do comit. Cristy procurou uma chance de falar com Dominic a ss, logo que o encontro acabou. Os outros j haviam ido embora,
e seu pai a esperava l fora, conversando com o major.
- Dominic, a respeito do baile de mscaras... realmente no h necessidade de voc me acompanhar. Eu preferia...
- O qu? Ser acompanhada por seu amante casado? - sua boca comprimiu-se de uma forma j familiar para Cristy. - Por que no pede a ele, ento? Ou est com medo de
que seu amante no abandone a esposa? Homens assim dificilmente tomam esse tipo de atitude, sabia? O casamento sempre continua!
Tensa e frustrada, Cristy ouviu o pai cham-la.
-  melhor voc ir - Dominic falou, abrindo-lhe  porta do escritrio.
Cristy, furiosa, no sabia se ia, ou se ficava para discutir com ele, dizendo-lhe umas boas verdades!
Nisso o telefone tocou. Percebendo a indeciso dela, Dominic atendeu, um sorriso caloroso abrindo-se em seu rosto.
- Amanda... Claro que senti saudades suas...
Cristy no soube bem como conseguira chegar ao carro do pai. Mas tremia violentamente, com uma mistura de inveja, desespero e porque no dizer... cimes!
Perto do fim de semana, Cristy recebeu um telefonema do major, convocando-a para discutir os ltimos detalhes do baile. Ela foi encontr-lo em sua residncia, uma
casa do tempo da rainha Anne, situada num pequeno vale, entre campos e colinas. Tinha pertencido ao Estado, mas o pai do major a comprara logo depois da Primeira
Guerra Mundial.
O velho militar morava sozinho na atraente manso de tijolinhos vermelhos, conservada por uma faxineira contratada na cidade e por seu ordenana, que se retirara
do Exrcito na mesma poca que ele. Cristy s estivera l uma ou duas vezes, mas ouvira muitos comentrios de seus pais sobre a casa, pois eles costumavam jantar
e jogar bridge com o major. Portanto, j esperava por uma limpeza e decorao quase espartanas, quando o ordenana abriu-lhe a porta.
H muitos anos, quando o major abandonara a carreira militar, sua atitude altiva, quase arrogante, provocara comentrios desagradveis na cidade, mas agora as pessoas
j estavam acostumadas com ele e at o admiravam. Uma espcie de divertimento respeitoso seria, talvez, a forma mais apropriada para descrever o modo como o povo
da cidade encarava os hbitos militares do major, na sua maneira prpria de dirigir a casa e a fazenda. Pensando nisso e achando graa, Cristy quase pensou que ele
lhe pediria para bater continncia antes de entrarem na biblioteca.
Um retrato a leo do pai do major adornava a parede da lareira e Cristy pde observar as semelhanas entre os dois, enquanto se sentava. O major a viu admirando
o quadro e sorriu.
- Meu pai era um homem fino - afirmou, orgulhoso, mas seu sorriso transformou-se numa careta amarga, ao acrescentar: - Ainda que houvesse quem o considerasse de
um nvel inferior...
Era um comentrio bastante estranho para fazer a Cristy, pois mal a conhecia. Por isso ela ficou um tanto confusa. Tanto quanto sabia, todo mundo na cidade tinha
grande considerao pelo major. Ele sempre fora reconhecido por seu profundo senso de justia e um cdigo de honra at considerado antiquado. Cristy duvidava que
houvesse, na comunidade, algum de moral mais correta que a dele.
Contudo, preferiu no insistir no assunto, que parecia doloroso para o major. Guardou possveis hipteses para si mesma. O velho militar tinha em sua mesa uma longa
lista de itens, e pigarreou discretamente, avisando que podiam comear a trabalhar. Cristy achou engraado que ele tivesse colocado todos os pontos em ordem alfabtica.
Que homenzinho organizado!
- Agora, sobre o baile - Ele pigarreou novamente, e, se Cristy no o conhecesse, acharia que estava um tanto embaraado. - No sei o que voc planejou, Cristy...
mas eu espero que haja um tipo de msica que a velha gerao possa danar...
Cristy evitou sorrir, pois no queria que ele se sentisse ofendido, mas achou graa na preocupao "romntica" do severo militar.
- Um grande nmero de convites foi vendido para pessoas com mais de trinta anos, major, e como este  um baile com caractersticas bem romnticas, todos esperam
msica suave, sem dvida. Contratei um pequeno conjunto que tocar belas valsas e, claro, msicas mais lentas prprias para a ocasio.
- So bons profissionais, Cristy? - indagou o major.
- Bem, foram recomendados, pois j tocaram em muitas festas de casamento, mas se o senhor quiser cuidar disso pessoalmente... Ah, eles se ofereceram para tocar de
graa, desde que fosse por uma boa causa...
- No... no... parece perfeito, Cristy. Voc j viu o salo de festas de Manor House?
No. Ainda no o tinha visto e odiaria faz-lo, se, para isso, tivesse tambm que ver Amanda. No tinha a menor idia de quando a pernstica morena voltaria de Londres,
embora s faltasse uma semana para o baile. Por isso, ela j devia estar voltando.
- Bem, Cristy, tomei a liberdade de fazer todos os contatos para que voc pudesse ver o salo ainda hoje. O que acha?
Cristy no conseguiu esconder sua surpresa, pois desde menina sabia que Lady Anthony e o major eram considerados inimigos, e no conseguia imagin-lo comunicando-se
com a velha senhora de boa vontade.
- Est bem, major. Eu posso ir at l...
- timo. Ento, se voc ainda dispe de tempo, eu gostaria de terminar de ver esta lista.
Cristy sentiu-se aliviada quando ela e o major terminaram de combinar tudo e ele a cumprimentou pela eficincia.
Quase uma hora depois, chegaram a Manor House. Cristy ia dirigindo, acompanhando o antigo mas bem-conservado Daimler branco do major. Ela estava familiarizada com
os gramados de Manor House, graas s quermesses e festas de vero da sua adolescncia, mas s uma vez havia entrado na casa.
Com o passar dos anos, a atual manso se transformara muito. Da original fortaleza que era, passara por vrias reformas e apresentava agora uma enorme mistura de
estilos. O interior fora remodelado no sculo XVIII, por um dos nobres da famlia.
No havia nenhum sinal de Lady Anthony, quando eles subiram a impressionante escadaria do salo de baile.
A luz forte do sol de inverno, entrando pelas janelas amplas, revelava, impiedosa, as marcas que o tempo tinha deixado nas paredes e no teto trabalhado em gesso.
O major balanou a cabea tristemente, ao perceber essa deteriorao.
- Eu me lembro de ter danado aqui, quando tinha vinte e um anos, Cristy. Voc precisava ter visto... Vou guardar para sempre o odor das gardnias que decoravam
o salo. Estava iluminado por candelabros... - Perdido no tempo, o velho senhor observava tudo.
Bem mais prtica, j que o passado do salo no a atingia, Cristy reconheceu que uma iluminao suave seria ideal para disfarar a glria decadente do lugar. Nada
poderia apagar sua imponncia e elegante proporo. Sentiu-se triste ao saber que seria impossvel para algum como Lady Anthony arcar com as despesas que um trabalho
de restaurao exigiria.
Casas como aquela consumiam muito dinheiro apenas na manuteno, e as famlias que as construram e viveram seus dias de glria j no tinham recursos para esse
tipo de gasto.
- Ronnie tambm tinha vinte e um anos nessa poca. Ele morreu no incio da guerra - falou o major com um ar sonhador.
- Ronnie?!
- O mari... - E ele se interrompeu, o rosto, j enrugado, tornando-se sombrio. - O marido de Lady Anthony, Ronald Anthony. Eles eram primos. Foi morto em ao no
incio da guerra.
Terminada a visita, Cristy despediu-se do major, certa de que havia aprendido mais sobre a nobreza de Setondale naquele dia do que durante toda a sua vida. Contou
 me sobre o estado do salo de Manor House e das revelaes do major quanto  famlia Anthony.
- Eu me lembro mesmo de algum ter mencionado que ela tinha sido uma "noiva viva". O marido era o nico herdeiro do ttulo, eu acho. Tambm ouvi que o casamento
tinha sido arranjado. O pai dela era um homem muito orgulhoso, e, como no tiveram filhos homens para deixar como herdeiros, decidiu casar a filha com o sobrinho
para preservar a linhagem da famlia.
- Eu me pergunto  se ela o amava... - ponderou Cristy.
- No tenho a menor idia! Mas, diga-me, o que voc pretende fazer em relao ao bufe?
Cristy se permitiu relaxar, por fim, com assuntos mais leves.
- Ah, mame, estou contente com o bufe, pois todo mundo est sendo muito prestativo! As mulheres do vilarejo esto providenciando a comida. Ah, isso me faz lembrar
que a sra. Neilson pediu-me para perguntar-lhe se ela poderia usar sua receita de pudim de framboesa.
- Claro que pode! Envie a ela a receita, Cristy.
- Esto providenciando tambm as mesas e cadeiras que sero colocadas nas salas vizinhas ao salo. Ah, e o major doou salmo!
O major tinha um pequeno rio piscoso na Esccia e Sarah sorriu, quando a filha lhe falou da "doao".
- O freezer dele est cheio de salmo, segundo me contou a sra. Fiddler, mas em geral ele detesta dividi-los com quem quer que seja...
As duas comearam a discutir sobre a decorao e outros detalhes da festa e ficaram entretidas nisso at que Tom chegasse em casa. Cristy estava mais descontrada
agora, e foi tratar do jantar.
O fim de semana trouxe uma nova onda de frio, fazendo a temperatura cair e congelando os campos com uma fina camada de gelo. Na tarde em que Dominic era esperado
para sua habitual consulta a Sarah, os Marsden receberam um telefonema avisando que ele se atrasaria, pois ocorrera um acidente grave na estrada principal, um pouco
antes da entrada para Setondale.
- O dr. Savage foi ao hospital com as ambulncias - a recepcionista informou a Cristy. - Ele deve estar operando no momento, mas eu a manterei informada assim que
souber de algo.
- Que pena! S espero que todo mundo se salve... - sua me orou baixinho.
- No entendo por que Dominic voltou a Setondale... - Cristy tocou no assunto como quem no quer nada, mas, na verdade, sondava a me. - Ele  competente e poderia
trabalhar em qualquer lugar...
- Setondale  a casa dele, Cristy - a me justificou com suavidade. - Tanto o pai como o av de Dominic clinicaram aqui.
- No consigo imaginar Amanda concordando em morar numa cidadezinha pequena como esta - replicou Cristy petulante, mas na verdade sentindo uma grande inveja da afilhada
de Lady Anthony. Talvez, se Amanda no estivesse por perto, ela e Dominic tivessem uma chance...
Mas chance de qu? De se apaixonarem? Sorriu, amarga, para si mesma. Sexualmente talvez fosse capaz de atra-lo, mas, e quanto s emoes? Era isso o que contava
e Dominic no sentia nada por ela... absolutamente nada.
Quando a telefonista chamou, quase  noitinha, para avisar que o mdico s poderia ir ver Sarah no dia seguinte, Cristy achou timo que isso tivesse acontecido,
pois tinha um encontro combinado com a florista para acertar detalhes da decorao. Portanto, no estaria em casa na hora em que ele aparecesse. No queria v-lo.
Ento por que aquela sensao de desapontamento e dor que vinha do fundo de seu ser? Ser que nunca se livraria dessa tortura? Era uma tola por no conseguir deixar
de am-lo, de ador-lo, como se fosse uma adolescente tola e ingnua. Foi essa a resposta amarga que deu para si mesma.


CAPTULO VII

Faltavam dois dias para o baile. Durante a noite cara uma nevasca e Cristy ficou aborrecida quando se levantou e viu o cu ainda bastante carregado e o espesso
manto de neve que cobria toda a paisagem.
- No se preocupe, filha... - a me a consolou, quando Cristy revelou-lhe seu medo de que poucas pessoas comparecessem ao baile por causa do mau tempo. - As pessoas
daqui so corajosas. No vai ser uma nevezinha  toa que vai impedi-las de irem a uma festa to linda!
Embora normalmente fosse uma pessoa paciente, Sarah andava muito inquieta. O mdico que a examinara, substituindo Dominic, disse que essa reao era um sinal de
que ela estava se recuperando bem, mas aconselhava repouso total e pouca excitao, por algum tempo ainda.
- No  justo! - a doente reclamou baixinho. - Estou perdendo o melhor da festa, que  organiz-la.
Cristy reconhecia a razo da me, sempre to ativa, mas no podia deixar de concordar com o pai, que mantinha a convalescente sob estreita vigilncia, para evitar
que se excedesse.
A agitao da me de Cristy provocou sua ida a Newcastle com o pai, em busca de formas para bolo em forma de corao. Sarah deu a idia de usarem esse tipo de formas
para fazerem os doces.
Todas as mulheres da comunidade se puseram a procur-las para que as sobremesas tivessem o mesmo tema da decorao. A idia era bastante original, sem dvida.
Lady Anthony, generosamente, cedeu a imensa cozinha da manso para que os responsveis pela preparao do bufe tivessem bastante espao para cozinhar.
Os tons escolhidos para os enfeites e a decorao eram rosa e prata, sobre um fundo branco. Um presente de Meryl, inesperado, e muito generoso, deu o toque final:
centenas de bales de gs prateados, em forma de corao, haviam chegado pelo correio, vindos de Knightsbridge, onde Meryl os vira numa loja especializada em adornos
para festas. Comprara todo o estoque, avisando Cristy por telefone.
A voz de Meryl soou-lhe to alegre e espontnea, que Cristy se sentiu  vontade para perguntar-lhe como andavam as coisas entre o casal.
- Fantsticas! - Meryl respondeu prontamente. - A notcia de que vai ser pai de novo deixou David nas nuvens! Mas est preocupado,  claro, e me trata como se eu
fosse uma boneca de porcelana, ou um frgil cristal.
- Por acaso voc est reclamando?
- De jeito nenhum! Ah! Falando nisso, deixe-me aproveitar e dizer que, quando o Jnior nascer, gostaramos que voc fosse a madrinha...
- timo! Mais um problema resolvido. Ainda bem... Felizmente parara de nevar um pouco, antes do almoo.
- Devo me encontrar com a florista em Manor House esta tarde - Cristy disse  me, enquanto tomavam juntas, no quarto, a sopa que ela havia acabado de preparar.
- Eu no sei se devo cancelar. O que acha?
- Desde que voc no esteja planejando ir dirigindo, acho que no h problema. Por que no telefona para ela? Se eles confirmarem o compromisso, chame um txi.
Cristy seguiu o conselho da me. A proprietria e gerente da floricultura confirmou que poderia ir at Manor House  tarde e ficou combinado que Tom permaneceria
em casa, tomando conta da convalescente.
A neve recente no atrapalhou a pequena viagem e o txi pde chegar  antiga manso sem problemas. Mas Cristy ficou tensa, no minuto em que viu ali o carro de Dominic,
estacionado e vazio.
Teve de esperar pelo troco do taxista, por isso viu-o sair da casa, o cabelo despenteado pelo vento. Dominic olhou-a sem sorrir, com uma expresso mal-humorada.
Ah, como gostaria de ir at ele e toc-lo... s toc-lo, nada mais. "Voc deve estar brincando, Cristy", falou consigo mesma. Ele nunca poderia saber que o amava.
Mas seria o paraso, se pudesse um dia sentir que ele a amava, tanto quanto ela.
- Voc parece plida! Est se sentindo bem?
Cristy no o viu vir na sua direo, por isso, quando escutou-lhe a voz, virou-se para disfarar a emoo, sentindo-se muito insegura. O medo de revelar-lhe sua
vulnerabilidade fez com que sua resposta soasse dbil:
- Estou bem, obrigada...
- Voc no parece nada bem. Deve ser castigo por amar um homem comprometido com outra... - Dominic atiou-a em tom de zombaria.
Mas ela estava chocada demais para esconder suas emoes e dar uma resposta dura. Seu rosto ficou branco, seus olhos arregalados pela tristeza.
- Cristy, eu... - Ele lhe falava ainda rudemente, o olhar bastante sombrio. Foi spero e cruel ao perguntar: - Ser que vale a pena? Por que voc no desiste? Deixe
a mulher dele...
Cristy quase sorriu de alvio, ao perceber o que Dominic queria dizer. Por um terrvel momento havia pensado que ele sabia... que tinha percebido seus sentimentos
em relao a ele.
No. No queria ficar em desvantagem. Era melhor mant-lo acreditando que estava apaixonada por David...
Um pequeno furgo apareceu no gramado e Cristy esquivou-se de Dominic para receber a florista.
A porta principal da casa se abriu e Amanda apareceu. A morena usava um vestido de seda que realava as pernas bem torneadas e o generoso volume dos seios. Comparando
a elegncia de Amanda com a sua prpria aparncia, vestida num macaco largo e confortvel mas nada charmoso, tudo o que Cristy pde fazer foi disfarar um suspiro
profundo. No foi nenhuma surpresa portanto ver Dominic correr para a outra.
Cristy sabia que Amanda no se contentaria com um romance apenas casual. Queria bem mais que isso. E Dominic, teria conscincia dos planos de Amanda? Ou ser que
a atraente morena estava segura de que seu romance no seria temporrio? , bem poderia ser que Dominic estivesse apaixonado pela afilhada de Lady Anthony.
- Desculpem, estou atrasada...  - Era a florista que se aproximava.
Cristy desviou sua ateno de Dominic e Amanda, que se dirigiram para a casa, enquanto ela atendia  florista.
A porta da casa foi fechada, aps Amanda e Dominic entrarem, e Cristy ficou em dvida: a morena no se dera conta de que ela e a florista tinham ficado ali fora,
ou estava deliberadamente tentando ser rude?
Foi Lady Anthony em pessoa quem lhes mostrou o salo, para surpresa de Cristy. Ela se movia um tanto lentamente, sem dvida por causa da artrite, mas ainda era possvel
ver em seu rosto os traos da moa bonita que tinha sido h anos.
Louise Fischer, a florista, ficou encantada com o espao disponvel e achou o local encantador para ser decorado. Ela e Cristy discutiram por um bom tempo idias
e planos para adornar o salo, incluindo os bales que Meryl havia mandado.
- Sabe,  realmente um desafio fazer um trabalho desse tipo... Que bela sala vocs tm aqui!
Detalhou o tipo de decorao que pretendia usar, enquanto Lady Anthony e Cristy a ouviam, fazendo gestos de aprovao.
- O ltimo baile realizado aqui foi para o aniversrio de vinte e um anos de meu marido... - disse a velha senhora. - Ele foi morto no incio da guerra.
- Sim, eu sei. O major me contou - Cristy acrescentou. Quase que instantaneamente Lady Anthony fechou-se, com uma expresso dura, e falou:
- Meu pai disse a ele que nunca mais poria os ps nesta casa outra vez...
Cristy e Louise trocaram olhares espantados.
- Quer dizer que o major e seu pai tiveram uma briga, Lady Anthony? - Cristy perguntou gentil, mas com medo de ser repudiada em sua tentativa de ajudar.
- De certo modo... Bem, entretanto vocs no vieram aqui para falar do passado, no ?
Percebendo que o assunto era delicado demais para insistir com perguntas, Cristy caminhou devagar para o outro lado da sala, acompanhando a florista. Estavam justamente
discutindo o arranjo de plantas e flores que Louise pretendia colocar em frente ao palco em que ficaria a pequena banda, quando Amanda entrou, com o brao pousado
possessivamente sobre o de Dominic.
- Ah, a est voc, meu bem! - Lady Anthony recebeu-os com efuso. - Estvamos justamente discutindo sobre as flores que adornaro a sala do baile.
Amanda lanou um olhar de pouco-caso  florista, apenas entreabrindo os clios.
- "Mamy" sempre contrata Moses Stevens. Ela disse que no h ningum que se compare a ele em matria de decorao floral...
Cristy, que conhecia a fama do florista londrino, sentiu-se mal com a falta de tato da outra, mas Louise parecia perfeitamente calma e controlada.
- Tem razo, srta. Amanda.  uma firma excelente. Tive de assistir a um de seus cursos, h alguns anos, e tenho certeza de que aprendi muitas coisas com Moses e
seus colaboradores.
Cristy precisou controlar-se para no sorrir, ao ver o modo fino como a florista pusera Amanda em seu lugar. Depois, com seu jeito sereno, sem estrelismos, Louise
seguiu explicando, calmamente, tudo o que tinha planejado.
- Flores frescas so muito caras nessa poca do ano, portanto estava pensando em enfeitar o local com vrios tipos de folhagens e usar apenas um mnimo de flores.
Nas cores rosa e branco,  claro, para harmonizar com o conjunto.
Existiam muitos espelhos pelas paredes do salo e ela explicou como pretendia emoldur-los com guirlandas de flores sempre nos mesmos tons. At mesmo Amanda, embora
ainda relutante, mostrava-se admirada.
J estava escurecendo quando Louise terminou, e Cristy perguntou a Lady Anthony se podia pedir um txi por telefone.
- No h necessidade, Cristy - Dominic interrompeu-a com voz severa. - Eu vou levar voc para casa...
- Oh, mas querido... Eu queria que voc ficasse para jantar!  sua primeira folga na semana... e...
- Sinto muito, Amanda, mas prometi jantar com o major. Ele tem estado muito sozinho, voc sabe...
Dominic pronunciou as palavras olhando para Lady Anthony e uma suspeita inacreditvel comeou a brotar no crebro de Cristy... Seria possvel que o major e Lady
Anthony tivessem se apaixonado no passado? Parecia impossvel, mas... Dizendo a si mesma que sua imaginao andava frtil demais, Cristy tentou recusar a carona
de Dominic, mas no conseguiu.
Soprava um vento gelado do leste quando saram. Cristy se encolheu toda dentro de sua jaqueta acolchoada. No usara mais o casaco de pele de raposa, desde a tarde
em que visitara o imvel da futura clnica, mas hoje bem que gostaria de t-lo trazido! Precisava aprender a pr o orgulho de lado. Que se danassem as falsas suposies
de Dominic!
- Entre, Cristy - ordenou Dominic, seco. E abriu-lhe a porta.
O interior do carro recendia a couro e a colnia masculina, e Cristy pde reconhecer o aroma caracterstico de Dominic.
Sentia-se envergonhada por no controlar seu corpo, que correspondia ao menor estmulo; se no se conhecesse to bem, podia at se achar dominada por uma espcie
de luxria! Como era difcil resistir  tentao de reviver aquele beijo! Como fora bom ter estado entre seus braos...
Dominic sentou-se a seu lado e s depois de alguns minutos, depois de dar partida no carro, dirigiu-lhe a palavra, ainda num tom srio:
- Ainda no agradeci a voc por todo o trabalho que tem tido para organizar o baile.
- No h o que agradecer. Mesmo porque no fiz isso para voc especificamente... - Cristy respondeu, no mesmo tom.
Depois disso, ele no fez mais nenhuma tentativa de manter com ela uma conversa civilizada e Cristy tentou se convencer de que assim era melhor.
Antes de descer do carro, ela fez uma tentativa de dissuadi-lo a acompanh-la, mas, em vez de concordar, Dominic replicou selvagemente:
- Tenha a santa pacincia! O que voc est tentando fazer, Cristy? Quer que todo mundo saiba o quanto me odeia? Sabe muito bem que seus pais vo se preocupar se
voc...
- Oh, est bem! - Ela bateu a porta do carro, numa reao to violenta quanto infantil. Depois seguiu-o at a casa, reclamando, dando vazo a seu temperamento explosivo.
Ah, seus ancestrais celtas...
O pior  que Dominic estava certo,  claro! Seus pais no iriam entender sua insistncia em tomar um txi, quando ele j se oferecera para acompanh-la...
- Venha aqui, Cristy, para eu dar uma olhada em voc assim que estiver pronta! - pediu Sarah  filha.
"Se conseguir ficar pronta!", Cristy refletiu, pessimista. Pudera... A cada momento acontecia alguma coisa e o telefone no parara de tocar durante o dia todo. J
nem estava certa se teria energia suficiente para ir ao baile... No. No era bem isso que a tornava relutante e irritada. Era a tristeza de saber que Dominic estaria
com Amanda, e que seria obrigada a v-los juntos... danando juntos... abraados...
"Pare com isso... para com isso...", dizia a si mesma, torcendo as mos. Por que no parava de se atormentar? Droga!
Como no havia nevado mais, Cristy fora ao centro da cidade para arrumar o cabelo. Mas no tinha muita certeza se gostava dos cachinhos que a cabeleireira lhe havia
feito... A estilista lhe assegurara que o penteado ficara absolutamente fantstico, e que a torrente de cachos ruivos, emoldurando-lhe o rosto, combinaria perfeitamente
com o vestido de estilo shakesperiano.
Aps o banho, Cristy perfumou-se com uma suave loo. Quando espalhou o perfume pelo corpo, perguntou-se por que fazia isso, j que as mulheres em geral o faziam
para seus amantes e ela, decididamente, no tinha nenhum. Parada em frente ao espelho, analisou-se com olhar crtico. O corpo bem feito, as pernas longas e torneadas,
os seios firmes e delicados, e a pele acetinada...
Nesse momento suas fantasias a levaram longe. Pensou no delrio que seria sentir-se amada por Dominic, o corpo atltico envolvendo-a, o hlito morno junto  sua
boca, enlouquecendo-a... Mas era s um delrio...
Lembrou-se daquele ltimo vero, h oito anos atrs. Tinham ido nadar juntos e ela ficara fascinada pela beleza mscula do corpo dele. Em sua mente podia, ainda
agora, recapturar a imagem dos plos cobrindo-lhe o peito forte e estendendo-se at dentro do calo. A constatao da intensa masculinidade do amigo de infncia
e da sua forte atrao acontecera poucos dias antes de Cristy descobrir que se apaixonara por ele!
- Qual  o problema, Cristy? - ele perguntara, estranhando seu mutismo e acariciando-lhe os cabelos molhados.
O cheiro da grama misturado ao odor da pele de Dominic tinham impressionado demais os seus sentidos, e ela parecia entorpecida, o corao batendo alucinadamente,
peia excitao de descobrir, pela primeira vez, a atrao fsica que existia entre um homem e uma mulher.
- Dominic!
No estava certa de ter pronunciado, em voz alta, aquele nome. Lgrimas inundaram-lhe os olhos e ela as enxugou logo, odiando-se por ser to vulnervel.
Resolveu terminar logo de se vestir. Escolheu uma calcinha de renda e evitou olhar-se de novo no espelho ao colocar as meias de seda. Com aquele vestido seria impossvel
usar suti. Colocou o roupo de banho e comeou a maquilagem.
A garota ingnua que havia ido para Londres, muitos anos atrs, j no existia. Em seu lugar nascera uma mulher sofisticada, que sabia vestir-se, maquilar-se, enfim,
comportar-se como uma dama da sociedade.
No andar trreo, o velho carrilho de seu pai comeou a badalar. Mais alguns minutos e Dominic chegaria. Cristy suspirou suavemente e deu uma rpida olhada no espelho.
S faltava colocar o vestido. Abotoou-o mais facilmente do que quando o experimentara em Londres, mas sua me j tinha comentado que ela havia emagrecido.
O vestido fora desenhado para uma pea famosa de Shakespeare e, por isso, todos os detalhes histricos eram exatos. Ainda assim, Cristy se espantou com o tamanho
do decote, que revelava uma boa parte de seus seios! E todas as suas curvas tornavam-se mais provocantes, pois o tecido moldava seu busto, realando a forma arredondada
e exuberante, e afinava-lhe ainda mais a cintura. Ela acabou mordendo o lbio de apreenso, ante a ousadia da poca...
Ao experimentar a mscara e olhar-se no espelho, sentiu-se muito melhor a respeito do decote. Podia parecer bobagem, mas, de alguma forma, a mscara dava-lhe a sensao
de estar mais protegida em relao  aparncia ousada de seu corpo.
Prendeu a respirao, quando entrou no quarto da me, esperando censura, mas nem precisava ter-se preocupado. Sarah no fez o menor comentrio a respeito do decote,
elogiando a beleza do vestido e a harmonia do traje com a silhueta da filha. Quando Cristy perguntou-lhe a opinio sobre o fato de seus seios estarem to expostos,
a me sorriu e disse despreocupada:
- Bem, eu o acho provocante, sim. Mas de um jeito muito sutil. No h nada de grosseiro nem de mau-gosto nesse belo traje.
Ainda assim, Cristy sentiu-se melhor ao cobrir-se com o manto de veludo que alugara junto com a roupa. E preocupou-se em mant-lo bem fechado, ao ouvir o som do
carro de Dominic. Seu pai foi abrir a porta para ele.
- Acho melhor descer, querida - avisou a me. - Dominic quer chegar l mais cedo.
- , eu sei. Ele me disse que as pessoas do comit iriam sentar-se juntas, na mesma mesa.
Iriam, realmente, mas ela no acreditava que ele fosse se juntar ao grupo. Suspeitava que Amanda tinha seus prprios planos para esta noite, e que no pensava em
dividir Dominic com mais ningum.
Do topo da escada olhou para baixo sonhadoramente e o viu conversando com seu pai. Sabia que Dominic no havia percebido ainda sua presena ali e, por isso, aproveitou
para olh-lo sem disfarce, perdidamente apaixonada. Dominic usava um traje de gala, e pareceu-lhe to belo, to completamente  vontade dentro daquela roupa cara,
que Cristy sentiu seu corao de novo magoar-se.
Talvez perceber essa nova imagem dele seria bom para ela. Tornava-a consciente da grande diferena, em termos de experincia, que havia entre ambos. Com certeza
Dominic no vivera como um monge, nos anos que havia passado nos Estados Unidos. Ele no devia ter evitado nenhum tipo de relacionamento, porque no mantivera a
imagem dela gravada na mente, como Cristy havia feito com a dele, durante todos esses anos. Por isso, ela no conseguira amar mais ningum.
Ela o viu olhar o relgio e comeou a descer as escadas.
- Ah, a est voc, filha. No vai dar uma voltinha, Cristy, para a gente ver o vestido? - Tom virou-se para Dominic e continuou a falar antes que ela tivesse tempo
de responder. - Eu ainda me lembro de seu primeiro vestido de baile... E voc, Dominic? Cristy quase no podia esperar para mostr-lo a voc.
Todos riram, mas somente o pai o fazia espontaneamente. No, no iria tirar o manto para mostrar ao pai o vestido, estando Dominic ali perto, observando-a. Ento
balanou a cabea, num gesto negativo, e sua voz soou artificial ao dizer:
-Sinto muito, pai, mas temos que ir agora. No podemos chegar atrasados...
Cristy percebia a forte tenso de Dominic, enquanto ela o acompanhava at o carro. Mas foi s depois de j estarem acomodados e em direo a Manor House, que ele
explodiu:
- Qual o problema? - perguntou rude. - Estava com medo de que seu pai reconhecesse o vestido como um presente comprado por um homem para sua amante? Foi por isso
que no quis mostr-lo a Tom?
Por alguns instantes Cristy ficou abalada demais para falar. Ento era isso o que ele pensava? Lembrou-se do modo como Dominic havia olhado a caixa no trem e abriu
a boca para contradiz-lo, mas deixou as palavras morrerem-lhe na garganta. Dominic que pensasse o que quisesse. Certamente assim seria mais fcil enfrentar sua
condenao e animosidade. Era melhor do que se render ao seu desejo, ainda mais agora que estava bem consciente da prpria fraqueza e vulnerabilidade em relao
a ele...
Ao perceber a reprovao nos olhos acinzentados de Dominic, duvidava que o tivesse visto cheio de desejo por ela, no dia do acidente. Parecia impossvel! Mas ele
a quisera sim, afirmara isso, e ela se afastara, desesperada, pois sabia que era apenas atrao fsica, e no amor.
No foram os primeiros a chegar. Muitos outros carros j estavam estacionados na frente da casa. Ciente da inteno de Dominic de abrir-lhe cavalheirescamente a
porta, Cristy adiantou-se e saiu sozinha, sentindo-se infantil ao deparar com o sorriso sem alegria que ele lhe lanou.
- Voc  esperta! - Dominic falou num tom perigosamente baixo. - Se puser minhas mos em voc, do jeito que estou me sentindo esta noite, talvez no consiga agir
sem violncia. Voc provoca essa reao primitiva em mim, sabia? - acrescentou num tom selvagem, enquanto ela esboava um pequeno gemido de protesto.
- Ento sugiro que v procurar Amanda! - Cristy retrucou-lhe, amarga. - Ela me parece que sabe lidar com homens violentos... Acho at que gosta do tipo!
Sufocada pelo prprio cime, quase tropeou no caminho. Espasmos doloridos maltratavam seu estmago. No estava segura sobre a pessoa de quem tinha mais dio: se
de Dominic, por destruir suas defesas, ou de si prpria, por permitir que ele o fizesse.
- Sua... sua... - Ela o ouviu conter a palavra dura com que a xingaria. Mas no conseguiu livrar-se dos braos que a seguraram como duas garras. - Foi isso que ele
fez a voc? Transformou-a de uma garota doce, inocente, numa...
- Numa... mulher? - Ela jogou-lhe as palavras acintosamente, desviando o rosto, soltando-se com um safano, e correndo para dentro, assim que a porta da frente se
abriu. Ele a seguiu de perto.
Com um amargo senso de humor e satisfao, Cristy percebeu que Amanda abandonava a madrinha e corria para pendurar-se no brao de Dominic.
Cristy sabia qual era a sala destinada s mulheres e foi direto para l, sem se voltar para Amanda e Dominic.
As mulheres de outros membros do comit e mais algumas das amigas de sua me estavam l e Cristy trocou cumprimentos e sorrisos com a maioria, antes de parar num
dos espelhos para colocar a mscara e retirar o manto de veludo.
Atrs de si, ouviu algum dizer:
- Meu bem, este vestido  deslumbrante! Eu a invejo, e embora saiba que j no posso usar um traje como esse... Onde voc o conseguiu?
Virando-se, Cristy reconheceu uma antiga amiga de sua me. Sorrindo, explicou-lhe como o havia alugado.
- Oh,  por isso que  to perfeito!  realmente perfeito! Posso at imaginar a Kate, de Shakespeare, dentro dele, brigando com Petruchio. - E deu uma risada simptica.
- Agora acho melhor eu voltar ao salo e ver se os msicos chegaram. - Cristy desculpou-se.
Kate e Petruchio, de A Megera Domada... No havia imagem mais perfeita para ela e Dominic. Mas ele no a dominaria, ah, no!
No salo, s os abajures das paredes estavam acesos e com luzes t fracas, que, com as cpulas cor-de-rosa, davam um ar suave, quase irreal, ao ambiente. O cho fora
polido e os msicos j estavam a postos no pequeno palco. Um deles levantou a cabea e deu um assobio apreciativo para Cristy, que sorriu agradecida, mas sentiu-se
imediatamente tensa ao perceber a censura expressa nos olhos acinzentados que a seguiam por toda a parte.
Dominic estava ao lado de Amanda, que, muito animada, conversava com a madrinha, sem perceber que seu acompanhante no tirava os olhos da bela figura de Cristy.
Passou-se um longo momento antes que Dominic a fitasse diretamente no rosto. Cristy sentiu-se muito s, como se toda aquela gente a seu redor no existisse, porque
havia um condenao cruel nos olhos do homem amado. Queria gritar que era tudo mentira, e, como uma pessoa debaixo da gua, movia-se lentamente, anestesiada pela
dor ntima. Tentou resumir ao mximo sua conversa com os msicos.
- Cristy, parece que est tudo sob controle, no? As senhoras providenciaram um bufe de primeira! Voc j o viu?
Agradecida pela intromisso do major, deu-lhe o brao e aceitou o seu convite galhofeiro para ambos "inspecionarem o batalho".
- Mas o senhor no devia me reconhecer com esta mscara! - Cristy sorriu-lhe, reprovando-o, mas recebeu uma resposta irretorquvel:
- Eu reconheceria essa linda cabeleira vermelha em qualquer lugar, mocinha!
Todas as mulheres deveriam conservar as mscaras at a meia-noite, quando seus acompanhantes, achando-se seguros de suas identidades, exigiriam que elas as retirassem
ou pagassem uma multa caso se recusassem. Fora uma sugesto de Lady Anthony, e Cristy tinha achado uma idia excelente, bem dentro do clima da festa.
Em menos de uma hora a maioria dos convidados j havia chegado e o salo estava repleto. Cristy, sempre acompanhada pelo major, observava os pares que danavam,
tentando no pensar em Dominic e Amanda com os corpos aproximados pela dana.
No sabia por quanto tempo ainda agentaria as acusaes de Dominic. Nunca havia pensado nele como um homem egosta e cruel. Esse comportamento era novo para ela.
Por isso, imaginava que essa selvageria toda com que ele a tratava se devia ao fato de ter sido recusado como amante, e sup-la envolvida com David, um homem, alm
de tudo, casado.
Refletiu sobre o passado e disse a si mesma que o Dominic que amara jamais se comportaria de forma to cruel. Sim, ele podia ter mudado, mas nada mudara nela, em
relao a seus sentimentos por Dominic. Devia ser masoquista para gostar tanto de um homem que a tratava to mal...
O major convidou-a para danar. Acompanhando o ritmo da msica suave, as amplas saias de seu vestido se moviam graciosamente. Ela sabia que seu traje tinha provocado
grande admirao em todos, mas aquele nico olhar reprovador de Dominic tirara-lhe todo o prazer de us-lo.
O major danava surpreendentemente bem para sua idade, e a cortesia com que a tratava era um blsamo para o seu corao to machucado pelo sarcasmo de Dominic. Ela
percebera que o major no parava de olhar para a mesa de Lady Anthony e, aproveitando-se disso, comentou com ar inocente:
- Lady Anthony parece to s... Por que o senhor no vai at ela e a convida para danar?
- Eu bem que gostaria, mas sei que ela recusaria... - deu uma risada triste. - E no seria esta a primeira vez - um ar sombrio anuviou-lhe o rosto. - Houve um tempo
em que pensei... Ora, mas eu no passava de um tolo. Seu pai queria manter o ttulo na famlia e ela acabou se casando com Ronnie. E ns dois ramos do mesmo regimento,
sabe...
"O major a amou!", Cristy concluiu, com tristeza ante a dor dele. Por um momento conseguira enxergar alm da mscara que o pobre homem tinha usado a vida inteira.
Ao v-lo olhar de novo para a velha senhora, soube que ele ainda a amava.
Quando a msica acabou, estavam bem em frente  mesa de Lady Anthony.
- Voc dana muito bem, querida, e nesse vestido  sem dvida a moa mais linda do salo... - os olhos azuis se tornaram melanclicos.
Agindo por impulso, Cristy disse suavemente:
- O major estava me dizendo que adoraria tir-la para danar, mas tem medo de que a senhora o recuse... - No ousou olhar para seu acompanhante, mas podia sentir
que o havia irritado. S rezava para que no tivesse cometido um terrvel engano.
Para seu alvio, viu Lady Anthony corar e ficar um tanto desconcertada, mas no ofendida com a proposta.
- Oh, bem... bem... Eu quase j no dano, hoje em dia. Sabe como , a artrite...
- Bobagem... - Cristy ouviu o major dizer. - Eu me lembro de quando voc era a melhor danarina da regio... Era to leve que parecia uma pluma!
Era quase inacreditvel, mas Cristy viu o major oferecendo o brao  velha senhora, que gentilmente aceitou. Nesse exato momento, a orquestra comeou uma valsa.
Lady Anthony sorriu para ele, como se o tempo houvesse parado naquela poca em que ambos eram apenas dois jovens enamorados...
Como havia imaginado, Cristy no viu o menor sinal de Dominic e Amanda quando sentou-se  mesa para jantar. Pde v-los, depois, numa outra mesa, sozinhos, e sentiu
cime, como um cido corroendo-a por dentro. No conseguiu comer muito, refugiando-se logo na sala destinada s mulheres, mal terminado o jantar.
Estava plida e suas mos tremiam ao aplicar blush e retocar o resto da maquilagem.
Nem mexeu no cabelo, estudando-se rapidamente, no espelho, antes de recolocar a mscara. Esta mudava-lhe a expresso, dando-lhe uma aparncia diferente, quase etrea.
Atrs dela, seus olhos brilhavam, disfarando sua angstia. A luz plida do ambiente realava a brancura do seu colo, e, embora continuasse achando o decote exagerado,
reconhecia que o de Amanda era bem mais escandaloso.
Devia ter ficado mais tempo do que imaginava no toalete, porque, quando saiu, escutou um dos membros da orquestra anunciando:
- Aproximem-se, damas e cavalheiros! Faltam apenas cinco minutos para a meia-noite! Cavalheiros, lembrem-se: Se sua acompanhante se recusar a tirar a mscara, podero
impor-lhe um castigo...
"Tenho que sair rpido daqui", pensou Cristy, teimosa, tentando controlar a dor que a devorava. Simplesmente no agentaria ficar no salo, vendo Dominic passar
por ela, segurando Amanda pelo brao! J se virava para fugir, quando um brao forte a segurou.
- Acho que  hora da nossa dana... - uma voz familiar sussurou-lhe, antes que ela se voltasse e visse prximo a seu rosto os olhos acinzentados de Dominic.
Ele aproveitou de sua surpresa e levou-a para o centro da pista, segurando-a firmemente pelo brao, impedindo-a de fugir.
- De que voc est falando, Dominic? - Cristy protestou, quando ele parou e aproximou-se, tomando-a nos braos. - No combinamos nada a respeito de danar juntos.
- No mesmo? Pensei que isto estava implcito pelo simples fato de acompanh-la ao baile... Olhe em volta: duvido que haja alguma mulher danando agora com algum
que no seja seu acompanhante.
O que ele dissera fazia sentido, mas no impediu Cristy de se sentir atordoada.
Teimosa como era, ainda protestava entre os braos que a enlaavam possessivamente.
- Voc deveria estar danando com Amanda, no comigo!
Ele a estreitou mais junto a si, os seios roando suavemente o palet de seu casaco, fazendo-a quase perder o flego.
Por todo o salo, casais danavam numa proximidade bastante sensual. Dominic encostou o rosto no dela e Cristy pde sentir-lhe a pele e o suave odor da colnia masculina
entorpecendo-lhe os sentidos. Sentiu-se relaxar, e ele a apertou com mais intimidade.
- Ns sempre danamos bem juntinhos, Cristy - ele murmurou. - Voc se lembra de quando eu a ensinei a danar?
- Dancei com muitos homens depois disso, Dominic... - O medo de que ele descobrisse como estava frgil fazia-a dizer coisas para feri-lo.
A presso violenta dos dedos fortes machucou seu pulso, e se perguntou por que no conseguia deixar de provoc-lo. Por que no podia simplesmente aceitar o tipo
de relao que ele lhe oferecia, sem exigir demais?
As saias do seu vestido a impediam de encostar-se totalmente nele, mas, mesmo assim, reconhecia, instintivamente, o quanto Dominic a desejava. Por outro lado, da
sua parte, o desejo a fazia sentir os seios intumescidos e o rosto ardendo. Ainda bem que estava de mscara, pois seus olhos se encheram de lgrimas quando a msica
acabou, Dominic fez meno de tirar-lhe a mscara que a protegia. Cristy impediu-o, segurando-lhe a mo, pois no queria que ele lesse em seus olhos a fraqueza que
estava sentindo.
Tarde demais, ela se deu conta de seu erro. Sardonicamente, ele murmurou, bem prximo ao seu ouvido:
- No? As pessoas esto nos observando, Cristy, portanto, terei que dar-lhe um castigo...
Perdida em sua prpria dor, no percebera que o gesto de Dominic, ao tirar-lhe a mscara, era normal, de acordo com o combinado, e agora, com todos os presentes
observando-os, era impossvel tentar explicar que tudo no passara de um engano. At mesmo o apresentador, que os tinha visto entre os convidados, riu e falou bem
alto:
- Bem, parece que temos uma relutante senhorita aqui. Diga-me, senhor, o que pretende exigir como castigo?
Dominic parecia totalmente  vontade no meio do salo, e, sem dar ateno aos presentes, virou-se para Cristy, que permanecia muda, sentindo o corao quase parar.
Perguntou-lhe lacnico.
- O que voc acha? - Ento aproximou-se dela, segurando-a nos braos, e beijou-a na frente de todo mundo, para deleite dos convidados.
Cristy nunca havia passado tanta vergonha em toda a sua vida, mas tinha que reconhecer que adorara aquele beijo. Para completar, a orquestra recomeou o baile tocando
uma msica bastante romntica e sensual, o que tornava tudo pior.
Amanda foi a primeira a chegar, quando eles se afastaram da pista. Seu olhar furioso, dirigido para Cristy, era puro veneno, mas ela nada comentou; apenas enlaou
o brao de Dominic e o levou para bem longe.
Cristy desculpou-se, dizendo ter prometido ajudar as mulheres depois do jantar, embora estivesse mesmo fugindo das possveis brincadeiras que iria ouvir se ficasse
no salo. Mas sua sensibilidade era tal que percebeu, antes de sair rpido da sala, que dois olhos acinzentados a seguiam maliciosos, provocativos, demonstrando
que reconheciam o que se passava dentro dela...
Depois de se afastar da confuso, a lembrana da cena embaraosa e dos comentrios que escutara a fazia tremer de raiva. Se pudesse, "matava" Dominic.
- Oh! Foi quase como se eu estivesse revendo aquela linda cena de E Vento Levou - uma senhora comentava embevecida. Cristy no tinha dvidas de que o incidente ainda
seria lembrado por muito tempo... E imaginava quando as pessoas da comunidade comeariam a se recordar de sua paixo de adolescente por Dominic. Se  que algum dia
haviam esquecido...
Estava carregando alguns pratos para o carro de uma das mulheres, quando percebeu como tinha esfriado. O cu se apresentava brilhante e sem nuvens, o ar to limpo
e gelado, que quase fazia doer o peito.
- Teremos mais neve, guarde minhas palavras... Posso senti-lo no ar - algum comentou.
Ela concordou plenamente com a previso e entrou correndo na casa.
As pessoas j comeavam a ir embora, e no havia sinal de Dominic, embora Cristy soubesse que j era muito tarde para chamar um txi. Precisaria procur-lo, apesar
de tudo.
Voltou relutante ao salo, surpresa ao ver Lady Anthony e o major numa animada conversa, O major sorriu para ela, ao v-la passar:
- Excelente festa, minha querida!
- , Cristy. Senti-me quase como se voltasse  minha juventude... - Lady Anthony concordou, suspirando suavemente.
Os outros membros do comit j se despediam e, por duas vezes, Cristy olhou em volta, mas nada de Dominic! Onde se metera ele, afinal?
Medo e algo mais do que isso apertavam seu corao. Talvez ela devesse chamar um txi, afinal, ou pedir carona a um conhecido.
"O pior  que no h sinal de Amanda tambm", pensou, enciumada. Estava realmente achando que teria de ir para casa sozinha, quando Dominic, finalmente, apareceu
no salo.
Amanda no estava com ele, mas Cristy podia ver a mancha de batom, ainda que pequena, nos lbios masculinos. S podia ser do batom de Amanda,  claro! O seu desespero
era to grande, que no foi capaz de desviar os olhos dele.
-  hora de irmos, Cristy.
- Vou pegar meu manto de veludo e encontro voc na porta principal.
Ela saiu como um autmato e encontrou Amanda no caminho com um olhar de triunfo no rosto. O batom da terrvel morena era da mesma cor do que vira nos lbios de Dominic,
mas no era apenas isso o que a incomodava. Sabia que Amanda queria mostrar-lhe que Dominic era propriedade sua. "Muito bem, que fiquem juntos", pensou amarga. "Afinal,
ambos se merecem."


CAPTULO VIII

Dominic dirigia com cuidado, mantendo a mesma expresso irnica no rosto. Ele e Cristy estavam mudos, desde que deixaram a manso. Como sua casa estava prxima,
Cristy suspirou aliviada, pois logo poderia relaxar e tentar esquecer toda a loucura que tinha sido aquela noite. De repente, levou um susto. Que diabos Dominic
estava pretendendo?
- Dominic, o que est fazendo? Pare! Por que est passando direto em vez de me deixar em casa? - Cristy protestou furiosa, sentada tensa no banco do carro.
- Seus pais no esto esperando por voc acordados. Pensei que talvez gostasse de um ltimo drinque.
Ficou quase fora de si por Dominic ter mudado os planos, levando-a para sua casa, coisa que jamais pensaria que ele iria fazer.
Imaginava que, aps deix-la, ele voltaria para Manor House e aos braos de Amanda.
- No seja ridculo! No quero outro drinque! - Cristy gritou taxativa. - E no quero qualquer outra coisa que venha de voc!
- No foi bem essa a impresso que tive hoje no baile... Contudo, no trouxe voc  minha casa para fazermos amor, se  o que est imaginando, Cristy - ele comentou,
zangado.
- No pensei que o faria! - retrucou ela imediatamente. - Afinal, para isso voc tem Amanda, no ?
Houve um silncio tenso entre eles at que chegaram ao vicariato. Dominic deixou o carro e abriu a porta para Cristy descer.
- Vamos entrar, seno acabaremos congelados.
Cristy quis recusar, mas a determinao implacvel que viu nos olhos dele silenciou todos os seus protestos.
O vento gelado parecia penetr-la como uma faca e Cristy tremia muito ao entrar no grande vestbulo. O local estava frio e escuro, como seus pensamentos.
Dominic explicou-lhe:
- Pretendo colocar aquecimento central, na primavera. Vamos passar para a biblioteca. L  bem mais quente.
Cristy obedeceu, mas permaneceu de p, num canto, junto s cortinas, enquanto ele alimentava a lareira. Logo as chamas cresceram e a fumaa comeou a sair pela chamin,
e por todo o ambiente espalhou-se um delicioso cheiro de lenha quente.
Dominic no se preocupou em acender as luzes, e as chamas bruxuleantes do fogo formavam estranhas manchas de luz e sombra por entre as estantes de livros. As cortinas
de veludo impediam que se visse a noite l fora e Cristy acariciou o tecido de uma delas, perdida em seus prprios pensamentos.
-  uma casa bem grande para um homem sozinho... Corou violentamente ao perceber que pensara alto. Dominic colocou outra acha de lenha no fogo e limpou as mos,
antes de se levantar.
- Serve aos meus propsitos... Tenho bastante privacidade aqui, e precisava encontrar um lugar para viver, com uma certa urgncia. Se no fosse esta casa, embora
grande, teria que me contentar com um apartamento vitoriano de Setondale.
"Ento ele no comprou a casa planejando se casar e formar uma famlia", pensou Cristy.
- Amanda acha que esta casa tem potencial para o futuro - Ele jogou-lhe as palavras casualmente, enquanto ia at o bar, pegar uma garrafa e dois clices. Mas parecia
certo de que o que havia dito surtiria algum efeito.
Cristy observou-o encher os copos com um lquido vermelho rubi, j descontrolada pelo cime que a devorava mais rapidamente que o fogo ao consumir a lenha da lareira.
Uma pontada fina de dor atravessava seu corao. Com a voz rouca e estranha, murmurou, amarga:
- , talvez Amanda pense assim agora. Mas me surpreenderia muito se ela concordasse em viver aqui, Dominic. Tenho certeza de que ela quer, de qualquer jeito, ver
voc clinicando numa importante rua de Londres...
Paralisada, Cristy viu Dominic ficar tenso e depositar o copo numa mesa. Reflexos de luz espalhavam-se pela biblioteca, enfeitando-a com vrios matizes de cores.
Ela sabia que o que acabara de falar era grave, mas estava tensa demais para dominar-se.
No havia a menor gentileza no modo como Dominic lhe sorria. Apavorada, viu um brilho quase demonaco nos olhos acinzentados. Oh, Deus, onde estaria aquele Dominic
amigo e gentil que conhecera?
- Bem... - ele disse, perigosamente calmo. - Ser que no existe uma pontada de cimes? Ser que, por algum motivo, voc no estaria com cimes de... Amanda?
Plida por ter cado em sua prpria armadilha, Cristy protestou, agora furiosa:
- Enciumada com o qu, por causa de quem? Por que ela foi para a cama com voc? Se bem me lembro, j tive essa oportunidade e recusei, recorda-se?
Ele atravessou a sala em poucos passos e agarrou-a, louco de raiva:
- Voc realmente no sabe quando parar, no ? - E respirou fundo, tentando controlar-se.
Cristy comeou a se debater. Medo e desejo se misturavam em sua mente, mas seus esforos por soltar-se s pareciam deix-lo ainda mais nervoso, avivando as chamas
de paixo em seu olhar.
- Pare, Cristy! - Ele a sacudiu como se fosse uma boneca de pano, e no desespero de sua amargura, Cristy soltou um brao e levantou a mo para bater-lhe no rosto.
Ele se desviou do golpe bem a tempo, e ela o ouviu praguejar. Paixo e fria misturadas tornavam-lhe os olhos agora quase negros.
Cristy sentiu que era tarde demais para pedir-lhe desculpas. E o tempo pareceu parar, com o silncio pesado que tomou conta da sala. De repente, Dominic avanou
os lbios em direo  sua boca. Cristy podia ouvir o crepitar do fogo, e sentir as batidas de seu prprio corao... Um gemido brotou de sua garganta, quando sentiu
a presso selvagem dos lbios dele contra os seus.
No era um beijo fruto de sensualidade ou seduo, mas de raiva e violncia. Dominic a estava punindo, machucando-a, torturando-a. Apesar disso, Cristy pde sentir
a onda de paixo que brotava dentro de si, como se seu corpo estivesse faminto por ele, pelo seu toque... Instintivamente correspondeu a ele...  sua selvageria,
de forma irracional. Entreabriu os lbios e, quando sentiu-lhe a lngua invadir possessivamente sua boca, soube que no lutaria mais; estava entregue a esse ardor.
Seu sangue se transformara em lava fervente e seus movimentos tornaram-se lentos, como se estivesse entorpecida de paixo.
Abraada a Dominic, podia sentir-lhe as batidas rpidas do corao. Sem saber como, havia enlaado o pescoo do homem amado, segurando-o prximo a si. A lngua de
Dominic tocava seus lbios, roando-os, acompanhando-lhe as curvas. Cristy percebeu que ele tambm estremecia. Com a voz rouca, num tom magoado, ele murmurou:
- Deus, Cristy... O que  isso que voc faz comigo?
Beijou-a novamente, possessivo ainda, mas gentil dessa vez, como se desculpando, acariciando-a, curando suas feridas. Cristy, agora, poderia desvencilhar-se dele
com facilidade, mas no o fez, entregando-se ao prazer de estar nos braos do homem amado e  doura dos lbios dele.
- Cristy...
Ela tremeu ao perceber o desejo na voz masculina que pronunciava seu nome com tanto ardor. Dominic segurava-a com mos acariciantes, ternas, e ela sentiu o desejo
por ele manifestar-se em seus seios sensveis e intumescidos.
A raiva de ambos havia desaparecido, deixando em seu lugar um desejo ainda mais poderoso.
A brutalidade havia cedido lugar s carcias: sem precisar dizer nada, ele apenas a estreitava, amoldando o corpo feminino ao seu. Cristy fitou-o,  luz do fogo,
entregando-se completamente, querendo-o demais para continuar lutando contra suas dvidas e incertezas. Queria am-lo, agora, sem pensar no que viria depois.
- Cristy, voc no tem idia do que faz comigo. Eu te quero h muito, muito tempo...
As palavras, murmuradas entre beijos, a incendiaram. A cabeleira ruiva inclinou-se para trs, oferecendo-lhe a curva suave do colo, para que a explorasse com os
lbios ardentes. Espasmos de prazer a percorriam e seu corpo correspondia to instintivamente ao dele, que Dominic no conseguiu controlar.
- Deixe-me fazer amor com voc, Cristy! Deixe-me mostrar-lhe o quanto a quero... - Suas mos procuraram desabotoar-lhe o vestido, e o corpo ficou tenso ao v-la
afastar-se.
Cristy no pde evitar de corar ao encar-lo. A paixo o deixara afogueado, os olhos ardendo, como se estivesse com febre.
- Deixe-me tir-lo... - ela falou suavemente. - Os colchetes...
Deu alguns passos at um canto iluminado pelas chamas e, de repente, viu a expresso de angstia voltar aos olhos de Dominic. Medo e a lembrana da antiga rejeio
a deixaram imvel, seus lbios tremendo ao perguntar:
- O que h, Dominic? O que est errado?
-  essa droga de vestido...
Ela o fitou, sem compreend-lo, uma pontada de mgoa a invadi-la de novo.
- O que h de errado com ele?
- "Ele" o comprou para voc... - Dominic declarou rude. -  isso que h de errado... - Andou at ela e, com uma expresso vaga, puxou o vestido violentamente, rasgando
a blusa e o corpete.
Chocada demais para impedi-lo. Cristy s o fitava, sem entender por que ele estragara o vestido.
- Dominic!
- Tire-o, Cristy, pelo amor de Deus! - ele ordenou rouco. - No agento ver voc com ele... No agento saber que... - Dominic gemeu, terminando de arrancar-lhe
o vestido do corpo, at que se tornasse um amontoado sem forma no cho.
Cristy no se moveu. A luz das chamas desvendava suavemente o contorno de seu corpo, os seios jovens... O fato de saber que ele a fitava, fez com que seus mamilos
enrijecessem.
- Cristy... Voc  linda! Muito mais do que eu poderia imaginar... - Dominic levantou-a no colo, levando-a para longe dos restos do vestido. - E pensar que eu rejeitei
voc uma vez... - Fechou os olhos e Cristy pde senti-lo respirar profundamente.
Aquele momento de vulnerabilidade de Dominic tirou-a do torpor em que se encontrava.
- Voc ainda me odeia por aquilo, Cristy? - Ele a colocou no cho, os dedos tremendo ao acariciar-lhe a pele sedosa do pescoo, ao segurar-lhe o rosto para que o
encarasse.
Odi-lo? Ela fitou os brilhantes olhos acinzentados e molhou os lbios com a ponta da lngua. Dominic seguiu esse movimento sensual e no resistiu: envolveu-a com
seus braos. Um calor invadiu-a ao sentir-se abraada, ao perceber o desejo no corpo masculino.
As mos de Dominic deslizaram para seus quadris, acariciando-os e aproximando-a dele, enquanto procurava sua boca, beijando-a cada vez com maior intensidade. Cristy
no tinha a menor inteno de parar, ou de par-lo: seu corpo se rendera ao toque masculino, os seios sensveis roando o peito largo.
Ele a soltou por um instante, para livrar-se da jaqueta. Sob o tecido fino da camisa, Cristy pde perceber os msculos fortes e a sombra escura dos plos, e quis
desaboto-la. Perdida em seus devaneios, de repente se deu conta de quo tenso ele estava, admirando seu corpo, enquanto ela lhe desabotoava a camisa.
- Meu Deus! Voc no pode imaginar por quanto tempo tenho sonhado com isso...
Dominic tocou-a com suavidade, com os dedos subindo para os mamilos, deixando-a tonta de prazer, sentindo a paixo evoluir em ondas, sob as carcias.
- Voc gosta disso?
A voz dele soava estranha, rouca, grave pelo desejo, e ela se excitou ainda mais ao ouvi-lo falar assim.
- Por Deus, eu quase fiquei louco de vontade de fazer isso anos atrs... sabia, Cristy?
Cristy apenas estremeceu, em resposta, e ele a carregou at o sof, apertando-a nos braos.
Na suave penumbra, entre reflexos de luz e sombra, Cristy ergueu a mo timidamente para acarici-lo. Quando ele segurou sua mo e acariciou-a com a lngua, novas
ondas de prazer fizeram estremecer o seu corpo.
- Cristy, eu a quero demais... Toque-me...
Ela tirou-lhe a camisa e encostou-se no peito forte, cuja pele parecia queimar como fogo. Ambos tremiam, trocando carcias que os envolviam num prazer mtuo.
Dominic gemeu, e Cristy, instintivamente, percebeu que poderia dar-lhe mais prazer. Com beijos curtos e muito suaves, percorreu a pele bronzeada do pescoo dele,
s vezes tocando-o com a lngua.
A reao ultrapassou todas as suas fantasias. Os dedos longos desmancharam-lhe os cabelos, enquanto ela percorria cada centmetro do corpo amado, as mos apalpando
a rigidez de seu membro sob a cala que ele vestia.
Ela queria v-lo nu, sem a barreira das roupas, mas a timidez a impediu de ir at o fim. Sem a menor experincia em despir homens, tinha medo de que um gesto inbil
quebrasse o encanto que os envolvia. Por isso, deixou apenas que sua mo deslizasse pelo corpo dele, acariciando-lhe tambm os mamilos.
Dominic deitou-se de lado para retirar-lhe a calcinha e mergulhar os dedos no tringulo aveludado, centro mximo de seu prazer.
A excitao que a invadia no era totalmente desconhecida. J o desejara assim antes, em seus sonhos, mas nunca com tanta intensidade. Lgica e razo deixaram de
existir nesse momento. Ela era toda instinto.
- Quero sentir seu corpo no meu... voc inteira. - Dominic sussurrou-lhe levantando-se.
Cristy no olhou para ele, mas ouviu o som metlico do zper e o deslizar das roupas pelas pernas.
Saindo das sombras, Dominic se aproximou, msculo, e ajoelhou-se a seus ps para tirar-lhe as meias. O simples contato daqueles dedos fazia-a vibrar de puro prazer.
Ele terminou de despi-la lentamente, fazendo carcias em suas pernas e ps, numa deliciosa tortura.
O corao pareceu parar, quando se abraaram, ambos nus, e Cristy sentiu o contato ntimo de seus corpos e o calor que passava de um para o outro.
Em seguida, Dominic ajoelhou-se e contemplou-a maravilhado. Cristy, trmula de desejo, ajoelhou-se tambm. As mos fortes acariciaram a curva de seu pescoo e deslizaram
para seu ombro.
- Perfeito... - murmurou suavemente. - Perfeito...
Ento, ainda ajoelhado, ele a tomou nos braos e a beijou, como ela havia sonhado a vida inteira: a boca terna, porm exigente, faminta, encontrando eco nos prprios
anseios de Cristy.
- Eu te quero demais. Voc nem pode imaginar... - E deslizou os lbios pelo pescoo dela, beijando-lhe os ombros delicados.
Com as mos, tocou-lhe os seios e os acariciou lentamente, at que Cristy se sentisse tonta de tanto prazer. Foi ento que ele lhe beijou os seios suavemente, levando-a
a gemer,  merc da paixo. A lngua atrevida tocava-lhe o mamilo, circundando a aurola rosada, mordiscando-a devagarinho, at faz-la abafar um grito de excitao.
De olhos fechados, Cristy afundou as unhas nas costas de Dominic, louco de desejo.
- Eu quase consigo acreditar que ningum a tocou assim antes... A voz dele estava grave, rouca, e excitava-a ainda mais, ouvi-lo
falar. Parecia-lhe impossvel que ele no percebesse o seu amor alm
do mero desejo. Cristy sabia que Dominic no seria apenas o primeiro, seria o nico.
- Voc gosta disso, Cristy? - ele gemeu, louco de desejo ao acariciar-lhe mais voluptuosamente os seios. - E disso, voc gosta? - As palavras quase se perdiam na
alucinada presso de sua boca, sobre os delicados mamilos.
Espasmos de prazer a assaltaram, fazendo-a emitir pequenos gemidos, puxando-o para si, abandonando-se  sua natureza, sequiosa de satisfao.
- Deveria levar voc l para cima - ele murmurou, quando ela se deitou ao seu lado no tapete, em frente ao fogo. - Mas no posso esperar mais para ter voc...
Iluminado pelas chamas da lareira, Dominic se mostrava inflamado de desejo. Com vontade de toc-lo mais intimamente, ela estremeceu, mas sentiu medo.
- Sim, Cristy, venha - ele encorajou-a, pegando sua mo trmula e levando-a ao prprio corpo.
Sob os dedos, Cristy pde sentir a urgncia do desejo dele, e entregou-se sem inibies, deixando-o mostrar-lhe como toc-lo.
- No agento mais, Cristy. Preciso de voc... - As palavras saam difceis, enrouquecidas pela fora da paixo.
Foi bom sentir o peso de Dominic sobre si, com pulsao acelerada, Cristy moveu os quadris, sentindo-o respirar com dificuldade. Ele mergulhou os dedos no tringulo
aveludado para certificar-se de que estava pronta. Cristy no duvidava disso. Ningum jamais a tocara to intimamente, mas ela no tinha mais inibies ou timidez
diante do homem amado.
- Dominic!
Ela gemeu-lhe o nome, sem se dar conta disso, numa entrega total.
- Sim - murmurou ele selvagemente. - Sim...
Dominic se moveu e Cristy sentiu a unio de seus corpos, consciente de sua vontade de dar e receber amor. Mas no pde evitar de se contrair ao ser penetrada.
Dominic percebeu de imediato o que se passava e hesitou, mas Cristy no levantou os quadris e moveu-se, enlaando-o com as pernas, trazendo-o para dentro de si,
carregando-o, com ela, na alucinante viagem do prazer, muito alm de suas fantasias de adolescente, muito alm de qualquer fantasia. Era uma exploso de amor que
os fazia moverem-se num ritmo delirante, que os levou ao clmax, deixando-os exaustos mas satisfeitos.
De muito longe, como num sonho, Cristy ouviu Dominic chamando-a. Lgrimas de felicidade escorriam de seus olhos, quando os abriu para encar-lo.
-  tarde demais para lgrimas, agora! - ouviu-o falar, rude.
Custou a entender o sentido das palavras, pois encontrava-se no mundo dos sonhos, na plenitude do amor.
Ao perceber o tom de voz de Dominic, entretanto, voltou  realidade, vendo que ele havia providenciado algumas almofadas, e a cobrira com sua camisa. Sentiu-lhe
o cheiro da camisa. Gostaria de vesti-la, mas ele j estava de p,  sua frente, abotoando a cala, e com o rosto muito srio.
- Cristy... por que no me disse que era virgem? Ela percebeu a censura em sua voz, e se encolheu, vendo-o comprimir os lbios num gesto que j conhecia: impacincia.
- Que estupidez foi essa... Por que voc desejou um homem que nem...
Cristy sentia como se ele estivesse cravando uma espada em seu corao. Dominic no havia mesmo entendido nada!
- Voc fez o primeiro movimento... - ela lembrou amarga. Sentia-se em desvantagem por estar sentada e quase nua. - D-me as minhas roupas... por favor.
Dominic obedeceu, quase atirando-lhe as peas. A frente do vestido estava rasgada at a cintura. Como ela iria explicar isso  loja?
- Sinto muito por seu vestido.
A voz soava mais indiferente do que arrependida, e a raiva que comeou a invadi-la a fez confessar:
- Voc estava errado, sabe? David no me comprou o vestido. Eu o aluguei.
- Ento  claro que pagarei o conserto.
Cristy no conseguia acreditar que h menos de dez minutos haviam compartilhado da experincia mais linda de um ser humano. Mas, claro, Dominic esperava que ela
fosse experiente, como ele prprio! Isso confirmara o que j pensava: ele a quisera, mas sem nenhum compromisso ou lao. Desesperada, Cristy imaginou o que deveria
esperar de Dominic agora.
A humilhao deu-lhe foras para dizer com amargura e com vontade de feri-lo, como ela estava ferida:
-  preciso dois para se danar um tango. Eu poderia t-lo impedido, mas no o fiz. Voc serviu de compensao pelo fato de perder David...
- Perd-lo?
- Exato. Ele e Meryl foram morar nos Estados Unidos.
- Voc quer dizer que barganhamos com ele sua virgindade, e como ele no quis abandonar a mulher, voc decidiu descarregar sua frustrao fsica comigo ou com qualquer
outro?
Mentir a deixava doente, mas v-lo pensando assim significava, pelo menos, manter o orgulho e a dignidade intactas, portanto concordou, balanando apenas a cabea.
- Ns dois usamos um ao outro, certo? - ela sugeriu, com um sorriso falso. - Suspeito que tenha sido usada tambm como substituta de Amanda...
- Amanda est procurando casamento... um segundo marido. So coisas que no estou disposto a lhe dar.
A voz de Dominic parecia ausente, como se Amanda nada significasse para ele. Entretanto Cristy estava certa de que no era assim. Angustiada, deu-lhe as costas...
- Acho que  melhor eu ir...
- Voc... Eu... - Ele franziu a testa e tentou desculpar-se. - Se eu a machuquei de algum jeito...
Cristy entendeu o que ele queria dizer e corou. Afinal de contas, Dominic era um mdico... Mas sentiu-se humilhada por ele ter transferido toda a beleza do que partilharam
para o frio aspecto profissional. Prendendo as lgrimas, respondeu sucinta:
- Sinto-me bem. S quero ir para casa.
- Est certo. Eu a levo.
Foi um tanto chocante dar-se conta de que, em pouco mais de meia hora, tanta coisa houvesse acontecido. A luz do quarto de seus pais ainda estava acesa, mas no
havia barulho algum. Ainda bem, seria muito difcil arranjar uma desculpa para o vestido rasgado. Tirou-o e guardou-o cuidadosamente, para que ningum o visse.
Sentia o corpo quente. Um calor suave, plcido, que a fez lembrar-se dos momentos de paixo e da vontade que sentia de repeti-los...
S que, no seu caso, no existiriam outros momentos assim. Dominic a usara, mas ela jamais reclamaria. Nada fizera para impedi-lo, fizera? Pelo contrrio, encorajara-o
tanto, at deix-lo louco de desejo...


CAPTULO IX

A vida prosseguia na sua rotina comum. Mas para Cristy, atormentada pela dor e pela paixo desde a noite do baile, parecia que a vida tinha se transformado num fardo
que lhe pesava demais.
Sarah j estava passando grande parte do dia fora da cama, e Cristy tinha srios problemas para evitar Dominic cada vez que ele ia visitar a paciente.
O choque por v-lo chegar  sua casa no dia seguinte ao baile ainda a apavorava. Pensava que Dominic sentisse o mesmo desejo de evit-la que tinha em relao a ele.
Sem lhe dar nenhuma chance de falar, Cristy dissera-lhe que no queria v-lo novamente. Agentaria tudo, menos tornar a v-lo, sabendo que Dominic acabaria descobrindo
como o amava. O que menos queria na vida era a sua piedade por ela. Seria por demais humilhante.
Felizmente a loja de roupas conseguira reparar o estrago no vestido, e, agora, tudo o que Cristy queria era esquecer o que havia acontecido naquela noite.
Durante o dia, cheia de afazeres, era fcil no pensar; mas  noite, sozinha na cama, ela perdia completamente o autocontrole e dormia sonhando com Dominic e o amor
que compartilharam. Acordava sempre banhada em lgrimas e sua me at comentara que ela estava com uma expresso to perdida e emagrecera tanto, que mais parecia
ser a doente da casa.
Sarah, contudo, logo estaria completamente recuperada e Cristy ficaria livre. Havia pensado em ir para Newcastle ou Alnwick em busca de um emprego assim que chegara
a Setondale, mas isso tinha sido antes de saber que Dominic voltara.
Percebia a preocupao dos pais, perturbados pela sbita mudana que ocorrera com ela desde a noite do baile. Mas, nas poucas vezes que a me tentara falar-lhe sobre
Dominic, cortava a conversa na raiz. O modo como tudo acontecera ainda doa demais para que pudesse falar a respeito.
Talvez, se Meryl no estivesse em Los Angeles, fosse capaz de se abrir com a amiga. Cristy recebera uma carta dela, dizendo-lhe que David ainda no conseguira substitu-la
satisfatoriamente. Era tarde demais para lamentar-se e pensar que deveria ter ido com eles.
Fizera sua escolha com a melhor das intenes. Pacincia se tudo dera errado.
O fim do ms trouxe neve e tambm a certeza de que no estava grvida. Sabia que deveria estar aliviada, mas, bem l no fundo, curtia uma sensao de perda e fracasso
por no ter concebido um filho do homem que amava. Era como se tivesse falhado como mulher... Procurava se convencer de que um filho ilegtimo seria a ltima coisa
que deveria querer, mas, mesmo assim, gostaria que tivesse acontecido. Tudo o que lhe sobrava era uma enorme sensao de vazio!
- Dominic perguntou por voc ontem - a me comentou, observando-a.
Cristy permaneceu totalmente indiferente, com o olhar perdido na paisagem atravs da janela. A meteorologia anunciava outra nevasca para aquele dia, mas, at agora,
o cu limpo e o sol forte pareciam desmentir a previso. Fazia um frio terrvel, os caminhos estavam congelados, o vento cortante, e s pela manh as estradas tinham
sido liberadas.
- Cristy, voc no pode me dizer o que h de errado? Ser que eu no posso ajudar? - a me perguntou triste, ao perceber que Cristy no responderia a seu comentrio
sobre Dominic. - Voc no pode continuar assim. Est perdendo peso... e se fechando to dentro de si mesma, que eu e seu pai j no a reconhecemos! E Dominic no
parece muito melhor. Se. vocs brigaram, j no est na hora de fazer as pazes?
- No foi esse tipo de briga... - Cristy respondeu seca, sem se virar. Ouvir o nome de Dominic nos lbios de outra pessoa era o suficiente para que as lgrimas comeassem
a cair. E isso ela no queria. Ningum deveria saber.
- Seu pai me disse que Amanda voltou para Londres.
Ao ouvir isso, a sensao que tomou conta de seu ser, misto de esperana e desespero, mostrou-lhe o quanto ainda estava vulnervel. Tentava convencer a si mesma
que, fosse o que fosse que lhe dissessem a respeito de Amanda, no a interessava. E mesmo que o relacionamento dos dois houvesse acabado, isso no podia significar
absolutamente nada para ela.
Pelo prprio Dominic, Cristy soubera que Amanda estava interessada em casamento, e ele no. Portanto, para ela o fato da rival ter voltado para Londres no influa
em nada. Cristy o amava demais para ter com ele s um caso, e Dominic no estava disposto a envolvimentos permanentes...
- Falando sobre Amanda, Cristy, ouvi uma "fofoca" fascinante a respeito da famlia Anthony! Voc nem pode imaginar! Lady Anthony e o major vo se casar! Parece que
ele esteve apaixonado por ela h muitos anos, quando bem jovens, e haviam planejado se casar, mas o pai no permitiu. O velho aristocrata insistiu para que a filha
se casasse com o primo, e ela e o major brigaram feio por causa disso. A mulher do pastor foi quem contou toda a histria...
- Vo casar-se, mame? Mas que timo! Bem que eu...
- Vo sim, Cristy! E a cerimnia ser na capela de Manor House. Depois haver um almoo. Acho que  uma das histrias mais romnticas de que j tive notcia... -
falou Sarah com um suspiro profundo. - Acho que o major nunca deixou de am-la...
Sim. Era muito romntico mesmo e Cristy estava feliz por eles, mas ouvir sobre a felicidade dos outros s a fazia lembrar-se da prpria dor.
- Espero que pare de nevar... - Sarah suspirou novamente. - Seu pai e eu pretendemos visitar os Hopkins amanh. No os vemos desde o Natal.
Helen e Bill eram amigos chegados de seus pais e viviam em Alnwick. Haviam passado o Natal e o Ano-novo com a filha em Leeds, e tinham retornado h pouco tempo.
Ao que parecia, Dominic concordara que Sarah fizesse essa pequena viagem.
- Tenho certeza de que Helen ficar encantada se voc for conosco, Cristy.
Cristy balanou a cabea negativamente:
- No, obrigada, mame. No estou me sentindo muito socivel no momento. De fato, agora que voc j se recuperou, vou comear a procurar um emprego. Estou pretendendo
me preparar para voltar a Londres.
- Oh, mas Cristy... Seu pai e eu espervamos que... Bem, tudo bem filha, a vida  sua...
Na manh seguinte, os pais de Cristy saram para Alnwick. Em menos de uma hora o cu tornou-se carregado, cor de chumbo. O vento forte balanava violentamente as
rvores. Observando a nevasca forte que caa em meio ao vento cortante, Cristy estremeceu, rezando para que os pais tivessem chegado sos e salvos.
Mais ou menos meia hora depois o telefone tocou e Cristy ouviu, aliviada, a voz do pai. Avisou-a que tinham decidido pernoitar na casa dos amigos, por causa do mau
tempo.
- Acho muito prudente de sua parte, papai. Est nevando to forte que  quase impossvel enxergar um palmo diante do nariz!
- Aqui tambm est assim, embora a nevasca tenha comeado h pouco tempo nesta regio. Mas como a sinalizao no est muito boa, e a ltima coisa de que sua me
precisa  ficar atolada em meio a uma tempestade de neve, resolvemos no arriscar uma viagem at tudo estar em ordem. Voc ficar bem, Cristy?
- Eu j sou uma garota crescida agora, pai. Morei sozinha durante oito anos em Londres, lembra-se?
Ouviu o pai dar uma sonora risada e sentiu-se melhor por t-lo deixado aliviado. Achava-se culpada, porque sabia que eles viviam se preocupando com ela. No podia
continuar nesse estado. Precisava fazer um esforo para reagir.
Depois de cinco minutos de conversa com a me, conseguiu convenc-la de que no morreria de fome nem de frio no curto espao de vinte e quatro horas em que eles
estariam longe. Quando desligou, percebeu que sua me estava bem tranqila.
O dia se arrastava interminvel  sua frente. Era hora do almoo ainda, embora l fora parecesse noite. Ficara impossvel distinguir onde terminava o cu e comeava
a terra.
Cristy no havia exagerado quando dissera ao pai que quase no dava para enxergar nada. Quando tentou ir at o galpo de madeira pegar lenha para se garantir, caso
a energia do aquecedor central acabasse, o vento soprava to forte que lhe arrancou o suprimento de lenha das mos, lanando-a contra a parede com violncia.
A neve que se depositara na porta de trs da casa atingia quase um palmo de altura e Cristy precisou entrar e vestir um grosso casaco, galochas e um par de luvas
de l para enfrentar o frio. Precisava muito daquela madeira, por isso teve de fazer muitas viagens at acumular lenha bastante para a noite toda. Seu pai, muito
experiente, pois sempre vivera em Setondale, ensinara-a a deixar a lareira da sala acesa e mant-la assim, dormindo junto a ela, se fosse preciso, no caso do aquecimento
central falhar.
Estava terminando de sacudir os ltimos vestgios de neve de seu casaco quando ouviu um barulho de motor. Procurou reconhecer o carro que se aproximava. Da tempestade
de neve, surgiu um Land Rover. Estacionou em frente ao porto, o motor ligado, enquanto seu ocupante se dirigia  porta de entrada.
Mesmo com o pesado casaco, Cristy reconheceu Dominic. Seu cabelo estava revolto, grisalho pela neve que nele se depositara. O que estaria fazendo ali?
Dominic nada falou at que estivesse dentro da casa e, quando o fez, foi rpido e conciso:
- Cristy, preciso de sua ajuda. Ela o fitou silenciosa e fria.
- Olhe, eu no tenho muito tempo! Uma das minhas pacientes est em trabalho de parto prematuro. Vive numa das fazendas, nas colinas, e no h a menor condio de
transport-la ao hospital a tempo. Felizmente havia esse Land Rover para servio de urgncia na garagem, em Setondale. Como se trata de uma emergncia, o hospital
me emprestou.
- Mas eu no posso ajudar! - Cristy protestou. - No tenho o menor preparo para isso!
- Eu no quero voc para esse tipo de ajuda! - Ele franziu o cenho por causa da teimosia de Cristy. - Quero apenas que voc tome conta das outras crianas. O marido
dela est fora, nas montanhas, com o rebanho, e a mulher ficou com os gmeos e uma outra criana que est comeando a andar, todos com menos de cinco anos. Eu ia
pedir  sua me...
- Minha me e meu pai no esto em casa. Foram a Alnwick ver uns amigos.
Cristy bem que desejava protestar contra Dominic: ele no tinha o direito de exigir nada dela. Mas desistiu de faz-lo ao pensar na pobre mulher grvida e sozinha,
no meio das montanhas, sem a proteo de um aparato mdico mais moderno e com trs crianas pequenas para piorar um pouco mais a confuso!
Sem lembrar muito bem de como aconteceu, de repente viu-se sentada ao lado de Dominic, no enorme jipe que comeou a mover-se lentamente no meio da tempestade.
Foi uma viagem terrvel at a fazenda, que ficava apenas a seis quilmetros da casa de seus pais, mas situava-se bem no alto da colina e, por isso mesmo, era muito
mais exposta  ferocidade do vento.
Trs vezes o Land Rover atolou e, por trs vezes, ela e Dominic tiveram de descer e escavar a neve com a p para livr-lo. Cada vez que isso acontecia ela congelava
de frio, e, furiosa, imaginava por que diabos tinha se deixado convencer.
Pareceu a Cristy que haviam levado horas at chegar ao local, e, na ltima vez em que pararam, no pde evitar de perguntar a Dominic:
- Ela estar bem at chegarmos?... Quer dizer...
- A sra. Thompson  uma mulher inteligente e sensvel e tem experincia. Telefonou ao hospital no momento em que entrou em trabalho de parto, sabendo, que com a
nevasca, seria impossvel para ns traz-la para a cidade.
- Mas no daria para ajud-la antes da nevasca? - indagou Cristy, aflita.
- O beb s era esperado para daqui a duas ou trs semanas. Nas vezes anteriores as crianas demoraram um pouco mais para nascer e, por isso, ela no estava preparada
para um parto prematuro. Alis, nenhuma mulher em condies normais de gravidez espera que o parto seja prematuro, Cristy.
Embora a voz dele soasse calma, Cristy podia sentir que Dominic estava bastante preocupado e acabou se envolvendo num misto de apreenso e simpatia pela mulher grvida.
- Um helicptero no poderia... - Cristy sugeriu timidamente, mas Dominic fez um gesto negativo com a cabea, antes que ela conseguisse terminar a frase.
- No h lugar para pouso - explicou ele. - A casa fica bem ao lado das montanhas. Olhe! J d para ver as luzes acesas l em cima.
Estreitando os olhos para ver melhor, Cristy s conseguiu enxergar um plido borro amarelo a distncia. Forar a viso tentando enxergar atravs da tempestade deixou-a
com dor de cabea, e Cristy, mesmo sem querer, acabou se preocupando pela tenso e cansao que o homem a seu lado deveria estar sentindo, por dirigir durante todo
o trajeto naquelas condies precrias.
Cristy quase no conseguia acreditar que tinham finalmente conseguido!
Duas pequenas cabecinhas loiras apareceram na porta de trs, assim que Cristy desceu do carro. "Os gmeos, com certeza", pensou ela, seguindo Dominic porta adentro.
A cozinha estava quente, mas a tenso no rosto da mulher, sentada em frente a eles, expressava claramente a urgncia com que teriam de agir.
- Desculpe-me pelo atraso - Dominic falou. - Como voc est se sentindo, Lorna?
Cristy, embora leiga, podia perceber os espasmos de dor que afligiam o corpo ainda jovem da mulher.
A sra. Thompson levou alguns minutos para responder, pois a respirao, com os espasmos, ficava entrecortada.
- Acho que no vai demorar muito... agora... Nem preciso... lhe dizer... como estou aliviada por saber que esto... aqui. - Ela olhou para Cristy, vendo-a pela primeira
vez ao lado de Dominic, e sorriu-lhe francamente,
- Eu trouxe Cristy para cuidar das crianas, Lorna. - Enquanto falava, Dominic media o tempo das contraes.
Cristy no havia tido muitas experincias com crianas pequenas e jamais ajudara a fazer partos. Por isso, estava apavorada.
- Eu tenho tudo arrumado l em cima, doutor.
- Tudo bem, Lorna. Logo em seguida ficarei com voc. - Dirigindo-se a Cristy, perguntou: - Voc segura as pontas aqui? - E deu um sorriso para as trs crianas que
o olhavam assustadas.
- Mame est tendo nosso beb - a maiorzinha falou.
- Est sim, meu bem... Ser que eu devo esquentar gua ou algo parecido? - Cristy perguntou prestativa.
- No... - Dominic sorriu-lhe.
Parecia que fazia tanto tempo, desde a ltima vez que ela o vira sorrir-lhe naturalmente, que sentiu o corao mais leve ao lembrar-se dos antigos dias em que se
contentava apenas com uma amizade inocente e despretensiosa. Viu-o subir e tratou de fazer a sua parte.
Manter as crianas ocupadas no foi uma tarefa muito difcil. Eram crianas bem-comportadas, e o fato de Cristy ser uma estranha para eles os deixava um pouco intimidados.
Mas foi s quando pegou um jogo de quebra-cabeas do armrio que teve a impresso de v-los relaxar um pouco e brincarem  vontade com ela.
A todo momento Cristy olhava para a escada, rezando interiormente pela segurana da sra. Thompson e do beb.
Quando a mulher gritou, os rostinhos dos gmeos empalideceram e um deles foi para o colo de Cristy, que o abraou com ternura. Pequenos demais para entender o que
estava acontecendo, eles podiam apenas sentir que a me sofria e essa sensao causava-lhes temor.
- Mame est chorando...
Cristy observou, com o corao condodo, as lgrimas escorrendo dos rostinhos bonitos, mas Lyn, a mais velha dos trs, intuitivamente ajudou, dizendo:
- Est tudo bem, Christopher...  igual quando Besty teve os cachorrinhos...
"Sem dvida,  um modo especial de ver as coisas", Cristy pensou. "Afinal, como crianas de fazenda, eles esto acostumados at a ajudar em partos..."
O tempo parecia no querer passar... Cristy olhava o relgio e esperava, apreensiva, em silncio. "Quanto tempo demora para um beb nascer?", ela se perguntava,
sentindo-se intil por no poder fazer nada mais. Levantou-se para verificar o aquecedor e colocar mais lenha.
Quando retornou, os gmeos pediram-lhe algo para beber e Lyn a ajudou a encontrar o suco de laranja. Tinha terminado de servi-lo s crianas, quando a mulher gritou
novamente, o som ecoando na cozinha silenciosa.
Cristy prendeu a respirao, abraando os gmeos, e at mesmo Lyn se aproximou dela em busca de apoio.
Do topo da escada, Cristy ouviu a voz de Dominic chamando por ela. Imediatamente subiu para ver o que queria.
- Voc pode vir aqui um minuto, Cristy? - A voz soou calma, embora um tanto formal.
Acalmando as crianas e certificando-se de que a porta estava trancada, ela correu para o andar superior.
O cabelo de Lorna Thompson estava grudado em sua face suada e Cristy sentiu medo ao ouvir os gemidos da mulher.
- O que foi? - perguntou, nervosa, a Dominic, molhando os lbios secos. - Dominic, eu...
- Est tudo bem, Cristy. Tudo que eu quero  que deixe Lorna se apoiar em voc. Pode fazer isso?
A mulher na cama se contorcia e gemia muito e Cristy esqueceu o medo.
- Molhe um leno em gua. fria e v refrescando o rosto dela
- Dominic a instruiu.
Ao sentar na cama, como lhe pedira, Cristy sentiu as unhas de Lorna se enterrando em seus braos e, mesmo sendo ignorante no assunto, percebeu que o nascimento estava
iminente.
Uma poderosa onda de amor e de admirao por Dominic tomou conta de Cristy ao v-lo encorajando e acalmando Lorna. Viu-o totalmente concentrado no seu trabalho,
enquanto enxugava o rosto suado da parturiente.
- S mais um empurro, Lorna! Respire fundo e rapidamente! Voc pode faz-lo! E agora...
Totalmente incapaz de desviar os olhos, maravilhada, Cristy presenciou o momento mgico do nascimento. O beb estava vermelho e envolto em muco, mas nada disso diminua
o sentimento maravilhoso que experimentava. E, se algum lhe perguntasse como era o beb, naquele instante, teria respondido que era lindo!
To absorta ficara que a voz de Dominic parecia vir de muito longe. Ele disse cansado:
- Parabns, Lorna! Voc acaba de ter uma garotinha...
Ao lado da cama, Cristy observou, encantada, Dominic colocar a pequena criaturinha sobre a barriga da me. Havia lgrimas nos olhos de Lorna, quando fitou sua filha.
- Cristy, por que voc no desce e nos traz uma xcara de ch?
- Dominic sugeriu baixinho, levando-a at a porta e empurrando-a delicadamente para o corredor.
Por um momento ela o observou, de novo totalmente concentrado em Lorna e seu beb.
L embaixo as crianas esperavam ansiosas, os olhinhos arregalados. Foi Lyn quem primeiro perguntou:
- Nosso nen j chegou?
- Chegou sim. E  uma linda irmzinha! Mas agora mame precisa descansar. Depois vocs podero subir para ver o bebezinho!
- Voc est chorando... - um dos gmeos falou-lhe, sem compreender.
, ao tocar a prpria face, Cristy deu-se conta de que estava mesmo! Sentiu-se to privilegiada e emocionada pela honra de poder compartilhar de tal acontecimento,
que no conseguira manifestar-se com palavras. Suas lgrimas exprimiam esse sentimento maravilhoso. Sabia que se lembraria desse momento sublime por toda sua vida...
Instintivamente levou a mo a seu prprio ventre, sentindo de novo uma onda de desolao e fracasso. Nunca teria um filho de Dominic,
Eles permaneceram na fazenda at que o marido de Lorna retornasse. A tempestade havia cessado e o vento parecia ter amainado. Jack Thompson agradeceu, com lgrimas
nos olhos, por tudo que tinham feito, mas Cristy quase se sentiu constrangida, porque achava que no tinha feito grande coisa...
As crianas estavam com a me e a nova irmzinha, e Lyn dizia aos irmos que bebs no eram para ser cutucados por dedinhos curiosos.


CAPTULO X

J estava escuro quando Cristy e Dominic partiram da fazenda dos Thompson. O frio aumentara novamente e ela voltara a ficar tensa, preocupada com a jornada de volta.
Levaram quase uma hora para vencer o caminho coberto de neve. Ao entrarem na trilha que levava  casa, Cristy olhou, em vo,  procura da espiral que deveria estar
saindo da chamin.
Sentindo sua apreenso, Dominic a encarou.
- Qual  o problema?
- Acho que o fogo da lareira terminou. Esqueci-me de colocar lenha antes de sair...
- Ele franziu a testa, preocupado.
- Se isso realmente aconteceu, ento a casa vai estar uma verdadeira geladeira. Essas casas de pedra sempre so assim, no inverno.
- Ns temos aquecimento central - Cristy ponderou, quando o Land Rover parou na porta da casa.
Cristy saiu do carro com as chaves nas mos geladas, mas Dominic se antecipou e tomou-as de sua mo, abrindo a porta de trs.
Ao segui-lo, o corao de Cristy parecia encolher-se. Ningum precisava dizer-lhe que o aquecimento central pifara. O ar interno estava gelado o suficiente para
faz-la bater os dentes de frio.
Dominic parou em frente ao aquecedor e olhou para a chama-piloto. No havia nenhuma chama.
-  melhor voc vir comigo... - ele disse a Cristy bruscamente. - Se a deixar aqui vai acabar congelada.
Ela julgou que o tom brusco significava que Dominic no desejava a sua companhia, apenas a suportava, como um favor, por isso no se conteve e respondeu malcriada:
- O que Amanda diria a respeito disso?
Os olhos dele tornaram-se frios. Cristy havia esquecido como ele se tornava um outro homem, bruto e rude, quando a olhava daquela forma.
- O que ela poderia dizer?! - ele perguntou friamente. - Que voc  filha de velhos amigos meus e que eu no poderia deix-la congelando numa casa sem aquecimento,
ainda mais quando minha casa fica logo aqui do lado.
- Talvez o seu aquecimento tambm tenha quebrado... - Cristy replicou teimosa, com raiva da resposta de Dominic. O que ela esperava? Que ele dissesse que no tinha
que dar satisfaes a Amanda?
- Pode ser - ele concordou, cido e indiferente demais para o que Cristy gostaria. - Contudo, ao contrrio de voc, eu tomei precaues e me certifiquei de que todas
as minhas lareiras estivessem funcionando, antes de sair.
- Eu tambm o teria feito! - Cristy retrucou imediatamente.
- S que voc praticamente me arrastou para dentro do carro, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. Esqueceu-se?
De repente Dominic sorriu, um sorriso que a fez lembrar de tempos felizes. Ela lanou-lhe um olhar atravessado, enquanto ele dizia:
- Voc sempre teve um gnio dos diabos, Cristy. Acho que tem algo a ver com esse seu cabelo vermelho. Seus ancestrais... no ?
Dominic tirou o capuz de seu casaco e tocou gentilmente os belos cachos ruivos que emolduravam o rosto perfeito.
Uma sensao de calor a inundou. Mas Cristy deu um passo para trs, afastando-se instantaneamente dele.
O sorriso de Dominic desapareceu, sua expresso se fechou de novo numa carranca dura e fria.
- Voc tem dez minutos para pegar o que precisa - ordenou.
- A que horas seus pais voltam?
- No tenho a menor idia. Deveriam voltar hoje  noite, mas meu pai telefonou, avisando-me que iriam passar a noite l por causa do mau tempo.
- Hum... Se voc der o nmero, eu telefono para l e aviso sobre voc. Enquanto isso, junte suas coisas. E rpido, porque o frio aqui dentro d para congelar at
esquims.
Esse era o velho irmo de sua pr-adolescncia. Quis protestar, dizer que era capaz de tomar conta de si mesma sozinha, mas, enquanto procurava o nmero de telefone,
comeou a tiritar de frio.
No levou muito tempo para pegar tudo de que precisava mas, enquanto estava l em cima, pensou em trocar seus jeans molhados e o casaco, pois quando saram do Land
Rover para limpar a estrada e desatol-lo, a neve estava mais alta do que o cano de sua bota. H muito tempo que sentia a umidade mas no quis dar a Dominic nenhuma
chance para critic-la, e sabia que ele o faria, caso ela demorasse.
Com Amanda, ele seria um cavalheiro... Mas ela no era, Amanda pensou, amarga. Pegou o velho roupo e o colocou dentro da sacola com raiva e sorriu, para si mesma.
Se ela fosse Amanda, no estaria pegando um velho roupo confortvel, mas sim, roupas de seda e um tipo de lingerie que no aqueceriam ningum, de to decotadas
que seriam... Ah, esses cimes...
Dominic estava colocando o fone no gancho, quando Cristy desceu.
- Seus pais j estavam ansiosos para saberem de voc. Parece que tentaram ligar para c para verificar se voc estava bem. Expliquei-lhes a situao e disseram para
que no se preocupe, pois eles estaro de volta amanh depois do almoo.
"Ento eu no tenho que me preocupar", pensou, irnica, enquanto Dominic levava sua bagagem e trancava a porta de trs da casa. Como ela deveria sentir-se ento,
tendo que passar a noite com o homem amado, sabendo que ele no a queria? S esperava que Dominic lhe desse um quarto com chave na porta, para que pudesse tranc-la
totalmente. Tinha medo de si mesma... que contradio!
- Oh, no estou preocupada... - falou, irnica, recusando a ajuda dele para entrar no Land Rover. - Mas Amanda ficaria se soubesse que ns dois vamos passar a noite
juntos...
"Ele est certo: estou me comportando como uma boba", pensou, arrependida, observando-o ficar vermelho de raiva. Esperava que ele no percebesse que fazia isso por
cimes.
- Passar a noite juntos  um modo estranho de descrever nossa situao! - ele praticamente gritou. - E mesmo se fosse assim, por que razo Amanda, ou algum mais,
deveria fazer objeo? Ns somos ambos adultos, ainda que um de ns no se comporte como tal!
Cristy se mexeu, desconfortvel, no banco.
- No  minha culpa, se todo mundo pensa que voc e Amanda tm um caso... - ela murmurou.
Ele ergueu a sobrancelha irritado, fazendo-a pensar que tudo no passava mesmo de sua imaginao frtil.
- No fale bobagem, Cristy... Pode ser muito conveniente para voc acreditar que sublimei minha necessidade por Amanda fazendo amor com voc, do mesmo jeito que
voc diz ter me usado para substituir David Galvin. Mas no vai conseguir me fazer engolir essa fantasia absurda, simplesmente para acalmar sua conscincia!
- Mas voc estava saindo com ela...
Por que Cristy insistia to teimosamente no mesmo assunto? Dominic fez a curva, entrando no caminho de sua casa, e Cristy pde ver as luzes da manso.
- Estava mesmo? Voc parece saber mais sobre esse relacionamento do que eu! - ele cortou, seco. - Pensei que Amanda e eu tnhamos nos aproximado s por causa das
circunstncias.
- Mas voc...
Quase tocando no fato de ele ter ido a Londres com a morena, percebeu que ia cair em sua prpria armadilha. Cerrou os lbios firmemente, antes que acabasse lhe revelando
seus sentimentos.
- Pare de procurar desculpas, Cristy! - A voz dele era grave e denotava seu mau humor. - O que aconteceu entre ns, aconteceu, e eu no me arrependo nada por isso
ter ocorrido!
Dominic freou o carro bruscamente, desequilibrando-a. Ao recostar-se de novo no banco, Cristy podia ouvir as batidas do prprio corao, como se estivesse prestes
a explodir.
- Estou cansado desse seu tratamento frio, como se eu fosse um monstro. Sinto muito se eu no era o homem a quem voc queria entregar sua virgindade. Sinto mais
do que posso dizer... - A voz dele soava cansada, e Cristy sentiu-se culpada, pois aquele tinha sido um dia bem difcil para ele. - Se espera que eu pea desculpas
por ter feito amor com voc, ou que lhe diga que sinto muito, est perdendo seu tempo. Eu jamais o farei.
Pela primeira vez, desde que o conhecera, Dominic voltou-lhe as costas e deixou-a para trs, sem ajud-la a sair do carro, ou mesmo esperar que ela o seguisse. Ele
chegou rpido  porta da frente e Cristy o sentiu muito distante, com expresso exausta.
Dominic acendeu a luz do hall e a claridade revelou as linhas de tenso e cansao em seu rosto. Ele parecia esperar alguma coisa, mas o qu? Que ela lhe dissesse
que tambm no se arrependera, que... Oh, no! Ela no podia dizer aquilo, seno... ele iria pensar que...
Que ela gostaria de fazer amor com ele novamente? Que acaba ria por concordar com um romance passageiro, que talvez acabasse por destru-la?
- Dominic, no podemos declarar uma trgua, s por esta noite? Ele a encarou por um longo tempo, os olhos brilhando de uma
forma estranha, por entre os clios espessos. Fitava-a como se temesse fazer isto... Cristy sentiu o estmago contrair-se de dor, e umedeceu os lbios com a ponta
da lngua, nervosamente.
- Pelo amor de Deus, Cristy, no faa isso! As coisas j no esto suficientemente ruins, para voc se comportar de modo to provocante? - ele explodiu e viu tornar-se
plida a face de Cristy, mas j era muito tarde.
Ela se afastou, fugindo em direo  escurido gelada, as palavras dele martelando em seu crebro. De novo passado e presente se misturavam e ela voltara a ser a
garotinha de dezessete anos, vulnervel e tola, que lhe oferecera amor e fora rejeitada.
- Cristy! - ela o ouvia cham-la, mas a dor revivida impedia que qualquer idia racional penetrasse no turbilho de seus pensamentos.
A neve estava alta, dificultando sua fuga, mas ela ia cambaleante, sem saber bem para onde, querendo apenas fugir... fugir...
Quando Dominic a alcanou e segurou-a, Cristy gritou e tentou se libertar, empurrando-o como um animalzinho selvagem, caindo para trs e levando-o junto, na queda.
O peso de Dominic tirou-lhe o ar. A neve gelada machucava seu rosto, o choque a fez tremer convulsivamente: frio, angstia, dor, incerteza, todos os sentimentos
embaralhados.
- Cristy, por Deus... Voc est bem?
Ela comeou a chorar, desesperada, os soluos escapando de sua garganta, revelando finalmente toda a sua agonia. Sentia o calor das prprias lgrimas, correndo livremente
pelo rosto, enquanto Dominic se levantava.
Ele a pegou no colo, carregando-a de volta para dentro, para o calor da biblioteca.
Oh, Deus, se pelo menos fosse outro cmodo qualquer, mas esse! A neve ensopara as roupas de Cristy, mas ela nem se deu conta disso. Dominic a colocou em frente 
lareira e comeou a tirar-lhe as botas encharcadas.
- Cristy... desculpe... eu... eu... no quis dizer aquilo... - As palavras saram ofegantes e quase no chegaram aos ouvidos dela.
Cristy protestou, sob os soluos trmulos, quando ele arrancou-lhe as meias molhadas e esfregou-lhe os ps gelados.
- Cristy... me escute... foi s uma exploso... Esse meu gnio dos diabos! Eu nunca quis dizer que...
Ela o escutava, as palavras agora penetrando em seu crebro, seus olhos verdes encarando-o, ainda mergulhados em lgrimas.
- Venha, vamos tirar essas roupas molhadas... - ele lhe falava como se fala com uma criana, e, como uma criana, ela se deixara ficar, letrgica, deixando-o despi-la
e envolv-la numa toalha grossa, que trouxera l de cima.
- Voc fica aqui. Eu vou preparar uma bebida quente para ns.
Quando Dominic retornou, Cristy j tinha conseguido recuperar o autocontrole. Ao entregar-lhe a xcara de caf, ela lhe disse timidamente, um tanto envergonhada:
- Desculpe. Foi uma tolice minha ter feito isso.
- Ns todos fazemos tolices, de vez em quando. - Ele a olhou com um ar to perdido, que Cristy desejou segur-lo entre os braos, fazendo-o descansar a cabea em
seu peito.
- Foi maravilhoso... esta tarde - disse, ainda tmida, procurando um assunto neutro. -  lindo... ter um beb.
Algo no seu tom de voz deve t-lo atingido profundamente, porque ele perguntou, suave:
- Voc gosta de crianas, Cristy?
"S se fossem nossos filhos". Corou forte, porque pensara ter refletido em voz alta.
- Sim... eu gosto.
A expresso do rosto dele tornou-se sombria. Dominic levantou-se e a fitou:
- Droga! Eu prometi a mim mesmo que no iria interferir! Mas no posso ficar calado vendo voc arruinar a prpria vida! Pense em tudo que est deixando para trs,
por continuar amando David. Ele no ama voc da mesma forma! Voc precisa enxergar isso, Cristy. Ele nunca vai lhe dar filhos, pois j tem uma famlia.
Ela o fitou, aquecida pelo calor da lareira e pelo caf, estranhando a intensidade da voz grave. Por que aquela veemncia toda?
- Voc j esteve apaixonado, Dominic?
Ele franziu a testa e se afastou para que ela no pudesse ver seu rosto.
- Sim... - A voz dele soou rouca.
- E... ela te amou? - Cristy no sabia por que continuava se atormentando assim.
- Durante algum tempo pensei que sim... - As palavras eram ditas com grande esforo. - Mas... estava enganado.
Alguma garota nos Estados Unidos, calculou Cristy. Talvez tenha sido esta a razo de ele ter voltado para casa. Mas agora no iria perguntar mais nada. No tinha
o direito de faz-lo, nem fora para ouvir Dominic falar de um amor perdido.
- Tenho alguns relatrios para fazer. Voc se importaria se eu fosse trabalhar?
Cristy balanou a cabea negando e viu-o ir at a mesa e comear a trabalhar. Ele estava totalmente absorto e Cristy pde observ-lo  vontade.
Dominic trabalhou por quase uma hora, mas Cristy no ficou aborrecida. O crepitar da lareira e o suave roar da caneta no papel, enquanto ele escrevia; o fato de
estar ali com ele; todas essas coisas a enchiam de um prazer melanclico. Relaxando, acabou por adormecer.
Dominic parou de trabalhar e ficou olhando Crysty por muito tempo. Ento, a toalha escorregou, revelando os delicados ombros de Cristy, a suave curva de seu pescoo.
Ao se levantar para cobri-la novamente, ela acordou e abriu os olhos. Encontr-lo to prximo a abalou.
- Voc ainda est trabalhando?
- No, eu j terminei - deu-lhe um sorriso cansado. - Est com fome? Quer que eu prepare alguma coisa para comermos?
Cristy balanou a cabea negando.
- No, ultimamente ando sem fome...
Por um momento ele a fitou e Cristy percebeu-lhe a tenso.
- Oh, Cristy... Voc no est...
Ao sentir as mos fortes apertarem seus ombros, ela olhou para o seu rosto, atinando com o que ele queria dizer.
- No... eu no estou grvida...
Era ridculo, mas Cristy teve a impresso de ter visto um brilho fugaz de desapontamento nos olhos escuros. "Devo estar vendo coisas", pensou.
- Quando falei a respeito de voc estar sendo provocante, no quis dizer o que voc imaginou. - Dominic explicou num tom abrupto.
- Voc no quer me fazer lembrar de uma poca em que eu era boba e tentava ser extremamente provocante, no ? No, eu sei que no, Dominic... Eu no fugi por causa
disso... Acho que tudo o que aconteceu foi demais para mim - Ela estremeceu de novo, ao lembrar-se da sua tolice.
- Est com frio? - Dominic a fez colocar os braos sob a toalha.
- Eu vou l em cima acender a lareira de um dos quartos, seno voc vai congelar durante a noite.
- S uma lareira? E voc? - ela sentiu o rosto arder quando percebeu a ambiguidade de sua pergunta.
Para seu alvio, Dominic pareceu no notar. Ficou esperando que ele fizesse algum comentrio irnico, mas, em vez disso, ele respondeu natural:
- Oh, eu no preciso. No sou de sentir muito frio. Acho que tenho meu prprio aquecimento interno. Sua sacola est no hall. Quer que eu a traga aqui?
Cristy fez um gesto afirmativo com a cabea. Enquanto ele acendia a lareira no quarto, poderia colocar uma roupa. Embora no tivesse falado nada para Dominic, at
mesmo seu suti molhara por causa da queda, e ela estava ansiosa para tir-lo.
Esperou at que ouvisse os passos dele na escada, e s ento tirou a toalha, tremendo um pouco, a pele gelada pelo contato com a umidade da pequena pea ntima.
Cristy s havia trazido uma muda de roupa, e, depois de um segundo de hesitao, pegou um suter grosso e uma blusa de flanela, esperando que a espessura dos tecidos
escondesse o fato de no ter outro suti para colocar. Vestiu uma cala bege, que combinava com o tom amarelo bem claro da camisa e do pulver. Dobrou as roupas
molhadas e colocou-as dentro da sacola.
Quando terminou, percebeu que Dominic estava parado junto  porta, ao que lhe parecia, simplesmente olhando-a h um longo tempo.
- Est nevando de novo! - ele disse para quebrar o silncio.
- Ser que Lorna e o beb estaro bem? - indagou ela.
- Com certeza. Lorna  uma me experiente. No se esquea de que as pessoas que vivem prximas  natureza sabem como se proteger do tempo. So as pessoas da cidade
que no tm noo de como se defender. Se, por acaso, houvesse falta de luz, muita gente ficaria apavorada em seus apartamentos e casas sem o que fazer. Os Thompson
tm lareira e lanternas de parafina.
Como se fosse uma estranha coincidncia, a luz piscou duas vezes e apagou, deixando-os completamente no escuro.
- Era s o que faltava! - Dominic falou exasperado.
- Voc tem alguma lanterna? - Cristy perguntou.
- Devo ter alguma no poro, mas no tenho a menor inteno de ir at l e me arriscar a quebrar o pescoo! Vamos ter que nos virar sem luz. Aqui s h velas.
Candelabros e a luz da lareira. "Tudo ntimo demais", Cristy pensou, sentindo j o desejo  flor da pele.
- Fale-me sobre os Estados Unidos...
Dominic sentara-se bem de frente para ela, e, por um momento, ele a olhou como se soubesse o que sua proximidade lhe provocava.
- No h muito o que contar... - ele comeou, embora depois relatasse histrias muitas vezes engraadas sobre seus pacientes.
Ela o ouvia e ambos sorriam, esquecendo-se de que compartilhar sorrisos era at mais perigoso que o silncio...
Tomaram a refeio que Dominic tinha esquentado e servido, no deixando que ela o ajudasse. Agora, sentada com uma xcara de chocolate quente na mo, Cristy sentia-se
sonolenta.
Depositou a xcara vazia sobre a mesinha e se encolheu na poltrona, dizendo a si mesma que iria s cochilar...
Meia hora depois ela ainda dormia. Dominic a fitou por alguns instantes e depois carregou-a para cima. Ela ressonou suave, entre seus braos, descansando a cabea
sobre o peito largo, emitindo um suspiro de prazer. Dominic apertou-a mais junto a si e franziu a testa.
No quarto preparado para ela, a luz do fogo danava pela parede revestida de papel florido, com um desenho antigo.
Ele a colocou delicadamente na cama e jogou mais lenha na lareira. Aproximou-se novamente: no poderia deix-la dormir com aquelas roupas pesadas!
Cristy acordou ao perceber que ele comeava a tirar sua cala, protestando, sonolenta.
- Cristy, voc no pode dormir assim... Vamos, deixe-me ajud-la. Trouxe sua sacola aqui para cima.
Zonza de sono, ela tentou lembrar por que era to importante que Dominic no a despisse, mas o esforo era muito grande para sua mente entorpecida. Abandonou-se,
deixando que ele lhe tirasse o suter e depois a blusa. Ao sentir o ar gelado em seus seios nus, percebeu logo o que acontecera! O sono desapareceu num instante.
Abriu os olhos e viu-o fitando-a com desejo. Sentiu a resposta imediata de seu prprio corpo, sob a forma de um intenso calor.
No se surpreendeu quando ele a tomou nos braos. Parte dela estivera esperando por esse toque a noite toda... Esperando e... querendo esse toque!
Seus lbios encontraram os dele suavemente, sua peie se deliciando com a sensao das mos fortes se movendo ansiosas por todo o seu corpo.
Cristy sentiu o corao disparar e seu crebro girando alucinado. Existia desejo e uma fome louca de paixo no modo como ele a beijava. No ousaria nem pensar que
poderia recus-lo.
- Cristy, deixe-me ficar com voc esta noite... - As palavras foram ditas com os lbios passeando por sua pele, na suave curva de seu pescoo. - Eu te quero demais.
Ironicamente, se ele no tivesse falado nada, ela o seguiria at o inferno. Mas o tom grave, quase desesperado, da voz de Dominic, quebrou o encanto, e ela se afastou,
tremendo de tenso e desejo, mas tambm de medo.
- No posso...
- Por que no? - A voz de Dominic soava rouca e torturada.
-  por causa dele? - O rosto bonito se contorceu e ela reconheceu, finalmente o brilho escuro de desejo e cimes nos olhos dele.
- Talvez voc o ame, Cristy, mas no pode t-lo. E, alm disso, voc me deseja...
A mo forte acariciou-lhe o seio, como que para confirmar o que lhe dissera. A sensao delirante do seu polegar ao tocar-lhe o mamilo deixou-a sem flego.
- Fique comigo, Cristy...
- No... - A recusa saiu com uma voz estrangulada, artificial. Era demais para Cristy. Ela no conseguia mais fingir. - Voc no entende, Dominic - ela comeou,
hesitante. - Eu no amo David, nunca amei... Oh, ele me quis por algum tempo, sim, como queria mais uma dzia de mulheres. Sexualmente ele  bastante atraente, mas
eu nunca me senti apaixonada por ele.
Dominic a olhou duro, pensando numa mentira, mas ela o encarou fixamente at que ele enxergasse a verdade nos seus olhos verdes. Dominic ficou ainda mais tenso,
e disse, rude:
- Se voc no o amava, ento por qu...
Cristy no podia deixar que ele continuasse. J se revelara demais...
- Voc no  capaz de imaginar? Eu no queria fazer sexo comparava ele com voc...
Ela o viu encolher-se diante dessas palavras incompreensveis. Uma sombra escureceu-lhe o olhar, os ombros cados num gesto de desespero como o que ela sentia.
- No posso ir para a cama com voc, Dominic. No posso me envolver com voc num romance passageiro, porque isso me destruiria. Eu o amo demais para isso.
Pronto. Estava dito. Agora ele a deixaria sozinha. Cristy desviou o rosto, esperando que a porta do quarto se fechasse atrs dele. Dominic tinha seu prprio cdigo
de honra. Agora que sabia a verdade, ele entenderia, e assim, tensa, Cristy esperava apenas que ele sasse para poder desabafar todo seu desespero.
Quando Dominic a tocou, ela se encolheu, mas os dedos dele a agarraram com fora, obrigando-a a encar-lo.
- Deixe-me ver se consigo entender... - Falava devagar, respirando pesadamente, tentando manter o controle de sua fria. - . Voc no quer fazer amor comigo por
que me ama?!
Pela primeira vez Cristy teve realmente medo de Dominic. Ele no estava reagindo como ela esperava. Parecia furioso, violento, perigosamente rude, e a olhava de
um jeito que fez sua pele se arrepiar de novo.
-  isso que voc est tentando me dizer, Cristy?!
Ele a sacudiu, sentindo-a tensa sob suas mos. Cristy sabia que era tarde demais para mentir.
- Sim... sim.
Dominic a soltou to abruptamente que ela caiu sobre a colcha,encolhida e observando-o, nervosa. Ele olhava para o teto, mas na realidade no o enxergava.
- Eu no acredito nisso! - disse ele, com voz grave, rouca de raiva.
- Por que voc acha que fiz amor com voc da primeira vez na biblioteca? - A voz de Cristy estava distante, quase to descontrolada quanto a dele. - Certamente o
que senti no tinha nada a ver com David...
- Todos esses anos evitei voltar para c... Dizia a mim mesmo que o que voc sentia por mim era uma emoo passageira de adolescente. Mantive-me em contato com seus
pais, absorvendo cada pequena informao sobre voc que conseguia saber deles. Pensei que voc vivia feliz em Londres: a mulher de carreira, que pe o trabalho acima
dos sentimentos... Tentei esquec-la, eu juro que tentei, para no acabar ficando louco por ter me apaixonado por uma garota de dezessete anos! Ser que voc tem
idia do que isso pode fazer a um homem? Estava to desesperado que j no confiava mais em mim, sozinho com voc! Por que diabos voc achou que tudo o que eu queria
era apenas um romance passageiro? Cristy estava espantada demais para conseguir falar:
- Eu... voc... s disse que me queria... Eu pensei que era... s sexo... Quando mencionei Amanda, voc disse que ela estava  procura de um marido e que voc no
estava interessado...
-  claro que no estava! S existia uma mulher com quem sempre quis me casar. E essa mulher  voc!
Ele a abraou, apertando-a em seus braos fortes, e com voz rouca murmurou:
- Cristy... quando eu penso que ns chegamos to perto de nos separarmos para sempre... Hoje, quando voc disse que no me queria... - E parou, suspirando pesadamente...
- Eu no agentaria fazer amor com voc, Dominic. Estava apavorada, com medo de revelar-lhe meus sentimentos. Voc me ama de verdade desde aquele tempo? - perguntou,
ainda incapaz de acreditar.
Ele lhe deu um sorriso malicioso, maroto mesmo.
- Voc quer que eu lhe mostre quanto? - Sorriu abertamente ao ver a expresso incrdula no rosto dela, - Quando voc tinha dezessete anos, eu estava com vinte e
cinco, adulto o suficiente para saber o que queria da vida, mas velho e suficiente para me apavorar com o que sentia por uma garotinha. Uma das razes de ter ido
para os Estados Unidos foi por no confiar em mim mesmo. Temia manipul-la e acabar fazendo voc assumir um relacionamento para o qual no estava preparada. Eu acabaria
por tirar proveito de sua ingenuidade e faria voc casar comigo. Mas sabia que isso no era certo, naquele momento.
O polegar de Dominic acariciava levemente os lbios de Cristy, e ela o mordeu com suavidade, tocando-o com a lngua, consciente da reao que provocava nele.
- A primeira coisa que farei quando a neve diminuir ser conseguir uma licena especial de casamento - ele disse, possessivo.
Foi a vez de Cristy sorrir, um riso confiante, feliz, cujo som enchia o quarto de alegria.
- E at l? - ela brincou.
- Quando perguntei a voc, hoje  tarde, se estava grvida, eu torcia secretamente para que estivesse, assim voc seria obrigada a casar comigo. Acho que um filho
 uma boa maneira de me assegurar de que voc no vai fugir de mim...
Um filho de Dominic... A emoo tomou conta de Cristy e ela passou os braos em torno do corpo to desejado.
- Fique aqui comigo... - Cristy sussurrou em seu ouvido. - J passamos tempo demais separados...
- Cristy, tem certeza de que  o que voc quer?
- Absoluta!
Ela se moveu, encostando o corpo inteiro no dele, beijando-o suavemente, saboreando o gosto de seus lbios. Dominic, embriagado pelo amor e pela paixo, sussurrou:
- Se voc continuar se comportando desse jeito, vai se meter em grandes apuros, mocinha...
Reprimindo um sorriso, ela o beijou agora sensualmente, e respondeu, provocante:
- Hum... pois  exatamente o que estou tentando fazer...
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Penny Jordan - Adorao Selvagem
(Sabrina 481)




2
Projeto Revisoras

